Coluna Fabricio Wolff | Fake News: o mundo da notícia (parte 2)

06 de Julho de 2020

Embora se coloque, por muitas vezes, as fake news como o grande mal da sociedade atual, as notícias falsas nada mais são do que fofocas...

Continuação do texto publicado na quinzena anterior

Uma realidade que, por vezes, as pessoas parecem esquecer, é que as chamadas fake news (notícias falsas) sempre existiram na sociedade. Afinal, o que são as fofocas de outrora – aquelas contadas pelas senhoras debruçadas na janela, pelas lavadeiras, pelas carolas após a missa – se não informações sem apurar a verdade dos fatos?  As fofocas agora ganharam um nome bonito e adequado ao estrangeirismo de povo colonizado (fake news) e, com o advento das redes sociais, alcance de força inimaginável àquelas velhas senhoras que, do beiral de sua janela, espreitavam a vida dos outros. 

Embora se coloque, por muitas vezes, as fake news como o grande mal da sociedade atual, as notícias falsas nada mais são do que fofocas com repercussão impulsionadas pela internet, ferramenta tecnológica desses novos tempos. A janela, agora, é bem maior e a fofoca chega a muito mais gente. E assim, como muitas das fofocas criadas pelas lavadeiras tinham maldade na informação, parte das notícias veiculadas pelas “pessoas normais” (não jornalistas) nas redes sociais também tem este viés maldoso, interesseiro. Alguma novidade nisto?

As redes sociais nada mais são do que o retrato da sociedade. Elas não inventaram, nem modificaram a essência social. Todas as besteiras, pessoas mal educadas, brigas e... notícias falsas que hoje pululam e povoam as redes sociais sempre estiveram presentes na sociedade pré-rede. Assim como conteúdos interessantes, positivos, pessoas bem educadas e notícias verdadeiras também estão nas redes sociais como sempre estiveram na sociedade. O mundo é assim, feito do bem e do mal e isso desde sempre, em todos os lugares. Buscar uma sociedade melhor, com pessoas melhores, é um desejo. Querer uma sociedade perfeita, com pessoas perfeitas, éticas e iguais, é utopia. 

Por vezes a impressão que se tem é que o meio jornalístico, cambaleante após o “atropelamento”, está preocupado com a perda do monopólio da informação, e a supervalorização das fake news foi a maneira encontrada para tentar manter o espaço que, até então, sempre foi do jornalismo. Desacreditar as informações veiculadas pelas “pessoas comuns” nas redes sociais – o único meio que essas pessoas têm para tornar público aquilo que desejam informar – equivaleria a reforçar a fama de credibilidade que o jornalismo sempre gozou. Mais: manteria o jornalismo necessário.

Se aprofundarmos um pouco a questão – e buscarmos analogias históricas – vamos verificar que a informação, a escrita e a junção dessas duas capacidades de tornar os fatos públicos através de registros na história, sempre foi uma habilidade de poucos para manter os privilégios de castas bem específicas. Com a evolução da humanidade, a aptidão de escrever fatos para a história se disseminou, mas sempre esteve controlada por aqueles que detêm interesses na manutenção do status quo. Afinal, os escribas sempre foram pessoas do ofício, servindo a alguém que lhes permitia publicar sua versão da história, ou nem necessariamente a sua, mas aquela que interessava à elite social dominante. Logo, não é de estranhar que esta versão da narrativa de um fato precisasse da aristocracia para convalidá-la e fixá-la no mural da história.

E, afinal... O que esta aristocracia, que tem como objetivo fundamental manter o status quo social, tem a ver com a fofoqueira lavadeira da beira de janela?  Quando se trata de notícias falsas, muita coisa. É só abrirmos os olhos para a própria história que vamos enxergar que em vários momentos as fake news foram utilizadas oficialmente para gravar determinada situação como verdadeira. Não vamos longe. Para ficar com exemplo bem conhecido: o quadro que representa o grito da Independência do Brasil, sobre um cavalo branco, às margens do rio Ipiranga, uma das cenas mais emblemáticas para a história do Brasil. 

Esta imagem foi construída para fazer da independência um ato heróico e ensinada por séculos nas escolas, porém Dom Pedro I montava uma mula – e não um imponente cavalo branco. Voltava de uma viagem do litoral de São Paulo e a comitiva, retratada com muita gente, não tinha mais de 14 pessoas, assim como não trajava vestimentas de gala como no quadro pintado e utilizado como notícia verdadeira até nos livros de História do Brasil. Por fim, nem às margens do Ipiranga Dom Pedro estava, mas sim em uma colina da região. Não obstante, a fake news foi criada para que a independência do país soasse como um ato heróico – e esta foi a “verdade” aceita por todos até bem pouco tempo, ainda que hoje se saiba que a autonomia brasileira foi, realmente, fruto de negociação e acordo entre as partes.

Por fim, no Brasil, Império e República utilizaram as fake news a seu bel prazer, emprestando-lhe contornos de verdade, porque somente quem possui o poder de escrever e tornar público o acontecimento deixa a versão gravada na história. Estudiosos de várias profissões, incluindo professores e jornalistas e, claro, toda uma elite dominante, corroboraram essas notícias falsas por anos, décadas, séculos. A verdade sobre as fake news é que elas sempre existiram com as bênçãos do poder aristocrático que as utilizou e utiliza quando lhe convém. Agora, no entanto, quando a aristocracia perdeu o controle da informação nesses novos tempos de tecnologia onde qualquer pessoa passa conteúdo informativo, as fake news “se tornaram” um perigo capaz de movimentar instituições nacionais para denunciá-la, freá-la, demonizá-la. O fato é que por detrás de toda grande movimentação, há interesses – e, geralmente, muito além daqueles que são explicitados.

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.

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