Coluna Gaby Haviaras | Barraca da escuta

17 de Maio de 2018

Nos dias de hoje não podemos reclamar da falta de comunicação! Ela está mais rápida, praticamente instantânea, à mão: tv, internet, pad´s, ligações de vídeo, câmeras por todo lado. Telefone, então, nem se fala - ou se fala demais! Mas com toda essa comunicação, quem escuta ou ouve alguém? Ao que você realmente cede seus ouvidos? Você escuta os outros? Você se escuta? 

Perdemos a prática de escutar quando os aprendizados deixaram de ser passados pela oratória. Quando paramos de escutar e contar histórias, vamos perdendo o hábito de disponibilizar nossos ouvidos e, com isso, vamos deixando de aprender sobre nós, o outro e o mundo. 

Quando deixamos de colocar as crianças na sala e estimular a conversa, sem TV’s nem tablets com indagações do tipo "Como foi seu dia? Que história que você ouviu hoje?" estamos deixando de estimular a pedagogia da escuta, da observação e percepção do outro com o mundo ao contar suas impressões.
Escutar é refletir, sentir sobre o que está sendo dito, expandir o sensorial. O que você está ouvindo, se transformando em imagem e a simultaneamente em aprendizado. 

De repente, um bom negócio hoje em dia seria montar uma barraca da escuta: “Ouço você por  R$ 50 por uma hora!”. Ou quem sabe um combo: “Ouço você olhando nos seus olhos por R$ 100”. Com a tela do celular cegando o valor da relação com o outro, garanto que a clientela seria grande. 

O efêmero do contato humano, olho no olho, ouvidos, braços abertos e afeto disponível. Para estarmos neste estado precisamos exercitar a auto-precepção, a percepção do outro, a escuta de mim para comigo e para com o outro, seja ele conhecido ou desconhecido. O silêncio que precede a escuta. Silencie.  Você tem arranjado tempo para isso? Tem se ouvido? Se escutado? 

Ray Lima, um grande amigo e poeta nordestino, canta: “Escuta, acolhe, cuidar do outro é cuidar de mim, cuidar de mim é cuidar do mundo e cuidar do mundo é cuidar de mim, escuta”. Versos que nos convidam a sair do touch screen para o toque verdadeiro.

Que a paquera pelo torpedo saia para tomar um vinho e sinta a temperatura dos lábios e a sinceridade dos olhos. Um colo sempre é bom para assentar as dores, os sonos, os amores. Um bom papo com os celulares desligados pode ser um grande encontro. Toque, cheire, sinta, olhe e escute - é efêmero e às vezes inefável. 

Gaby Haviaras

  • imagem de Gaby Haviaras
    Gaby Haviaras, catarinense, formada pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), com Licenciatura e Artes Cênicas. Gaby é atriz e comunicadora, além de possuir um potencial artístico e criativo que faz dela uma mulher multimídia, comunicativa e carismática. Com trabalhos de expressão na TV, no cinema, tem mais de 15 espetáculos no teatro, 25 anos de experiência em dança com prêmios no melhor festival do país.