Coluna Fabrício Wolff | Da Esquerda à Direita

05 de Novembro de 2019

O Brasil parece estar dividido, bipolarizado, rachado. Intrincheirado entre os prós e os contras

O Brasil parece estar dividido, bipolarizado, rachado. Intrincheirado entre os prós e os contras. Esta é a impressão que temos ao acompanhar as discussões políticas, em especial nas redes sociais. Há dois pólos que se atacam constante e incessantemente. Azuis contra vermelhos, em uma luta de narrativas que cada qual acredita que é o bem, enquanto o outro lado representa o mal. Dois lados que, extremos, tornam-se parecidos. Colocam a ideologia acima da razão – e transformam esta ideologia em uma crença tão ortodoxa que não conseguem enxergar a realidade em que vivem e suas naturais nuances. Mas a pergunta que fica, é: o que isso comunica?

Ideologia deveria ser, de maneira geral, uma virtude. Junção de duas palavras do grego antigo (idea + logos = estudo do protótipo ideal), ela é a ciência que atribui a origem das ideias humanas às percepções sensoriais do mundo externo, proposta pelo filósofo francês Destutt de Tracy (1754-1836). Pode ser definida como a reunião das certezas pessoais de um indivíduo, ou ainda as características de um grupo, de um período, e que marcam um momento histórico. Enfim, a organização de ideias fundamentadas por um determinado grupo social. Porém, o estudo do protótipo ideal varia de pessoa para pessoa, de grupo para grupo... e perde o objetivo quando um quer sobrepor sua ideologia sobre o outro.

A ideologia, como praticada hoje no Brasil, é perniciosa. Ela cega a imensa maioria daqueles que a pregam. Tornou-se motivo de policiamento de pensamentos e patrulhamento de posições. Na atual situação do país, os ideólogos – de qualquer lado – namoram os extremos e se auto-intitulam donos da razão e da verdade. E todo mundo que não concorde exatamente com o seu modo de pensar e agir, vira inimigo. Mesmo que o inimigo esteja na mesma trincheira ideológica. Ou seja, deixamos de ter
pessoas com ideologia para termos ditadores do modo de pensar e agir. Aquilo que deveria ser usado para o crescimento do ser humano enquanto estudo dos modos de ver o mundo, foi reduzido à ditadura da opinião dos mais vorazes extremistas.

Este tipo de pessoa ideóloga acha que está sempre certa, que só ela tem razão. Não tem a mínima empatia pelo que os outros pensam, nem mesmo por seus motivos. A falta de empatia, aliás, é um traço característico dos psicopatas. São visivelmente doentes, mas geralmente conseguem agrupar ao seu redor um número de sofredores da mesma doença. São vários os exemplos do gênero na história mundial. Os loucos ditadores sempre tiveram um séquito que acreditava naquela loucura como se fosse a única verdade possível e existente. Talvez a diferença esteja apenas no fato de que na possível loucura ideológica das lideranças políticas brasileiras e seus seguidores, esteja também um bom bocado de interesses pessoais e de poder.

Os extremistas ideológicos que podem ser facilmente identificados no país, hoje – muitos vociferando em redes sociais, outros tentando implementar suas idéias à força nos corredores dos poderes, não são nada mais do que o mesmo que já vimos em uma história recente da vida política nacional. Em um momento em que proliferam ataques pessoais nas redes sociais, onde o respeito às pessoas que pensam diferente deixou de existir, onde tudo é permitido em nome de uma pureza ideológica ditatorial, eles – os ideólogos – comunicam que não estão preparados para levar a nação ao grande destino reservado ao “gigante pela própria natureza”.

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.

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