Coluna Fabricio Wolff | Por que isolamento não dá certo?

10 de Março de 2021

A sociabilização trouxe a necessidade de comunicação, de interação, e de convivência física entre os seres para o DNA do homo sapiens.

A sociedade pandêmica atual procura respostas. Por que o isolamento social, sugerido por muitos como única saída para evitar a superlotação de hospitais e o colapso do sistema de saúde, não dá certo?

Talvez a resposta esteja exatamente na antropologia. Tornamo-nos seres sociais há  milhares de anos - e isso conta muito. Há aproximadamente 12 mil anos (entre 10.000 e 8.000 a.C.), no período conhecido como Mesolítico, o homem passou a realizar o cultivo de algumas espécies de plantas, bem como o início da domesticação de alguns animais. Em seguida (estima-se 9 mil anos atrás, entre 7.000 e 2.500 a.C.), o período Neolítico fez com que o homem primitivo intensificasse a prática da agricultura, deixasse de ser nômade e começasse a viver em sociedade fixa. Para isso, a comunicação, que já acontecia desde os primórdios tempos da caverna, entre grunhidos e pinturas rupestres, tornou-se fundamental. 

No momento em que o homem se tornou um ser social, comunicar-se mais e mais se tornou uma exigência. De lá para cá, o ser humano deixou de se comunicar apenas para aplacar as suas necessidades. A comunicação se tornou um modo de vida. A sociabilização trouxe a necessidade de comunicação, de interação, e de convivência física entre os seres para o DNA do homo sapiens. Há um punhado de milhares de anos, não se trata de escolha. É uma questão de sobrevivência. É assim que, hoje, o ser humano sabe viver. Não reconhece a vida de outra forma. 

É bem possível que seja por esta razão que os apelos de isolamento social feitos pelos governantes durante esta pandemia de Covid 19 não surtam os efeitos desejados. É contra a atual natureza humana. Digo atual porque, daqui há algumas gerações, quiçá algumas dezenas ou centenas de anos, talvez a situação possa estar diferente (pelas razões que me fizeram escrever este texto sobre o “isolamento digital”: https://acontecendoaqui.com.br/colunas/coluna-fabricio-wolff-o-verdadeir...). Mas a realidade do agora, é que o ser humano não consegue viver em isolamento, longe do contato real social, uma vez que há milhares de anos esta é a sua realidade de sobrevivência.

Pode parecer antagônico falar em sobrevivência através do contato social em época de perigo de contágio por vírus e da propalada necessidade de distanciamento das demais pessoas. Porém, é de se observar que o risco de morrer provocado pela pandemia, embora exista, não assusta tanto a humanidade quanto a ameaça de perder a única forma de vida que o ser humano conhece, que é a social. Bem provável que, por esta razão, a pregação do temor e do isolamento venha causando tantos transtornos psicológicos às pessoas neste período. Na prática, em Santa Catarina, vimos que o isolamento mais efetivo durou duas semanas naquele mês de março de 2020. Depois disso, as pessoas passaram a ter cada vez mais dificuldade de viver longe do contato social, mesmo com todas as facilidades da moderna vida tecnológica que oferece oportunidades dentro da própria casa. A cada mês que passa, apesar dos cuidados necessários, a necessidade de vida em sociedade empurra as pessoas para os contatos sociais. 

Não se trata de empatia, de negacionismo ou de desamor pela própria vida. É uma questão natural, antropológica, que ultrapassa as escolhas conscientes do ser humano. Parece claro que a questão, aí, é de sobrevivência do DNA.
 

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.

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