Coluna Fabrício Wolff | O triste fim da má comunicação

24 de Março de 2021

A comunicação é o cerne da sociedade como conhecemos. Esta máxima percorre os textos de minhas colunas, assim como o sangue corre nas veias das pessoas. De tão conhecida, torna-se desnecessário justificá-la. Na última coluna antes desta, sacramentei o fato de que a comunicação fez com que a sociabilidade passasse a fazer parte do DNA do ser humano. Mas ao mesmo tempo em que a comunicação moldou esta sociedade como a conhecemos, ela é estratificada em níveis. Excelente, boa, regular, ruim, péssima... a comunicação pode se dar em qualquer um desses níveis, dependendo da capacidade da pessoa em utilizar as técnicas básicas ao se comunicar.

Há quem, com seus parcos conhecimentos comunicativos, que defenda que “se o outro entendeu, está bom”. É aquela pobreza de espírito que caracteriza os que têm dificuldade de aprendizado ou os preguiçosos em se empenhar para fazer melhor. Há toda a diferença do mundo entre se comunicar bem e se comunicar mal (ainda que o outro entenda). Isto porque ao se comunicar bem, o emissor da mensagem impele o outro ao resultado que deseja obter. Ao se comunicar mal, pouco resultado terá, quando não um grande mal entendido, que geralmente causa confusão e prejuízos. Certa feita, nesses 4 anos de Acontecendo Aqui, completados agora, disse que além do bom uso da mensagem, seu contexto, código, canal de comunicação e do conhecimento do próprio receptor da mensagem, a argumentação é fundamental. Ela divide os bons dos maus comunicadores.

Recentemente recebi uma mensagem de whatsapp de um amigo que tem uma posição política daquelas que radicaliza tudo, inclusive o Covid. Na verdade, o contato começou por causa de um amigo em comum, com quem já trabalhamos em uma redação, que contraiu o vírus e foi entubado em uma UTI. Na segunda mensagem que recebi dele, já veio um desfilar de termos agressivos, politizando a situação, vociferando contra líder político e, naturalmente, esquecendo o momento do amigo doente. Quis buscar a razão da troca de mensagens, que era o amigo doente, por quem temos grande apreço. Não adiantou. O importante era xingar a liderança política. O problema desses radicais, é que eles tendem a ser o “samba de uma nota só”. Você ouviu uma vez de alguém, já ouviu tudo.

Costumo pensar que sempre se espera mais de pessoas inteligentes. Que elas, em primeiro lugar, tenham a sensatez de separar um amigo na UTI da discussão ideológica nacional onde saúde virou política sórdida. Em segundo lugar, que elas consigam enxergar um contexto maior, como, por exemplo, de que dificilmente o defensor radical de um tipo de político terá arcabouço moral para ofender outro político. Esta situação piora quando o lado agressor tem como político de estimação alguém soterrado em denúncias de corrupção de todo o tipo. Mas piora quando o “argumentador” não consegue sair do mais do mesmo, usando “palavras de ordem” de ataque como se argumentos fossem. Isto pode até funcionar para aquele séquito radical que não pensa, que segue ideologias como se fossem ordens, que se convence de que aquilo está correto de tanto repetir na frente do espelho da própria mente. Mas não funciona com uma pessoa que pense, que reflita, que contextualize. Muito menos, com alguém que tenha a capacidade de formar opinião própria pela intertextualização de suas vivências.

É triste ver como algumas pessoas conseguem colocar seus radicalismos ideológicos acima da doença dos amigos, mas é tão triste quanto, ver que essas pessoas perderam a noção do seu poder de convencimento pela emburrecida argumentação que não passa de meia dúzia de frases repetitivas ditas como palavras de ordem de movimento de rua. Afinal, há aquela teoria que sugere que “as palavras que são ditas, são o espelho da personalidade da pessoa”. Espera-se mais da inteligência de pretensos formadores de opinião.

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.

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