Coluna Fabrício Wolff | Ô Cride, fala pra mãe!

07 de Maio de 2021

"Um texto escrito e publicado pelo colunista Cacau Menezes em seu espaço no jornal Notícias do Dia leva à reflexão."

Um texto escrito e publicado pelo colunista Cacau Menezes em seu espaço no jornal Notícias do Dia leva à reflexão. Nele, Cacau fala dos estragos que a Revolução Cultural causou à nação brasileira desde os anos 80 e cita parte da música intitulada Televisão que diz, textualmente: “A televisão me deixou burro, muito burro demais(...) ô Cride, fala pra mãe, que eu nunca li num livro que um espirro fosse um vírus sem cura, vê se me entende pelo menos uma vez, criatura(...) que tudo que a antena captar, meu coração captura...”. O colunista segue sua linha de pensamento falando em um povo assistindo “barbaridades” nos telejornais, país mergulhado no caos social, violação de direitos constitucionais, desemprego etc, etc para depois fazer ilações comparativas do atual momento brasileiro a peças de Shakespeare.

Citando o texto de Cacau, no entanto, busco trilhar um caminho alternativo da leitura “visionária” dos integrantes da banda Titãs. É certo que nos anos 80, quando a música Televisão foi composta, já havia um questionamento social sobre o poder da mídia televisiva na formação da opinião pública brasileira. Os Titãs, então, externavam algo que era um fato concreto. A Rede Globo, por exemplo, alcançava 97% dos lares brasileiros e tinha quase que exclusividade da atenção das pessoas – falamos de um tempo em que não existiam canais fechados (por assinatura), nem mesmo serviços de streaming como Netflix e outros. A credibilidade do jornalismo, à época, era imensa. Os fatos levados ao noticiário televisivo não eram questionados. Desta forma, a mídia televisiva, mais do que levar informação, criava opiniões.

Abro parênteses aqui para ressaltar que as afirmações do parágrafo acima não são frutos do lugar-comum já conhecido e revelado aos brasileiros. Fizeram parte de anos de meus estudos acadêmicos e foram tema tanto de meu trabalho de conclusão de curso de graduação, quanto de minha tese de pós-graduação: A influência da mídia televisiva na formação da opinião das pessoas e, por consequência, na formação da opinião pública. Neles, a constatação de que as pessoas, em sua grande maioria com grandes dificuldades de efetuar a triagem das informações que recebem, são alvo fácil na construção de verdades. Com isso, a opinião pública brasileira fica algemada a interpretações e interesses que nem sempre estão alinhados somente à verdade dos fatos. É tema que engloba desde a educação de base à ética jornalística e que viraria um tratado, caso exposto aqui com profundidade.

A opinião pública deveria ser a soma da opinião (livre, aprofundada e própria) de cada pessoa que compõe o público, mas... nem é deste “lugar-comum” sobre o qual quero versar ao trazer o contexto da coluna do Cacau e a letra da música dos Titãs, mas sobre como as novas gerações estão ainda mais “capturadas” pela mídia – agora não só a televisiva, mas a do mundo virtual. A Revolução Cultural citada pelo colunista não só forjou uma geração mais afetada pelas construções sociais (hoje é possível ver pessoas relevando o “bulling” como possível causa psicológica para cometimento de crimes, por exemplo, quando há poucas décadas todos sofriam zoação na escola e isso não parecia manchar o psico das pessoas, nem alterar o comportamento delas), como também, agora, consegue mixar ficção e realidade na vida cotidiana das pessoas. Há quem acredite em amizades virtuais, relacionamentos virtuais e uma “realidade virtual” que não se sustenta no mundo real das ruas. Selfies ajudam a construir ególatras e ser um “influenciador digital” virou meta superlativa para muita gente.

Se nos anos 80, a televisão podia deixar burro demais, hoje o mundo web poderia deixar alienado demais? Ou o problema continua sendo a falta de capacidade intelectual e educação de base para saber procurar informações relevantes, filtrá-las e construir uma personalidade através de opiniões próprias? Se naquela década tudo que a antena captava, o coração capturava, estaremos vivendo, agora, um tempo em que o coração captura tudo aquilo que chega pela web, sem filtros, sem noção efetiva da realidade? E, para finalizar, será que ao termos uma geração que consome informações ainda menos aprofundadas, em uma infinidades de possibilidades – e ainda maior, de futilidades – teremos leitura suficiente para entender sobre espirros, vírus e outros temas da atualidade?

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.

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