Coluna Inovação | A encruzilhada da mídia, os mecenas, as tendências globais e um oceano azul para as commtechs

20 de Setembro de 2018

Enquanto milionários de TI compram revistas e jornais, um estudo aponta caminhos (e prioridades) para que os negócios de mídia agreguem tecnologia e gerem inovações

Era 2002, eu tinha 23 anos e atuava como repórter de política num jornal local quando discutia, entre amigos também jornalistas num desses botecos pé-sujo da cidade, como a nossa profissão estava indo rumo ao buraco. Éramos jovens e desde então desiludidos. Eu mesmo já tinha enfrentado um passaralho alguns meses antes e o estouro da bolha da internet acabou com o oba-oba de muitos projetos audaciosos na mídia online.

Passaram-se alguns bons anos e o buraco começou a ficar cada vez mais fundo: veículos tradicionais fechando, novos apareciam para desaparecer pouco tempo depois, nível de remuneração cada vez mais precário… tudo isso foi contribuindo para que vários talentosos colegas de texto decidissem mudar de profissão.  

Por mais que oportunidades digitais surjam em diversos setores - como já destaquei aqui na coluna com as construtechs, HRtechs, fintechs, retailtechs… - no setor de comunicação os modelos de negócio inovadores continuam sendo uma incógnita. No trecho final desta entrevista para o El País, Jaron Lanier, um dos pioneiros da Internet nos anos 1980 e crítico severo das redes sociais, reflete: "é preciso se perguntar por que pagavam pelos jornais no começo. Quando um jornal cria uma fama de confiável, isso é parte do seu valor". Mas aí veio o Facebook com um modelo de "mate o intermediário" e drenou boa parte do investimento em mídia para sua plataforma.

Falando em valor, é só pegar o exemplo da Time, icônica revista norte-americana que até hoje mobiliza a opinião pública global com sua eleição de "Personalidade do ano". No último domingo (16.09), circulou a notícia da compra da Time pelo magnata Marc Benioff - fundador da gigante de tecnologia californiana Salesforce - por US$ 190 milhões.

Detalhe: oito meses antes, a Time tinha sido adquirida pelo conglomerado Meredith Corp. por US$ 2,8 bilhões. O mesmo grupo também colocou à venda a Fortune e a Sports Illustrated, que reinaram em seus segmentos por décadas.

Um negócio pessoal, dele e da esposa Lynnie Benioff, justificado pelo interesse específico em "cuidar" (eles refutam a interferência editorial) de "uma mais importantes empresas de mídia e marca icônica no mundo", segundo o próprio. Mais ou menos como adquirir um Picasso ou um Rembrandt. Assim como fizeram Jeff Bezos, fundador da Amazon, ao comprar o Washington Post por US$ 250 milhões, e Laurene Powell Jobs (viúva de Steve) ao se tornar sócia majoritária da revista The Atlantic.

É isso aí, os novos barões da mídia são na verdade mecenas do setor de tecnologia preocupados na preservação de algo que eles consideram valioso mas que, pelo andar da carruagem, caminha para a obsolescência em plena era da informação.

Ou seja, está na hora de comprá-los e transformá-los. O New York Times é a maior referência: pensando digital e mobile há uns bons anos, o periódico seguiu crescendo no segundo quadrimestre de 2018, com 109 mil novos assinantes online, expansão de 2% nas receitas do período (US$ 415 milhões) e lucro de US$ 24 milhões.

Os mais otimistas enxergam um "oceano azul" (metáfora para mercados com pouca concorrência) para projetos de mídia com base em novas tecnologias, as "commtechs".

O estudo 2019 Trend Report for Journalism, Media & Technology (acessível aqui), destaca uma série de tendências e indica como os negócios de mídia devem agir para incorporá-las na rotina de produção, seguindo indicadores de urgência. Quando se fala em inteligência artificial, chatbots e blockchain, a recomendação é "aja agora", por exemplo.  

Certamente por isso, quem compreende a natureza e a importância da mídia não é mais somente o jornalista - mas quem busca respostas em soluções de tecnologia que já deram certo em outros setores. É o fio de esperança que precisa contaminar os profissionais e empreendedores de mídia (não os barões, mas os pequenos publishers, os autônomos etc.) na batalha (utópica?) de salvar o jornalismo.

Pois ao contrário nem haverá mais mecenas dispostos a investir o equivalente a um quadro de Rembrandt (como esse) para ser dono de uma das mais importantes revistas de todos os tempos.
 

Posicionamento digital & marketing para arquitetos e designers

Não são só os jornalistas que buscam referências, casos de sucesso e dicas eficientes para lidarem com as necessidades do mercado digital. O segmento de arquitetura, design e decoração também demanda boas práticas e um impulso por novos - e rentáveis - negócios online. Foi essa necessidade que levou o Shopping Casa & Design a organizar em Florianópolis, como parte das ações de 17 anos de atividade, um bate-papo com Diego Simon, CEO da startup Viva Decora e um dos cofundadores da VivaReal, sobre marketing e posicionamento digital para estes profissionais.

Logo depois, vai rolar um painel (mediado por este escriba) com alguns arquitetos que já são referência em projetos digitais (como Camila Saavedra, do Arquitetura em Destaque, e Thiago Bortolança, autor d'A Casa Masculina) e do editor de Conteúdo da Resultados Digitais, Flaubi Farias. Inscrições, gratuitas, podem ser feitas nesse link.

Fabricio Umpierres Rodrigues

  • imagem de umpierres@gmail.com
    Fabrício Rodrigues, editor do portal SC Inova, é jornalista com especialização em Gestão Empresarial. Atuou durante 12 anos como coordenador em agências de assessoria de imprensa (Dialetto e PalavraCom), foi repórter em jornais como Gazeta Mercantil SC, A Notícia e Folha de S. Paulo e editor de sites de cultura desde os tempos da Internet discada. www.scinova.com.br / E-mail: scinova@scinova.com.br