Coluna Fabrício Wolff | A comunicação em tempos de vírus

20 de Abril de 2020

É preciso estar aberto às opiniões que trazem horizontes e não fecham convicções

 

Não queria mais falar de Corona vírus, de Covid-19, do quanto esta doença está mexendo com o nosso dia a dia e com a saúde e economia do país. Porém, hoje tudo está relacionado a isso. O exagero de lives para informar sobre a doença, quando, depois de tanta informação já repassada, os números de casos e óbitos em uma imagem no fim do dia já seria suficiente. O mesmo exagero pode ser verificado na própria mídia. A vida continua apesar do vírus. Não que os noticiários não devam informar, mas só falar disso, além de cansar o público, dá a impressão que nada mais acontece no estado e no país. Das redes sociais, nem vou comentar. Cansamos de tantos “analistas”, “especialistas”, “julgadores”, bi-polarizando  a questão como se donos da verdade fossem.

É preciso estar aberto às opiniões (fundamentadas e bem argumentadas, claro) que trazem horizontes e não fecham convicções. A comunicação é a mola mestra da sociedade, porém uma pseudo-comunicação que fecha questão em torno de uma ideia única, massifica uma posição unilateral e fixa posição em um “samba de uma nota só”, é extremamente prejudicial para as pessoas e, consequentemente, para a sociedade. Quando, há décadas, solidifiquei minha linha acadêmica de pesquisa sobre a indução midiática para a formação de uma “opinião pública”, tanto na graduação quanto na pós graduação, não imaginei que tal situação se mostraria tão aparente e escancarada quanto hoje em dia.

O fato é que a vida continua e continuará para a imensa esmagadora maioria das pessoas após esta pandemia. A taxa de mortalidade é ínfima se comparada ao número de habitantes. Em 16 de abril, eram 1.761 mortes no Brasil para mais de 220 milhões de habitantes, o que representa 0,0008% do total. No mundo, na mesma data eram contabilizadas 133.666 óbitos para uma população de 7,7 bilhões de pessoas, ou seja 0,0018%. Ou seja, passaremos por este vírus com algumas baixas diretamente causadas por ele, mas com muitos problemas indiretos para todos. Ninguém rebate que será um tempo de dificuldades econômicas enormes, de não-avanços em diversas áreas devido aos investimentos emergenciais bilionários destinados ao combate do vírus, e de um atraso de pelo menos dois anos na retomada da economia nacional.

Por outro lado, quem trabalha no segmento da publicidade e marketing sabe que uma crise também gera oportunidades. Prova disto é que o comércio on line está apostando fichas na comunicação para o público do #fiqueemcasa. Aliás, no – agora mais lento – mundo da comunicação profissional da publicidade, as peças e frases colam na Covid, direta ou indiretamente, para potencializar vendas. É preciso fazer girar a economia, do jeito que dá. É preciso, em um momento tão difícil para todos, mostrar que a vida não acabou, o mundo não parou e que, apesar de mais parados, estamos vivos. Por incrível que pareça, vislumbrar um mundo em que as coisas ainda acontecem, agora, perpassam a sensação de vida e liberdade, duas das muitas que nos foram tolhidas graças à Covid. Restaurantes se transformaram em  “delivery”, pessoas passaram a fabricar máscaras em casa, surgiram serviços onde eles não existiam. Todo mundo querendo sobreviver economicamente de um lado, e querendo se sentir vivo do outro. 

Este vírus está deixando várias lições para todos. Uma delas, é que a comunicação pode ser perniciosa ou redentora. Outra é que os brasileiros se reinventam, ainda que o sofrimento econômico ainda esteja por vir. 

 

Fabrício Wolff

  • imagem de fabriciow
    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.

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