Coluna Fabrício Wolff | A enganação do jornalismo "engajado"

13 de Janeiro de 2021

"Ele não respeita os princípios básicos da atividade, nem mesmo a liberdade das pessoas... do público"

A teoria do jornalismo é bastante clara ao definir o que é: o jornalismo é a prática da divulgação da informação, de uma ocorrência, fato acontecido. O jornalismo se presta a informar as pessoas para que estas, com uma gama maior de informações, possam efetuar sua própria triagem dos fatos e formar opinião. Nas aulas que ministrava na cadeira de Ética Jornalística, costumava dizer aos estudantes de graduação que “o jornalismo é um processo. Existe um fato gerador e o profissional jornalista tem uma espécie de ‘procuração tácita’ do público para que este traga as informações sobre este fato às pessoas que compõem este público”.

Deste conceito, surgem duas vertentes práticas: a primeira ressalta a confiança da pessoa que compõe o público no profissional jornalista. A segunda, a imperiosa necessidade de que o profissional jornalista se atenha aos fatos ocorridos, sem cair na tentação de induzir a opinião do público. Não é esta a sua função. Mais do que isto, esta indução, ainda que nas entrelinhas, corrompe a confiança depositada pelo público neste profissional da notícia. É por esta razão que o bom jornalismo, praticado pelo bom profissional de jornalismo, se atém aos fatos concretos, sem interpretações, ilações ou versões.

Esta atitude não é tão fácil quanto parece. Na teoria jornalística ela é chamada de imparcialidade. Porém, o jornalista é um ser humano, eivado de crenças que o acompanham desde sua infância. Da religião à política, da simpatia por certos temas à antipatia por outros, a visão de mundo dos profissionais de jornalismo costuma embaçar a neutralidade desejada. Diz-se no meio teórico que toda narração de um fato vem naturalmente poluída por esta visão de mundo, seja qual for, que todo ser humano tem, visto que ela é formada a partir de sua criação, na tenra idade. No entanto, é obrigação do bom profissional de jornalismo buscar, trabalhar, lutar consigo mesmo em busca desta imparcialidade.

Com tanta dificuldade para chegar àquilo que seria o ideal, o desejado e o esperado de jornalistas e do jornalismo, de uns tempos para cá vivemos um período de escuridão conceitual, que se reflete na prática. Muitos e muitos jornalistas já não lutam contra suas crenças para trazer ao público a informação sobre uma notícia. Os veículos de comunicação, empresas com interesses midiáticos financeiros, parecem corroborar e incentivar o “engajamento” de seus profissionais em causas chamadas “sociais” (desde que, claro, essas causas estejam de acordo com os interesses da empresa). E o jornalismo, que era para ser a transmissão da informação, passa a ser um construtor de idéias e valores. Chamam a isto de “jornalismo engajado”.

Ora, o jornalista não é ativista de ONG e o jornalismo não é propagador de causas supostamente sociais, nem mesmo salvador da pátria. Não é papel do jornalismo “construir uma sociedade melhor”. A função do jornalismo é informar as pessoas do que acontece, ouvindo os dois ou mais lados de uma mesma história. Isto é o básico dos bancos escolares dos cursos de Jornalismo. Ele – o jornalismo – não existe para fazer “campanhas” redentoras. A imprensa não é – e nem deve ser – o arauto de verdades únicas e unilaterais. O jornalista não é um ser especial, ungido por sabe-se lá quem, para salvar o mundo com pseudo-verdades salvadoras por um mundo melhor. Não é para isto que o jornalismo existe, não é para isso que jornalistas existem.

O tal do “jornalismo engajado”, tão em voga na atualidade, é a morte do verdadeiro jornalismo. Ele não respeita os princípios básicos da atividade, nem mesmo a liberdade das pessoas... do público. Aquele mesmo público que, um dia, colocou uma “procuração tácita” nas mãos dos profissionais desta área, emprestando a eles credibilidade para que buscassem as informações e as divulgassem como princípio de verdade. A continuação deste “jornalismo engajado”, que extrapola a idéia de verdade e assassina o princípio da imparcialidade, pode trazer consequências graves para o mercado jornalístico, como a perda crescente da credibilidade.E isso é ruim para os negócios. Anunciantes e assinantes pagam por conteúdo. Quando este conteúdo cai em descrédito... E isto acontece exatamente no momento em que as informações chegam velozes (ainda que na maioria das vezes sem confiabilidade) pela internet, o que pode representar uma concorrência que só a ética jornalística, calcada nos princípios básicos da profissão, poderia combater.

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.

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