Coluna Julio Pimentel | 60 anos na estrada: Estão abrindo uma agência no céu.

11 de Junho de 2018

Depois de uma longa parada, volto a trilhar o caminho percorrido nos últimos sessenta anos, que na verdade já vai se aproximando dos setenta. 

Pensando nos personagens com quem convivi, percebo que nestes últimos tempos vários se deslocaram para outra dimensão e podem estar compondo uma equipe de astros numa agência celeste. Julio Ribeiro, Zaragoza, Neil Ferreira, Domingos Logullo, Sérgio Azevedo, Altino de Barros, Nissan, Antunes Severo... Planejamento, criação, atendimento, mídia, tudo de primeira numa agência modelo. Não me espantaria nada se fosse o Petrônio a convocar essa turma. Só não imagino quais seriam os clientes.

Nas 19 colunas anteriores passeei pelo início da minha carreira, como pretexto para relembrar de pessoas e fatos que acredito interessem aos que militam nesta profissão. Comecei falando de meu início como entrevistador em pesquisas de mercado, fui para as Emissoras Associadas, Grant Advertising e, em 1959, Irmãos Lever, onde passei 10 anos entre Lever, Lintas, Atkinsons e Gessy Lever.

Estava justamente pondo minha memória para funcionar com foco naquela época, quando vi uma interessantíssima matéria de Alexandre Zaghi Lemos em Meio & Mensagem de 30 de maio sobre fidelidade de clientes com suas agências ou seja, quais as relações mais longevas no mercado. Juntando uma coisa à outra, encontrei umas imperfeições históricas, que comento aqui com intuito de colaborar.

Diz a matéria: “...o relacionamento campeão em tempo no País é entre Unilever e J.Walter Thompson, ativo desde que a agência norte-americana se instalou no Brasil, em 1929. A Thompson foi a primeira multinacional da publicidade a abrir filial no Brasil, para atender o sabonete Gessy, da Indústria Gessy Lever, precursora da Unilever – que internacionalmente já era seu cliente desde a inauguração da agência nos Estados Unidos, em 1902”.

Não é bem assim. O sabonete Gessy era produzido e comercializado pela Companhia Gessy Industrial desde 1913 e a Irmãos Lever começou suas atividades em 1929 no Brasil (Lever Brothers havia sido fundada em 1884 na Inglaterra). Em 1960 a Lever comprou a Gessy dando origem à Gessy Lever, que mais tarde se consolidou como Unilever, marca que já era utilizada há muito tempo internacionalmente. A conta da Gessy era atendida pela Multi Propaganda, do Grupo McCan Erickson e dirigida por David Monteiro. Nunca foi da J.W. Thompson, que atendia parte da conta da Lever, inclusive o sabonete, dividindo com a Lintas o restante da conta.

Em outro trecho, a matéria afirma que “...a relação entre Omo (Unilever) e MullenLowe começou no mesmo ano de 1957, mas houve um intervalo de 2007 a 2013...”. Também não é assim. A MullenLowe foi fundada em Boston no início dos anos 70 e OMO foi lançado pela Lever no início dos anos 60. Rodolfo Lima Martensen, que dirigia a Lintas, criou, ao lado de Luiz Homero de Almeida, a campanha de lançamento, que tinha como elemento marcante o vozeirão de Lima assinando os comerciais com um sonoro “OOOMOOO”.
Enfim, para quem viveu tudo isso fica mais fácil, não é mesmo?

Isso me leva a uns fatos pitorescos ocorridos com o sabonete Lever, que concorria com o Gessy. O precursor de Lux se anunciava como o sabonete das estrelas, afirmando que 9 entre 10 atrizes de Hollywood usavam Lever (os detratores diziam que a décima tinha um sabonete só dela...). Numa forte ação promocional, prometia-se dez viagens a Hollywood para quem encontrasse, dentro do sabonete, uma estrela de metal. Grande sucesso. Mas aí entram os fatos pitorescos: uma senhora, com seu marido e filho pequeno foram até os escritórios da empresa apresentando uma estrela de papelão pintada de amarelo que alegava ter encontrado no produto em uso. Foram encaminhados ao departamento jurídico, que já cuidava de outro caso, uma ação movida por uma consumidora que alegava que tinha encontrado a estrela durante o banho, mas tinha sido arranhada por ela.

Volto logo. Abraços.
 

Julio Pimentel

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