Coluna Ozinil Martins | E se o país mudar as prioridades na Educação?

21 de Setembro de 2021

“Cansei de lutar contra o celular, contra o WhatsApp e o Facebook. Eles me venceram. Desisto!"

Foto de fauxels no Pexels

 

Esta semana tomei conhecimento de relatos de professores, reconhecidos por suas competências, que decidiram abandonar seus cargos em Universidades. Um no Uruguai, outro nos Estados Unidos. A seguir a síntese dos relatos que suportaram a decisão.

O jornalista e professor Leonardo Haberkorn, da Universidade ORT de Montevidéu, diz: “Cansei de lutar contra o celular, contra o WhatsApp e o Facebook. Eles me venceram. Desisto! Cansei de falar de assuntos dos quais sou apaixonado por pessoas que não conseguem tirar os olhos de um telefone. Claro, nem todos são assim, mas fica cada vez mais difícil explicar como funciona o jornalismo para pessoas que não o consomem ou veem sentido em ser informadas. Nesta semana o assunto Venezuela surgiu na aula. Apenas um em vinte alunos soube responder o básico. Depois perguntei o que estava acontecendo na Síria; silêncio constrangedor foi a resposta. 

Perguntei se conheciam Vargas Llosa? Novamente o silêncio! É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais. Então, podemos ver que esses meninos – que ainda têm a inteligência, a simpatia e o calor de sempre – foram enganados, que a culpa não é só deles. Essa ignorância, esse desinteresse e alienação não nasceram do nada; mataram a curiosidade que tinham, quando professores deixaram de corrigir seus erros ortográficos, o que lhes ajudou a entender que tudo dava mais ou menos no mesmo. E o mau acaba sendo aprovado como medíocre; o medíocre passa a ser bom; o bom, nas poucas vezes que chega, é festejado como se fosse brilhante. Não quero fazer parte desse círculo perverso. Nunca fui assim, e nunca serei.”

Já o Professor de Filosofia da Universidade Estadual de Portland (EUA), Peter Boghossian, demitiu-se por sofrer perseguição ideológica da parte de colegas de profissão e de acadêmicos. Sua frase mais forte foi classificar a Universidade como fábrica de justiceiros sociais, onde não se ensina mais a pensar, mas a militar. Qualquer semelhança com um país ao sul do Equador é mera coincidência. 

Por ter convivido boa parte de minha vida no meio universitário, de 2003 a 2016, foi possível perceber, gradativamente, a queda no nível de qualificação dos estudantes na medida em que os anos passavam. De acadêmicos esforçados e dedicados a acadêmicos interessados apenas em ter o diploma de curso superior, como se este fosse lhes abrir todas as portas do mundo. As últimas turmas em que lecionei em 2016 fizeram com que entendesse que tinha chegado o momento de parar de lecionar. Quando as discussões se estabeleciam no entendimento de questões propostas e não no resultado do aprendizado; quando acadêmicos não sabem o básico de matemática, como regra de três simples e porcentagem, quando o professor tem que tomar cuidado com as palavras que usa, pois podem não ser do entendimento dos estudantes e, isto pode gerar reclamações na direção em razão do não entendimento das questões, está na hora de dizer, em alto e bom som que, Universidade não é para todos! Sei que muitos amigos não concordarão com minha afirmação, mas o FIES (Financiamento Estudantil) só foi bom para os grandes grupos privados de ensino. Os estudantes que o utilizam, hoje, ou estão no Serasa ou seus avalistas foram acionados para o pagamento. A inadimplência de 53,4% no pagamento das parcelas do FIES mostram isto. O mercado de trabalho é cruel com os que adquiriram titulação sem carregarem as competências exigidas pelo mercado. Não é atoa que o número de desempregados com diplomas de curso superior é um dos mais elevados entre os desempregados.

Em nenhum país do mundo o curso superior é para todos. Na Alemanha exemplo de distribuição de renda e qualificação profissional o percentual da população com curso em formação secundária completa é de 87% e a forte formação profissionalizante garante o altíssimo nível na qualidade de vida do povo alemão. 

Quem sabe se o Brasil decidir priorizar a educação básica e média proporcionando boa formação profissionalizante não seja um bom caminho? Menos bacharéis e mais técnicos? Só uma ideia já que o que produzimos não está gerando resultados que beneficiem as pessoas e o país! 

Prof. Ozinil Martins de Souza

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    Possui graduação em Geografia pela Fundação Universitária Regional de Joinville e pós-graduação em Educação pelo Instituto Catarinense de Pós-Graduação. Tem forte experiência na área de Administração de Recursos Humanos, Negociação Sindical, Consultoria Empresarial e Empreendedorismo e atua na área acadêmica.

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