Coluna Gaby Haviaras | Carta pra você!

21 de Novembro de 2018

Rio de Janeiro, 21 de Novembro de 2018

Foto: Carol Beiriz

Meu amor, 
A primavera tem sido muito instável por aqui. E mais instável ainda com essa distância, com o acontecido no país. O fim de ano aperta a saudade, a saudade do seu amor aperta a saudade. Então, para tentar afrouxar o tempo, resolvi escrever uma carta de amor. Coisa que poucas pessoas hoje fazem. 

Mas carta mesmo, dessas com selo, que vão pelo correio e que a gente espera o carteiro entregar. 
Escrever uma carta de amor é o coração tatuado no papel com versos da alma. Uma carta de amor é o desnudamento piegas com a canção mais brega ao fundo! 

Porque não escrevemos mais cartas de amor como antes? Mesmo que sejam páginas escritas sobre o que aconteceu ontem, sobre quem ganhou a eleição e a nossa indignação, sobre a violência e os preços altos da cidade. O amor enche linguiça pra criar intimidade em versos. 

Descobri que um amigo tem guardado 220 cartas de amor que seus pais trocaram ao longo do namoro. Moravam em cidades diferentes e se correspondiam semanalmente. Mergulhei em algumas cartas e fiquei imersa no filme desta relação. Recheada de acontecimentos cotidianos, descobertas, casos de família. Até mesmo o tempo se dilata nas linhas corridas do amor, o carteiro demora a chegar com a notícia, com a reação das suas palavras escrita alguns dias antes. Essas cartas têm me inspirado a escrever-te. 

Sei que te escrevo com uma frequência quinzenal tentando acompanhar os assuntos do mundo, mas hoje o carteiro digital entrega rápido, não causa suspense! E a rapidez da possibilidade de resposta nem nos faz refletir e realinhar frases mal feitas. Lemos, respondemos e enviamos selando esse rápido sentimento com uma carinha. Um amor construído em boa conversa solidifica códigos, fortificando um contrato de afeto simples em versos. 

Acho que o mundo poderia se mandar mais cartas de amor. Estamos precisando mesmo de boas palavras e sentimentos honestos. É preciso escrever cartas, deixar bilhetinhos, escrever com batom no espelho, mandar torpedos se suspiros no meio da tarde de trabalho, e-mails longos declarados e cheios de tons e entre tons. Estamos precisando escrever o amor, para o amor e sobre o amor. 

Aguardo sua resposta em breve.

Com amor, sua amada! 

PS: o espetáculo "220 Cartas de Amor" está em cartaz  no Teatro Poeirinha, no Rio de Janeiro, às terças e quartas às 21h até 12/12. 

Gaby Haviaras