Coluna Gaby Haviaras | Quando o sino toca o coração

02 de Maio de 2018

No ultimo fim de semana tive a oportunidade de participar de um retiro budista em São Paulo, no templo Higashi Honganji do Budismo Shin. O presente veio a convite de uma pessoa muito cara para mim, com a qual venho compartilhando experiências profundas nos últimos tempos. Não titubeei, nem questionei muito o que era, do que se tratava, como seria, só me preocupei em colocar um casaco na mala porque tenho medo de passar frio, mas meu desejo já tinha ido. 

Dentro de toda a minha ignorância sobre o Budismo, que não vai além de saber que é uma religião que há em diversos países, com linhas diferentes, mas que seguem as palavras e ensinamentos de Buda, que se medita, que se é zen e só. Fomos eu, minha ignorância, minha curiosidade, minha vontade de aprender, conhecer e conviver com o novo. 

As experiências coletivas dentro de lugares de espiritualidade não são muita novidade para mim, pois comecei desde cedo a buscar caminhos. A necessidade de me alinhar espiritualmente chegou para mim desde criança, nunca tive como fugir muito em procurar uma fé, um rito, uma filosofia. Com isso experimentei e frequentei diversos lugares e diversas religiões. E grata a todos os lugares por cada pedaço de mim que me ajudaram a construir.

Com isso, a chegada ao templo e o cronograma de estar três dias convivendo não me assustava, pelo contrário, foi o primeiro sinal de familiaridade. E justamente o que me assustou começou pela familiaridade, em diversos momentos das vivências propostas eu olhava pra os lados e pensava: isso tem tanto a ver comigo, acredito nisso também. Olhava algumas pessoas e parecia que já as conhecia há muito tempo. Eu me senti pertencendo.  

E o sentimento de pertencimento te disponibiliza para o novo, porque você passa na verdade a se pertencer. E aqui o sino bateu! Eu me emocionei e tudo fez sentido -9 a estrada até ali e estar no exato momento, no lugar certo, na hora certa. Em nenhuma das minhas experiências religiosas até aqui eu havia passado por tanta vida dentro de mim em pouco tempo.

Três dias de palestras, conversas e um turbilhão na cabeça. Imagens, sentimentos, reflexões, desassossegos, desapegos, dúvidas, certezas momentâneas derrubadas em segundos, admiração pelo desconhecido, laços novos. Um fluxo de emoções e impermanência e algumas certezas: minha ignorância sobre o mundo e principalmente sobre mim mesma, de que um mundo novo se abre, que as conexões estão acontecendo o tempo todo nas relações do mundo por conta da lei da causa e efeito. E a maior certeza de que algo muito profundo dentro de mim se rompeu nesta experiência. 

Que venha o desconhecido, o novo, o desafiador, o impermanente, pois, como diz a poeta: “quarenta anos, eu não quero a faca nem o queijo, eu quero a fome”. 

Gashô, Namu Amida Butsu Asao San
Gasho, Namu Amida Butsu todos do Otera Taiken

Gaby Haviaras

  • imagem de Gaby Haviaras
    Gaby Haviaras, catarinense, formada pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), com Licenciatura e Artes Cênicas. Gaby é atriz e comunicadora, além de possuir um potencial artístico e criativo que faz dela uma mulher multimídia, comunicativa e carismática. Com trabalhos de expressão na TV, no cinema, tem mais de 15 espetáculos no teatro, 25 anos de experiência em dança com prêmios no melhor festival do país.