Coluna Fabrício Wolff | Elucubrações sobre Suzano

20 de Março de 2019

Por que nossos jovens chegam a este extremo? Por que matam pessoas inocentes? Por que cometem suicídio?

 

A sociedade brasileira ainda está tentando entender o que aconteceu em Suzano. Não os fatos da tragédia em si, pois esses já são conhecidos. Porém, é preciso se debruçar sobre o que está por trás desses fatos; é preciso tentar ler nas entrelinhas. Por que nossos jovens chegam a este extremo?  Por que matam pessoas inocentes?  Por que cometem suicídio?  Esta leitura é fundamental para entendermos o que está acontecendo e tentarmos, como agentes sociais do cotidiano que somos, mudar este estado de coisas.

 

Em sã consciência é inimaginável que alguém queira uma sociedade onde jovens cometem crimes sem razão; onde criminosos tem mais direitos do que as vítimas; onde o cidadão de bem tem medo de andar nas ruas. Não é possível conceber que alguém considere saudável ter uma nação dividida entre negros e brancos, héteros e homos, trabalhadores e empresários, ricos e pobres, azuis e vermelhos. Esta leitura precisa ser feita agora, porque os maus exemplos, a omissão e a desordem podem nos levar a outras Suzanos.

 

A impressão que dá é que em nome de uma liberdade sempre desejada, a sociedade brasileira perdeu o rumo. Esqueceu o respeito, a disciplina, a ordem. Em casa, muitos pais mal conhecem seus filhos. Nas escolas, professores são desrespeitados (e até agredidos) por seus alunos. Em um ônibus, jovens e adolescentes não dão lugar aos mais velhos. Nas ruas, o cidadão comum é ameaçado por aqueles que acham normal viver sem trabalhar e sobreviver roubando o que é alheio.

 

Parece-me que estamos vivendo o resultado da negligência de quem deveria educar, de ensinamentos midiáticos que criam e vitimizam “guetos sociais”, de ideias que separam ao invés de unir, que criam e “empoderam” minorias incitando-as a agir contra as maiorias... enfim, uma união de ações e omissões que rebelam as pessoas contra a própria sociedade. Não soa irracional deduzir que o desajuste social de pessoas como os jovens assassinos de Suzano são insuflados ao longo do tempo de suas vidas, em uma crescente onda de descontentamento que desemboca em ódio, empoderamento que leva à agressividade, isolamento que termina em desajuste social.

 

Tudo isto aliado àquele pouco respeito por tudo a que me referi acima (pais, professores, pessoas mais velhas, qualquer coisa que remeta à ordem e à disciplina), podemos dizer que vivemos sentados sobre um barril de pólvora. Ampliando um pouco mais o espectro de analise, é possível que isto explique a dificuldade da geração Y em se adequar à realidade da vida. Segundo estudos sociológicos, esta geração (também chamada de geração do milênio ou geração internet) não reconhece ordem hierárquica, logo não quer começar no mercado de trabalho por baixo (como todos que iniciam), não tem disciplina para trilhar um caminho profissional que não seja imediatista, não tem ambição de sair da casa dos pais e fazer sua própria história como era comum nas gerações anteriores.

 

Nós somos a sociedade. Nós a construímos. Logo, somos nós que estamos deixando que a água corra por debaixo da ponte sem verificar o seu rumo. Estamos, neste exato momento, construindo a sociedade que teremos logo ali na frente, daqui a 10 ou 20 anos, com reflexões para as próximas gerações. Quiçá tudo o que escrevi acima seja somente mais um devaneio de todos aqueles que buscam uma explicação, que buscam entender a barbárie cometida na Escola Raul Brasil, em Suzano. Quero estar errado. Preciso. Mas se por acaso não estiver, estamos seguindo para dias e décadas muito mais conturbadas que estão por vir.

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.