Coluna Fabricio Wolff | O verdadeiro isolamento social

14 de Setembro de 2020

Será que o isolamento social provocado pela pandemia é maior do que o auto-isolamento social provocado pela tecnologia

 

Em tempos de pandemia, o termo “isolamento social” veio à tona com toda a força. Apontado como “solução” para frear o Coronavírus, o tal isolamento se transformou em divisor de opiniões. Alguns a favor, outros contra. Afinal, esta estratégia mexeu com a cabeça das pessoas. De um lado, muitos perderam financeiramente. De outro, aquela sensação de proibição do cotidiano, de ter a liberdade cerceada, de solidão. Nunca um retiro (forçado) foi tão comentado, nunca um insulamento (provocado pelos outros) foi tão sentido.

 

Porém, aí vivemos um paradoxo. Será que o isolamento social provocado pela pandemia é maior do que o auto-isolamento social provocado pela tecnologia do celular 24h, da troca da vida real pela virtual?  Será mesmo que não estamos nos auto-isolando socialmente por vontade própria?  Se não, vejamos... Cena 1: o casal está no restaurante, sentado à mesa, sozinho. Mas ao invés de estarem conversando, curtindo o momento a dois, está cada um com seu celular. Cena 2: o ponto de ônibus tem pelo menos cinco pessoas à espera do transporte coletivo. São pessoas que pegam o ônibus costumeiramente no mesmo horário, logo se encontram com alguma frequência. Porém, quatro delas estão no celular, enquanto a outra olha, solitária, para o horizonte à espera do ônibus. Poderia eu discorrer sobre vários exemplos do cotidiano em que as pessoas se auto-isolam, mas esta é uma observação que o leitor pode fazer e constatar no seu dia a dia.

 

 

O paradoxo está no fato de que a mesma tecnologia que permite uma vida virtual intensa e falsamente sociável, afasta-nos do contato real com as pessoas no cotidiano. A sensação de contatos, “amizades” e vivências que a rede social nos oferece é inversamente proporcional ao isolamento social real que ela nos impõe. E nada de demonizar a tecnologia ou as redes sociais que elas contêm. O ser humano possui o livre arbítrio (pelo menos para a grande maioria de suas escolhas) e se deixa enredar pelas facilidades do mundo novo sem se dar conta do preço que paga pela sua omissão, inclusive a omissão de pensar e questionar o tema e as atitudes que dele advém.

 

Nosso isolamento foi uma escolha feita muito antes da pandemia. Foi uma escolha que nem notamos. Foi uma escolha feita quando nos deixamos inebriar pelas facilidades tecnológicas que propuseram – e depois nos fizeram reféns – da sociabilidade virtual. Locupletamos nosso ego, engendramos uma “sociabilização fake” e, nos casos mais graves, acredita-se que este é o mundo real. De maneira geral, muita gente está preferindo isolamento social real ao contato social humano e verdadeiro. Esta “preferência” acontece mesmo sem que a pessoa se dê conta, mesmo sem ter consciência. Fogem das complicadas relações humanas (mas ainda humanas) e se protegem no castelo virtual das amenidades ou dos embates estéreis. Talvez grande parte da sociedade não tenha percebido, mas escolhemos o isolamento social muito antes desta pandemia.

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(dedico este texto ao amigo Ronaldo Moreira, colega de trabalho, que em viagem recente abordou o tema que nos tomou longos minutos de troca de idéias e experiências sobre o assunto)

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.

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