Coluna Inovação | Nem tente saber onde estará trabalhando nos próximos anos

07 de Junho de 2018

É bom nos preparamos para um cotidiano de trabalho e relações pessoais cada vez mais guiado pela volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade

“Logo que, numa inovação, nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados.” (Nietzsche)

Os futuristas já alertaram: o mundo tende cada vez mais à volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. Nos termos em inglês, isso dá uma sigla, VUCA, que tem sido usada em inúmeros artigos e palestras sobre o futuro do trabalho e das relações pessoais.

Onde eu quero chegar? [Incerteza] Bem, nessa lógica do mundo VUCA, aquilo que tentamos planejar de maneira muito rígida e estruturada tende a nos frustrar [Volatilidade]. Mas muitas vezes de onde nem esperamos tanta coisa pode sair uma parceria de negócio, ou mesmo um relacionamento, uma amizade [Complexidade]. Assim como muitas oportunidades e planos em princípio sensacionais podem ir por água abaixo por mudanças no mercado ou mesmo por um desentendimento pessoal/profissional com o sócio [Ambiguidade]. Quem busca inovação em processos, produtos e modelos de negócios tem que estar disposto a sambar nessa VUCA toda.

Portanto, nem tente prever onde - e de que forma - você estará trabalhando nos próximos anos. A não ser que você tenha uma carreira estável na área pública e não pretenda sair dela. Se esse não for o caso, é bom se preparar para o "sabe-se-lá-o-que" dos futuros modelos de negócio e possibilidades de trabalho e renda.

Vamos pegar um exemplo recente do mercado: em abril passado, uma das gigantes da indústria catarinense, a Embraco, foi vendida por US$ 1,08 bilhão para a japonesa Nidec Corp. Parece uma montoeira de dinheiro - e é. Mas trata-se de uma empresa líder mundial na produção de compressores herméticos para refrigeração, que tem cerca de 11 mil funcionários em oito fábricas no Brasil, Itália, China, Eslováquia e México.

Por que ela foi vendida? Pela perda de competitividade da empresa e a queda recorrente de lucro líquido operacional, segundo detalha esta matéria do Valor Econômico. A dona da Embraco, a Whirlpool, se desfez da empresa por considerar mais estratégico o mercado de eletrodomésticos do que o de compressores. Tchau e benção!

Um mês antes, uma startup de Florianópolis que produz imagens em 3D para o mercado de decoração e varejo foi adquirida em uma negociação por volta de US$ 100 milhões pela norte-americana Creative Drive, uma holding que controla mais de 150 estúdios de criação de imagens no planeta. A Decora tem pouco mais de 130 funcionários (a maioria deles designers de interiores, arquitetos e programadores) e administra outros 400 fornecedores freelancers em países como Índia, Rússia e Argentina.

Por que ela foi comprada? Simples: eles desenvolveram softwares de produção de imagens que permitem fazer em um dia o que levaria um ano - por um custo até vinte vezes menor - no estilo tradicional de produção de fotos publicitárias. A Creative Drive estava perdendo clientes, nos Estados Unidos, para a Decora. E precisou aumentar significativamente a oferta de compra até fecharem o negócio.

Em resumo: graças a um produto extremamente inovador e disruptivo, o valor de mercado da "pequena" Decora foi equivalente a 10% de uma gigante da indústria nacional, que gerava 100 vezes mais empregos, mas que vinha perdendo competitividade.

Cofundador da Decora aos 19 anos, Gustavo do Valle, porém, está ligado nas armadilhas desse mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo: “hoje somos o maior player de imagens em 3D, mas a tecnologia muda muito rápido. Pode ser que daqui a um ou dois anos a nossa empresa nem exista mais, ou que surja alguém fazendo melhor e mais rápido que a gente".

Como escreveu Nelson Motta, tudo muda, o tempo todo, no mundo.

E não adianta fugir nem mentir para si mesmo.

Fabricio Umpierres Rodrigues

  • imagem de umpierres@gmail.com
    Fabrício Rodrigues, editor do portal SC Inova, é jornalista com especialização em Gestão Empresarial. Atuou durante 12 anos como coordenador em agências de assessoria de imprensa (Dialetto e PalavraCom), foi repórter em jornais como Gazeta Mercantil SC, A Notícia e Folha de S. Paulo e editor de sites de cultura desde os tempos da Internet discada. www.scinova.com.br / E-mail: scinova@scinova.com.br

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