Coluna Fabrício Wolff | O feminicídio da língua portuguesa

05 de Abril de 2019

Na coluna deste espaço publicada em 06 de março, abordei como tema o fato das novas “terminologias sociológicas” politicamente corretas terem invadido a sociedade brasileira e, de quebra, prejudicado a boa comunicação

Ao empacotar uma abordagem simples em um novo invólucro, os sociólogos de plantão conseguiram dificultar o entendimento das mensagens pelo receptor. Se você não leu, vale a pena resgatar a ideia, porque o conteúdo de hoje prossegue nesta linha...

Enquanto profissionais da mídia jornalística se debatem internamente com pequenas questões como definir se o correto seria usar o termo risco de vida ou risco de morte (ambos errados), foram engabelados pelo politicamente correto mais uma vez ao assumirem e usarem o termo “feminicídio” – uma das maiores bobagens etimológicas que já vi. Cada vez que ouço alguém da mídia utilizá-lo, dá-me arrepios. Por quê?

Simplesmente porque não há argumentação lógica para a criação e uso do termo. Exceto, claro, o brado vazio dos politicamente corretos defensores das minorias (?), que não raramente conseguem estratificar e dividir a sociedade entre nós e eles ou entre eles e os outros. Parece que o importante é redefinir, rotular e dividir. Em tempo: a interrogação separada, entre parênteses e após a palavra é mais do que justificada. As mulheres são maioria quantitativa em nossa sociedade.

Gente, “feminicídio” não existe (a não ser no “juridiquês”, mas em situação bem específica). Utilizar o termo ou é ação inocente útil de massa de manobra, ou é desconhecimento. Ou, como pregava Pierre Bourdieu (criador do conceito e do termo “massa de manobra”), a pessoa está se anulando enquanto ser histórico e protagonista deixando-se conduzir por uma ideologia dominante, ou sequer pensa no significado das palavras que diz, vomitando qualquer termo-asneira da moda. 

Não há uma justificativa plausível para a criação do termo feminicídio, exceto para contrapor a expressão homicídio. Mas, se esta for a razão, para o mundo que eu quero descer. Homicídio é o designativo para “assassinato do ser humano”, “tirar a vida de um ser humano”, “destruição voluntária ou involuntária da vida de um ser humano”, “assassínio”, “assassinato”. O termo homicídio se refere ao homo sapiens, e não ao gênero masculino comumente denominado homem. Nesta linha, inventar termos como feminicídio colocaria as mulheres à margem da criação humana. Seria o mesmo que dizer que os homens são seres humanos; as mulheres não.  

O respeito às mulheres, em sua condição de ser humano e do ser humano do gênero feminino, precisa ser construído na educação de base das crianças, em casa, dentro do seio familiar – e não na criação de terminologias sociológicas politicamente corretas da moda. Tratar um homicídio feminino como feminicídio não mudará em nada a cultura das pessoas em geral, muito menos daquela parcela de homens que possuem atitudes machistas. O respeito às mulheres não pode ser moda, precisa ser cultura. E não é agindo como manada, repetindo um termo bastardo como se fosse uma atitude inteligente que chegaremos lá.

Se a situação, de forma geral, já é indicativo de desprovimento de inteligência, o caso fica ainda mais sério – e pior – quando o termo é utilizado por profissionais da mídia; afinal, estes são arquitetos da palavra, precisam saber o significado (ou a falta de) daquilo que comunicam.

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.