Coluna Ozinil Martins | O Brasil e o brasileiro!

23 de Novembro de 2021

"(...) Lembro-me de uma destas estórias que usava para retratar o perfil do brasileiro, a dos catadores de caranguejo"

Como professor que sou, aprendi que quando se conta estórias fica mais fácil a assimilação do conteúdo da disciplina pelo estudante. Todo professor deveria ser, em essência, um contador de estórias, pois tornaria o ato de ensinar muito mais fácil. Lembro-me de uma destas estórias que usava para retratar o perfil do brasileiro, a dos catadores de caranguejo. Estas figuras que chafurdam nos mangues em busca de sua sobrevivência portam, em sua faina diária, apenas suas mãos como instrumentos de trabalho e um grande balaio de palha; a curiosidade é que este balaio nunca tem tampa. Há um bom tempo, em São Francisco do Sul, parei o carro e fui conversar com uma destas personagens e perguntei o porquê do balaio não ter tampa. Não me respondeu; apenas levou-me próximo do balaio e deixou-me concluir. Bastou uma simples olhada para entender! Os caranguejos sobem pelas paredes do balaio, mas, quando quase atingem o topo em direção à liberdade, são puxados para baixo pelos outros caranguejos e, assim, poupa-se a tampa do balaio.

O brasileiro, no geral, tem aversão pelo sucesso! Tudo para nós tem que ser nivelado por baixo; a crítica às pessoas bem sucedidas é imediata e eivada de comentários desairosos que acabam se transformando em “fofoca” e viram verdade na boca dos maledicentes. Lembro-me bem dos comentários feitos, na época, ao piloto Airton Senna. Bastou começar a vencer para ser vítima dos maledicentes e fracassados. Nas escolas os alunos bem sucedidos recebem apelidos extremamente pejorativos, no trabalho transformam-se em objetos de comentários maldosos, na política são ironizados por optarem por trabalhar pelo bem comum. 

Nelson Rodrigues eternizou a expressão ‘’complexo de vira-lata’’ no dia-a-dia do brasileiro. Diz ele: "complexo de vira-lata" entendo como a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem.” Sim, o brasileiro pensa pequeno e age sem ousadia e quando aparece alguém sonhando alto e tentando fazer a diferença, surge a vítima perfeita para as críticas que nos mantém vivos. Qual povo, recorrentemente, vê seus políticos indo ao exterior para denegrir a imagem de seu próprio país? Agora mesmo há um ex-presidente exaurindo-se nesta tarefa.

Como, na maioria das vezes, agimos de forma emocional, uma eleição para cargos públicos transforma-se em uma batalha e, fica pior com a postura adotada pelo lado derrotado. Tudo que seja feito pelo vencedor passa a ser objeto de crítica e desdém, pois se fossemos nós, faríamos melhor. Nós x eles, termo criado e incentivado, nos últimos 20 anos é uma doença degenerativa em que quem perde é o país e seu povo. 

O sistema eleitoral brasileiro prevê eleições de dois em dois anos e os políticos trabalham com este horizonte. Não se pensam os municípios, os estados e o país a longo-prazo. As obras têm que ser visuais, megalômanas e imediatas; às vezes basta inaugurá-las e levar o povo em fogo brando, pois um dia alguém vai concluí-las. No Brasil a política não visa o bem comum, mas do próprio político e seus apaniguados o que nos leva a uma infraestrutura precária, educação de baixo nível, assistência à saúde com todos os problemas que nos acompanham em cada telejornal. Um país rico com um povo pobre só se justifica pela falta de interesse de quem exerce os governos. Não tem inocentes neste processo, todos são culpados!

Prof. Ozinil Martins de Souza

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    Possui graduação em Geografia pela Fundação Universitária Regional de Joinville e pós-graduação em Educação pelo Instituto Catarinense de Pós-Graduação. Tem forte experiência na área de Administração de Recursos Humanos, Negociação Sindical, Consultoria Empresarial e Empreendedorismo e atua na área acadêmica.

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