Coluna Ozinil Martins | Lá como cá: a história se repete

17 de Agosto de 2021

O que resta a nós, mortais comuns no jogo da geopolítica mundial, é entender que o povo é o que menos interessa quando se encontram em jogo as grandes questões mundiais

Imagem de ErikaWittlieb por Pixabay 

 

Em 30 de abril de 1975 os Estados Unidos da América sofria a sua maior derrota militar da história no Vietnã do Sul. Neste dia aconteceu a retirada, descontrolada, de americanos e aliados que haviam se envolvido na guerra que já persistia há 16 anos (1959 a 1975). Saigon, capital do Vietnã do Sul, capitulava e era tomada por tropas regulares do Vietnã do Norte e pelos temidos vietcongs. O envolvimento efetivo dos  americanos na guerra aconteceu nos últimos anos do conflito pois, na maior parte da guerra sua atuação foi no fornecimento de armas e equipamentos e, de conselheiros militares. 

A desastrosa retirada americana é simbolizada pelo helicóptero pousado no teto da Embaixada americana em Saigon e a fila de aliados vietnamitas em uma escada espiral que lhes permitia acessar ao aparelho que os levaria para longe de seus inimigos e, a imagem patética de um helicóptero, lotado de soldados, caindo ao mar quando se aproximava do porta-aviões que os levaria para casa; enfim uma retirada que parecia mais uma debandada. Tudo isto transmitido pela televisão em seus telejornais da época!

Em 15 de agosto de 2021 a história se repete! Agora não é Saigon, mas Cabul , a capital do Afeganistão o cenário de nova e patética retirada. A guerra com o Talibã começou após o ataque as torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Osama Bin Laden, terrorista chefe do ataque, refugia-se no Afeganistão. Após exigências americanas serem negadas pelo Talibã, entre elas a entrega de Osama Bin Laden, os Estados Unidos e aliados lançam a operação “Enduring Freedom” em 07 de outubro de 2001e invadem o Afeganistão. 

Antes de sofrerem a invasão americana, os afegãos se envolveram em uma guerra com a poderosa Rússia, no período entre 1979 e 1989. Foram 10 anos de lutas entre os soviéticos e os combatentes afegãos, chamados de “mujahedeen.” Profundos conhecedores do terreno e de suas peculiaridades os afegãos impuseram pesadas derrotas aos inimigos russos até expulsá-los de suas terras. A ironia fica por conta do apoio americano aos afegãos tanto em equipamentos, armas e munições como em apoio na formação dos soldados através de treinadores americanos.

Com a retirada americana resta saber como será e agirá o governo Talibã em relação ao seu povo e, principalmente, àqueles que, de uma forma ou outra, auxiliaram os americanos nestes últimos 16 anos. Quem leu o livro “O Caçador de Pipas” do escritor afegão Khaled Hosseini sabe que o Afeganistão tem sua formação étnica baseada na etnia pashtun (42% da população), a etnia tajique (33%), os usbeques (11%) e os hazaras (10%). A predominância pashtun impõe às demais etnias um sistema de servidão. Os combatentes do Talibã e os membros das forças regulares, que depuseram suas armas sem luta, são da etnia dominante e resta saber qual será a forma de relacionamento imposta às demais etnias. 

O que resta a nós, mortais comuns no jogo da geopolítica mundial, é entender que o povo é o que menos interessa quando se encontram em jogo as grandes questões mundiais. Assim como os Estados Unidos abandonaram e abandonam seus aliados pela segunda vez, a China, de pronto, reconheceu o governo do Talibã com a condição de que não haja interferência na população minoritária muçulmana que vive em território chinês próximo aos 76 km de fronteira entre os dois países. Esta população, nos tempos atuais, sofre forte isolamento por parte da China. A Rússia, esquecendo as velhas rusgas, também se posiciona favorável ao bom convívio com o novo governo. O governo Joe Biden sofre um forte fracasso e fragiliza suas futuras decisões. E assim caminha a humanidade!

Prof. Ozinil Martins de Souza

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    Possui graduação em Geografia pela Fundação Universitária Regional de Joinville e pós-graduação em Educação pelo Instituto Catarinense de Pós-Graduação. Tem forte experiência na área de Administração de Recursos Humanos, Negociação Sindical, Consultoria Empresarial e Empreendedorismo e atua na área acadêmica.

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