Coluna Fabrício Wolff | Educação como negócio

20 de Setembro de 2017

Hoje o texto da coluna é maior, mais longo, porque o assunto merece. Ele fala sobre o mercado de negócios da Educação, mas alcança também a comunicação. Primeiro porque negócios não vivem sem comunicação; segundo porque a própria educação depende da comunicação.

A educação brasileira é um problema muito além do olhar governamental, público. Se o país não consegue dar um ritmo prioritário àquilo que - todos sabemos - pode salvar o futuro da nação, seja por falta de dinheiro, capacidade ou visão, a realidade que se desnuda diante dos olhos daqueles que militam na educação é que o embuste ultrapassa as barreiras do poder público e se instala, como negócio, na área privada.

A maior prova disto é exatamente o tratamento que as instituições privadas de ensino superior (as chamadas faculdades ou universidades particulares) impõem a seus clientes – também conhecidos como acadêmicos ou alunos.

Não vou nem versar sobre a economia no investimento em material humano (número de pessoas, mesmo) e equipamentos (geralmente sucateados e em número insuficiente). Até mesmo na limpeza se economiza. Nelas, a conhecida relação custo-benefício é modificada para benefício-custo. O maior benefício (lucro) com o menor custo (investimento) possível.

Por vezes buscando cumprir metas impostas pelo Ministério da Educação, em outras realizando enxugamento de suas despesas para manter o lucro, professores que possuem também prática de mercado são substituídos pelos que detém apenas títulos acadêmicos mais “robustos”. Substituição pura e simples, sem análise caso a caso das potencialidades de cada um.

Não que os títulos acadêmicos não sejam importantes, muito pelo contrário. A imersão na teoria das coisas é sempre bem vinda, porquanto pode aprofundar o debate em sala de aula e no universo acadêmico. Pode ajudar o estudante a ampliar seus horizontes. Pode. Nem sempre o faz. Muitas vezes não acontece.

Isto depende imensamente da capacidade e da vontade do professor. E este ampliar de horizontes jamais estará completo se este professor titulado não for um profissional do mercado, não tiver real experiência prática daquilo que está ministrando para seus seguidores. Teoria e prática precisam andar lado a lado.

Em sala de aula, no entanto, se vê jornalista dando aula de atendimento publicitário sem jamais ter trabalhado na função. É possível encontrar publicitário dando aula de mídia digital sem jamais ter vivido esta experiência como profissional de mercado.

Vê-se todo o tipo de distorção para colocar um mestre ou doutor a dar aula em lugar de um especialista que vive diariamente a realidade da aula que poderia ministrar com domínio real da matéria.

Em contrapartida, as instituições privadas de ensino superior não dão qualquer contrapartida para que o professor possa fazer novas pós-graduações. Aliás, em verdade, a realidade de mercado diz que só pode efetuar um mestrado ou doutorado quem não trabalha no mercado profissional da área em que leciona.

O professor para conseguir cursar um mestrado ou doutorado precisa ter tempo disponível em dias de semana e finais de semana... muito tempo disponível. Ao mesmo tempo, paga caro pela pós-graduação em instituições privadas. Logo, não pode trabalhar e não trabalhando, não tem como pagar a pós-graduação.

Já um mestrado ou doutorado em instituição federal pode não ter cobrança de mensalidades, mas precisa de dedicação full time. Ou seja, o professor também não pode trabalhar para cursá-los. Logo, títulos são para professores que vivem somente a academia – e não a experiência do mercado de trabalho.  

Por outro lado, mestrados e doutorados cursados em instituições pagas deveriam estar em constante observação qualitativa. Você vê cada um com o título na mão, gente que sequer consegue escrever ou falar corretamente a língua portuguesa, que fica em dúvida se o velho “pagou-passou” não é mesmo uma realidade...

Você pode imaginar um doutor falando “pra mim fazer”?  Acontece. E muito. Será que nosso ensino que forma mestres e doutores está com nível tão baixo que permite a quem mal sabe escrever e falar receber títulos de mestres e doutores?

Claro que não é a regra. Existem ótimos doutores e mestres. Mas também não é a exceção. Sou capaz de apostar que muitos titulados entram na vala comum de não passar em uma prova de graduação em língua portuguesa, por exemplo. Ou de conhecimentos gerais.

Culpa deles?  Não, não. Às vezes são apenas cúmplices, mesmo sem saber.  Fazem parte do jogo do mercado. Outras vezes, buscam os títulos em faculdades suspeitas, inclusive no exterior para obter o “up grade” que o mercado exige, sem conquistar qualquer crescimento pessoal ou profissional. A culpa é das instituições de ensino e do sistema que fazem da educação um negócio e do ensino superior uma mercadoria.

Todos querem mais lucro, independente da qualidade que efetivamente repassam aos seus clientes. Tirando uma notinha legal na avaliação do MEC, é razão suficiente para dar prosseguimento à publicidade para captação de novos alunos.

São as mazelas da realidade privada no ensino superior. Grandes corporações da educação buscando o lucro e fazendo o necessário para alcançar as metas financeiras. Mas não venham me dizer que levam a sério a experiência de mercado de seus professores ou o crescer de seus alunos.

Por mais incrível que possa parecer, aquilo que seria fundamental para transmissão do conhecimento real (experiência na área de atuação) anda na contramão da possibilidade de conquista de títulos acadêmicos. 

 

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.