Coluna Ozinil Martins | As mudanças não pedem licença!

09 de Janeiro de 2021

O processo de disrupção criativa que a humanidade está vivendo é similar, guardadas as proporções, ao ocorrido no início do Século XX quando não havia energia elétrica, carro e nenhum dos confortos da vida moderna

Imagem: Freepik

 

O anúncio de que a Ford deixará o Brasil pegou o governo e a todos de surpresa. Na esteira de outras montadoras que já tomaram e anunciaram suas decisões de sair do mercado brasileiro, não deveria haver a surpresa demonstrada. A Ford está deixando o mercado brasileiro como deixará outros mercados do mundo em função de opções empresariais e das mudanças que atingem o segmento automotivo.

Tem pessoas afirmando que a culpa é do governo atual. Basta uma pequena análise para, pelo menos, procurar entender o tamanho do furo da bala. O Brasil tem um mercado de 210 milhões de consumidores e a pergunta é: como uma empresa que está no Brasil desde 1919, abandona um mercado potencial como esse?

Tentando responder à questão, vamos aos argumentos. Segundo dados divulgados por órgãos do próprio governo, 60% dos brasileiros estão inadimplentes, logo, com poder de consumo reduzido ao essencial. Que mercado consumidor é esse em que os consumidores não têm poder aquisitivo? Se considerarmos a carga tributária que incide sobre os produtos, carros inclusos, ela beira aos 40%. Quando se compara o preço dos carros brasileiros com os de países vizinhos, a diferença faz corar de vergonha a cara dos brasileiros de bom senso. E, tudo acontece, para sustentar os luxos e mordomias de uma federação doente.

Esta análise nos remete a outros problemas seríssimos que afetam a estrutura social brasileira: concentração de renda e o estrangulamento da classe média. Claro que em um país com renda concentrada poucos terão condições de usufruir dos produtos com maior valor agregado e, se nos reportarmos a um vídeo divulgado na mídia social, em que a socióloga Marilena Chauí desejava o fim da classe média (estou sendo econômico nos adjetivos por ela usados), é possível entender a perda de poder aquisitivo. O estrangulamento da classe média é fruto da concentração de renda, da não correção da tabela do Imposto de Renda desde 2015 e da volúpia no governo na correção dos preços por ele administrados. Em 1996 trabalhei em Cuba e vi o que é a realidade de um país sem classe média. A grande massa dependendo das benesses do governo e a elite desfrutando de todos os seus poderes plenamente.

Outro ponto a ser considerado é o avanço tecnológico que coloca toda a cadeia automotiva em cheque. Sim, as próprias montadoras estudam mudanças na formatação de seus negócios. Quando chegar o carro autônomo a mudança será brutal. O carro, no modelo econômico que conhecemos, é um animal em extinção!

No mesmo dia o Banco do Brasil anunciou um plano de demissão incentivada para atingir até 5 mil bancários e fechar 355 agências. Motivo? Automação e uso de recursos digitais para atender a demanda de seus clientes. Lembrem que nos anos 70 do século passado os bancários formavam uma categoria com 700 mil filiados, hoje são menos de 200 mil. É a tecnologia, senhores!

O processo de disrupção criativa que a humanidade está vivendo é similar, guardadas as proporções, ao ocorrido no início do Século XX quando não havia energia elétrica, carro e nenhum dos confortos da vida moderna. Nossos antepassados saíram-se muito bem; a grande diferença reside no número de habitantes. De 1 bilhão saltamos para 8 bilhões!

Prof. Ozinil Martins de Souza

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    Possui graduação em Geografia pela Fundação Universitária Regional de Joinville e pós-graduação em Educação pelo Instituto Catarinense de Pós-Graduação. Tem forte experiência na área de Administração de Recursos Humanos, Negociação Sindical, Consultoria Empresarial e Empreendedorismo e atua na área acadêmica.

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