Coluna Inovação | Por que não existe um movimento de "media techs" no ambiente de inovação em SC?

17 de Novembro de 2019

Será que não conseguimos desenvolver aqui na região um ecossistema próprio capaz de apoiar projetos na área de comunicação?

 

Quando há uma revolução em curso, diversos sentimentos emergem. Medo, euforia, desconfiança… difícil é ficar indiferente ao ver que antigos padrões se romperam e surge algo novo que pode ser, para algumas pessoas, um péssimo cenário e, para outros, uma oportunidade para recomeçar ou fazer as coisas de outra maneira. 

Não trato aqui de revoluções políticas, mas de mudanças drásticas no comportamento social e na economia. Na forma como nos relacionamos e como se dá a relação de poder em determinado mercado. Trato aqui, especificamente, da revolução da comunicação e da indústria de mídia, que tem atingido seu ponto mais alto (em termos de impacto) nestes últimos dois anos.

Nesta semana, profissionais de comunicação foram pegos de surpresa com a medida provisória 905, proposta pelo Governo Federal e que prevê o fim da exigência de registro para jornalistas, radialistas e publicitários. É um forte indicador de que todo aquele modelo que vivemos nos últimos 50 anos - o de grandes grupos de mídia que contratam jornalistas diplomados e registrados em seus respectivos sindicatos - está sendo enterrado a sete palmos. 

Acontece que, mesmo que um esforço da categoria venha a derrubar a MP e volte à exigência do registro, nada indica que a situação vá mudar para os jornalistas ou as empresas de mídia. O ponto não é esse! 

No artigo anterior que publiquei no Acontecendo Aqui, argumentei que a transformação digital no jornalismo depende da transformação digital do jornalista. É mais uma categoria que precisa entender o cenário todo de mudanças no consumo de informação e, mais importante, qual é seu papel e sua relevância no século XXI. 

O mercado não acaba porque alguns veículos tradicionais deixaram de publicar edições impressas. A sociedade não pode prescindir de informação captada e veiculada de maneira ética, transparente e profissional. Se há abundância de informação - e joio demais (fake news) no meio do trigo - é porque há a demanda por informação. Há uma série de novos veículos e projetos editoriais - Nexo, Meio, Jota, O Antagonista, Agência Pública, Draft, Poder360 etc. - que são fruto dessa era de cauda longa da mídia online, do foco em canais segmentados e mais especializados. 

Há dois anos, um grupo de cinco universidades de Nova Iorque anunciou uma parceria para apoiar e defender o jornalismo independente - "um dos elementos mais importantes da nossa democracia", como está no manifesto Tech, Media & Democracy, publicado em setembro de 2017. O programa prevê estudos e a criação de um curso especial aos universitários sobre como o jornalismo pode sair fortalecido em tempos de "guerra à mídia" usando preceitos de engenharia, design, computação e outras tecnologias emergentes. Quem também colabora nesse projeto é o NYC Media Lab, uma parceria público-privada entre o órgão municipal de desenvolvimento econômico e empresas do setor de tecnologia e mídia local para desenvolver talentos, empreendedorismo e inovação. 

E ESTE é o ponto! 

Santa Catarina - e Florianópolis, num plano um tanto mais avançado - conta com uma base cada vez mais ativa de empreendedorismo digital, com programas de apoio, pessoas com alta qualificação técnica e conhecimento sobre modelos de negócio, além de uma rede de desenvolvedores de tecnologia para diversos segmentos. Um exemplo é o setor de marketing e vendas, como qualquer um dos 12 mil participantes do RD Summit pode notar ao circular no evento e na feira de negócios.

Pois, por que não desenvolver aqui na região um ecossistema próprio capaz de unir estas pontas, apoiando projetos na área de comunicação, que tenham modelos de negócio sustentáveis, gerando produtos e projetos inovadores, capazes de mostrar que "o estado mais inovador do país" é referência não só em adtechs, healthtechs, construtechs, mas também media techs?

PS: Quem se interessou pelo assunto não deve perder o evento que rola na próxima quinta-feira (21.11, a partir das 18h30), no Centro de Inovação SoHo, em Florianópolis, que vai debater as transformações da mídia e da maneira como as empresas se comunicam. O Meetup Test, organizado pela startup Raise Hands, terá entre os convidados este colunista que vos escreve, além do publisher do Acontecendo Aqui, Jailson de Sá. As inscrições, grátis, já estão abertas neste link.

 

 

Fabricio Umpierres Rodrigues

  • imagem de umpierres@gmail.com
    Fabrício Rodrigues, editor do portal SC Inova, é jornalista com especialização em Gestão Empresarial. Atuou durante 12 anos como coordenador em agências de assessoria de imprensa (Dialetto e PalavraCom), foi repórter em jornais como Gazeta Mercantil SC, A Notícia e Folha de S. Paulo e editor de sites de cultura desde os tempos da Internet discada. www.scinova.com.br / E-mail: scinova@scinova.com.br