Coluna Fabrício Wolff | O dia do dia daquele dia

30 de Agosto de 2017

Existem efetivos momentos em que a sociedade pratica a não comunicação. E um deles é a impressionante facilidade em criar datas para tudo. Temos dia para todos os gostos, mas, no fundo, eles acabam comunicando nada. Exceto, claro, um único fio condutor entre todas as datas comemorativas criadas: o interesse por trás disso. Seja ele comercial, eleitoral ou demagógico, é isto que une as datas comemorativas que na imensa maioria das vezes sequer lembram, quanto mais comunicam.

Os dias de alcance mais amplo, tem o condão comercial de tentar movimentar a economia. É o caso, por exemplo, do Dia das Mães, dos Pais, da Criança, da Mulher, dos Namorados... todos têm forte apelo comercial. Outras datas religiosas também foram açambarcadas pelo tino ‘dinheirístico’, caso do Natal e da Páscoa. Algumas datas não colaram comercialmente, como o Dia do Homem, da Avó e do Amigo. Mas ainda que não tenham pegado, não há dúvidas de que a intenção era comercial. Nada acontece – ou é inventado – por acaso.

Se passarmos os olhos pelos municípios brasileiros, vamos ver que os vereadores também ajudaram a criar muitas outras comemorações anuais através dos dias disso e dias daquilo. E não há exceções. Eles são instituídos em penca para agradar os mais diversos públicos. Só em Blumenau, por exemplo, temos centenas deles. É o caso do Dia Municipal da Família na Escola, do Jovem Empreendedor, do Combate à Pirataria, do Rio Itajaí Açu (sim, o rio tem seu dia), Dia Municipal da Conquista do voto Feminino no Brasil (hein?), Dia de Combate ao Preconceito às Pessoas com Nanismo, entre outros. 

Pelo Brasil afora se pode encontrar Dia Municipal da Penitência, de São Salvador do Mundo, Cultura e Paz, do Gaiteiro, do Direito de Nascer, da Vitória Aliada na Europa, do Baterista, do Ouvidor, etc etc e etc que não acaba mais. Você vai estranhar, mas existe até o “Dia Nacional do Quilo” e o “Dia do Aniversário do Buda Shakyamani”. Ou seja, tem dia para todas as crenças, para todos os músicos, para todas as doenças, para todas as profissões, para todos os gêneros, para todas as situações de parentesco e, tomando por base o “Dia Nacional do Quilo”, para todas as medidas também. 

Esta verdadeira enxurrada de dias comemorativos interesseiros consegue um único resultado. O total desinteresse do público pelo dia específico, logo, a não comunicação. Excetuando aquelas poucas datas comerciais consagradas, as demais não passam nem perto de alcançar seus objetivos. E não estou nem me referindo aos objetivos comerciais, eleitoreiros ou demagógicos. Estou falando dos objetivos de comunicação, mesmo. Com tantas datas, o público receptor da mensagem não lembra de nenhuma. Vai ao encontro da máxima de que quem muito fala, pouco diz.

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.