Coluna Fabrício Wolff | Rio de Janeiro nas entrelinhas

20 de Fevereiro de 2018

A teoria da comunicação mostra que existem quatro níveis de leitura, do mais básico ao mais avançado. Conhecê-los permite vislumbrar que há mais coisas entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia. Ou que há mais mensagens em textos comunicativos do que pode parecer em um primeiro momento. É o caso clássico da cobertura jornalística comprometida com interesses que vão além de informar, mas que também querem formar opinião específica.

Os níveis de leitura se dividem em intelecção (o básico entendimento do significado das palavras e, com isso, da mensagem), compreensão (a habilidade de, além de entender a mensagem conseguir explicá-la com suas próprias palavras), interpretação (conseguir enxergar as entrelinhas, os objetivos que o emissor da mensagem tem ao proferir um texto), e extrapolação positiva ou negativa (consiste em ir além do real objetivo da mensagem, seja por conhecimento de outros textos prévios que permitem enxergar mais além {positiva}, ou pela simples deturpação da mensagem por falta de conhecimento ou interesses escusos {negativa}.

A cobertura do telejornalismo da poderosa Rede Globo à intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro foi um case neste sentido. Os textos dos repórteres, em diferentes momentos e edições de telejornais, vinham recheados de críticas contumazes ao governador carioca Luís Carlos Pezão e ao prefeito fluminense Marcelo Crivella. As palavras utilizadas no meio do texto informativo eram acusatórias, demeritórias. Entre as informações sobre o fato da intervenção, ilações claras de rebaixamento e desprezo aos governantes daquele estado.

Aqui não faço qualquer juízo de valor à atitude de ambos, que se ausentaram do Rio de Janeiro durante o carnaval – a maior festa popular do Brasil. Mesmo porque não vejo como fundamental a presença de ambos na festa, já que eles têm prepostos (comandados) em várias áreas para cuidar do evento em todas as suas nuances. Só a insistência da Globo em criticar constantemente o fato de não estarem lá, já demonstra a má vontade jornalística contra tais governantes. Mas os textos Globais iam além. Recheavam o jornalismo de uma campanha no mínimo estranha. Há quem diga que tem a ver com o fato de que os governantes não azeitaram a máquina financeira publicitária para o carnaval, o que causa prejuízos ao bolso das grandes empresas de mídia.

Depois de Dilma e Temer, contra quem a Globo também orquestrou campanha negativa em seus telejornais, agora a bola da vez são os governantes do Rio de Janeiro que devem ter contrariado algum interesse específico da poderosa rede de comunicação. Só isso pode explicar o bombadeio direcionado aos governantes cariocas de maneira tão incisiva. Tudo bem, bater em político é preferência nacional e aplauso fácil (até porque a imensa maioria faz por merecer. Mas para quem conhece, vive e gosta de comunicação, perigo tão iminente quanto a violência e a bandidagem no Rio ou a corrupção da classe política, é a falta de ética no jornalismo. 

 

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Mais de 36 anos de experiência na Comunicação, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983.