Coluna Fabrício Wolff | Novos velhos tempos

21 de Novembro de 2020

Com o advento da democratização das “opiniões”, a falta de conhecimento, educação e bom senso de milhões de brasileiros foi desnudada pela possibilidade de se manifestar nas redes sociais

Nunca, em tão pouco tempo, vimos tanta polêmica, discordância e confusão em redes sociais como no Facebook quanto atualmente. O período eleitoral é campo fértil de debates estéreis entre militantes virtuais. Mas não é só em período eleitoral. O Brasil vive um momento único de dualidade ideológica, de posturas frontalmente opostas, de plena falta de inteligência empática: parece impossível discordar do outro sem procurar entender suas razões. A palavra de ordem é a discordância total, geral e irrestrita. E, claro, esta burrice radical é potencializada pela oportunidade à voz ofertada pela rede social onde os radicais se engalfinham.

Nesta hora, a gente tem a impressão que o país está descendo ladeira abaixo. Ledo engano. Ele continua o mesmo. A diferença está exatamente na democratização da vez e voz proporcionada pelo Facebook. Semi-analfabetos e ignorantes, no sentido mais literal de ambas as palavras, passaram a ser notados. Até o passado recente, somente os chamados “cultos” tinham acesso a expor seus conteúdos. Assim, professores, escritores, jornalistas, políticos, eclesiásticos e outros poucos grupos de pessoas tinham a possibilidade de se manifestar ao público. Eram poucos os que tinham o “poder da caneta” ou o “poder do microfone”. Isto tornava a exposição das opiniões mais homogênea, educada e... morna.

Com o advento da democratização das “opiniões” (ainda que a imensa maioria do que as pessoas pensam serem opiniões são tão somente posições tomadas pela falta de conhecimento do assunto discutido), a falta de conhecimento, educação e bom senso de milhões de brasileiros foi desnudada pela possibilidade de se manifestar nas redes sociais. E o que vemos é o Brasil real, repleto de briguentos virtuais defendendo posições sobre temas sobre os quais não pesquisaram, “acham” que conhecem e demonstram profundidade rasa de argumentos. Não bastasse isto, não é difícil encontrar verdadeiros assassinos da língua portuguesa que se expressam de maneira sofrível.

Para redes sociais como o Facebook, no entanto, este é o terreno fértil: a polêmica, calcada na ignorância, é um campo minado de comentários, likes, números... é disso que a rede vive: de números. Logo, quanto mais gente discordando, mais números, mais exposição de “opiniões”, mais filtros para definir os perfis, mais perfis a serem comercializados. Não se engane: o Brasil não mudou, os brasileiros não mudaram. O que mudou foi a forma com a qual somos explorados comercialmente, agora travestida de pluralidade de vozes, de diversidade de opiniões, de democratização dos canais de comunicação.

Fabrício Wolff

  • imagem de fabriciow
    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.

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