Coluna Inovação | As empresas que fizeram Florianópolis virar uma base global de inovação para seus mercados

08 de Fevereiro de 2019

Do agronegócio à produção de imagens em 3D, três negócios manezinhos se tornaram núcleos de desenvolvimento de tecnologia e produtos para multinacionais

Florianópolis, a cidade com maior concentração proporcional de startups do país, vem se tornando também a base de inovação para empresas de abrangência global que tem divisões de negócio na Ilha. Trata-se de CNPJs legitimamente manezinhos, desenvolvidos nas últimas décadas e que acabaram sendo investidos ou adquiridos por multinacionais. E, curiosamente, todas elas ficam ao longo da SC-401, batizada como "rota da Inovação" por concentrar centenas de empresas de TI, parques tecnológicos, aceleradoras, incubadoras e espaços para eventos do setor.

O caso mais recente é o da Agriness, fundada em 2001 e que desenvolve plataforma e metodologia de gestão para suinocultura, que detém 90% do mercado nacional. Em setembro passado, a empresa dos sócios Everton Gubert, Elton Gubert, Cristina Assunção e Junior Salvador ganhou um sócio peso pesado: nada menos que a Cargill, líder mundial em comércio de grãos e nutrição animal, com presença em 150 países e faturamento equivalente a duas vezes o PIB de Santa Catarina.

O objetivo do negócio foi desenvolver, em conjunto com a divisão Digital Insights da Cargill, uma plataforma multiespécie para gestão de produção animal, envolvendo as cadeias de suinocultura, avicultura e bovinocultura de leite. "A partir de agora nós somos o braço de inovação global da Cargill na área de produção animal”, resume Everton Gubert, CEO e fundador da Agriness. No mês passado, a empresa inaugurou em sua sede, no Techno Towers, a "Innovation Factory", ambiente dedicado ao desenvolvimento desta plataforma que deve ser levada a vários continentes a partir de 2019.

Antes mesmo da entrada da nova sócia, a Agriness já tinha um pé no mercado internacional, com clientes na Argentina (onde domina mais de 50% do mercado), Paraguai, Uruguai, Colômbia e Peru, por exemplo. “Hoje 15% do nosso faturamento está no mercado externo. A partir da chegada da Cargill acredito que em até uns cinco anos podemos inverter essa conta, com o mercado nacional representando 15% dos nossos negócios”, estima Everton. Por meio da tecnologia desenvolvida pela Agriness, são monitoradas mais de 2 milhões de matrizes (fêmeas) suínas na América do Sul, das quais 1,65 milhão no Brasil (90% do mercado) e 350 mil em outros países.  
 

Agricultura de precisão

A poucos quilômetros dali fica a sede de outra empresa que se destacou no mercado brasileiro e entrou no radar de uma gigante do seu segmento: A Hexagon Agriculture, resultado da compra da Arvus - startup fundada em Florianópolis em 2004 e que desenvolvia softwares para agricultura de precisão - pelo grupo sueco Hexagon.

A Arvus, que chegou a figurar entre as 10 empresas de pequeno porte que mais cresceram no Brasil (ranking Deloitte/Exame), optou pela negociação com a Hexagon no ano de 2014 em função do cenário incerto no agronegócio nacional (era o começo da crise econômica) e porque a multinacional tinha interesse em entrar no mercado brasileiro.

Os suecos decidiram não só manter o CEO e cofundador da Arvus, Bernardo de Castro, à frente da nova divisão Hexagon Agriculture, como também decidiu que Florianópolis seria a base do setor de pesquisa e desenvolvimento da empresa, que tem atuação global. “Somos a menor das divisões da Hexagon, por sermos também a mais recente, mas também a que mais cresce organicamente entre todas”, disse Bernardo em entrevista ao portal SC Inova.
 

Maior produtora mundial de imagens em 3D

A terceira empresa que leva a produção de Florianópolis mundo afora é a CORA CGI, ex-Decora, empresa especializada na criação de ambientes 3D para decoração. No ano passado estrelou o maior deal do cenário de startups de Santa Catarina ao ser vendida por cerca de US$ 100 milhões para a Creative Drive, holding que concentra 150 estúdios de produção de imagens no mundo.

Sem muita opção de clientes de grande porte no Brasil, os sócios apostaram no potencial do mercado norte-americano, onde começaram a atuar em 2015 e ganharam escala, grandes contratos e grande visibilidade no mercado - o que levou à proposta de compra, anunciada em março de 2018.

Com essa aquisição, a CORA CGI se tornou o braço global de CGI (do inglês, imagens geradas por computador) da Creative Drive, a partir de sua sede no CFL Square Corporate. Lá, trabalham cerca de 150 pessoas, que também gerenciam uma rede 4 mil designers e arquitetos atuando remotamente da Índia, Rússia, Argentina e outros países. Diariamente, a equipe da CORA chega a produzir mais de mil imagens em ambientes 3D, o que a coloca como líder mundial de produção de CGI.

Você pode nunca ter ouvido falar de nenhuma destas empresas, mas enquanto você estiver parado num congestionamento na SC-401, lembre que daquelas janelas ao seu lado, estão saindo produtos e inovações que geram negócios de ponta mundo afora.

 

Fabricio Umpierres Rodrigues

  • imagem de umpierres@gmail.com
    Fabrício Rodrigues, editor do portal SC Inova, é jornalista com especialização em Gestão Empresarial. Atuou durante 12 anos como coordenador em agências de assessoria de imprensa (Dialetto e PalavraCom), foi repórter em jornais como Gazeta Mercantil SC, A Notícia e Folha de S. Paulo e editor de sites de cultura desde os tempos da Internet discada. www.scinova.com.br / E-mail: scinova@scinova.com.br