Coluna Fabrício Wolff | A colonização cultural midiática

05 de Dezembro de 2019

É fantástico como o brasileiro é afeito a estrangeirismos, desde expressões linguísticas, comportamento cultural, até hábitos de consumo. A Black Friday escancara esta realidade

Definitivamente o consumidor brasileiro incorporou o “dia de descontos especiais” como uma realidade imprescindível, assim como os norte-americanos, pais da ideia. Neste caso específico, não aderimos somente à expressão em inglês, mas também ao hábito consumista avassalador – ainda que os clientes tenham aderido mais à ideia do que os próprios comerciantes (onde, aqui, muitas vezes o desconto ou é pequeno ou é maior camuflado em aumento de preços nas semanas anteriores à promoção).

Mas este espírito de colonizado não é novidade. Nosso comércio, há anos, anuncia descontos como “x% off” e uma venda como “For Sale”. As expressões em inglês tomaram conta de vários segmentos, como se fosse a língua pátria. É claro que ninguém aqui contesta a importância da língua, considerada “universal”, para estar conectado ao mundo globalizado. Saber falar, entender, escrever, comunicar-se em inglês é fundamental. Porém, colocar as expressões salteadas no dia a dia, onde a comunicação é na língua portuguesa, (ainda) língua oficial do país, é passar atestado de inferioridade.

Porém, a colonização está escancarada em tudo – e não só uso da língua. Os “fast food” que tanto engordam os norte-americanos e fazem mal à saúde proliferaram por aqui, em especial nos anos 90 e 2000. E com a colonização gastronômica, claro, vieram também as expressões: nossos carrinhos de lanche viraram “food trucks” e nossos lanches “hamburguers”. A colonização gastronômica só não avançou mais porque a informação é veloz e fez com que as pessoas mais conscientes dessem uma maneirada nos pratos rápidos, calóricos e com poucos nutrientes. 

Poderia discorrer sobre tantos outros exemplos que nos empurram para o papel de colonizados – e olha que não estamos falando de Portugal e, sim, dos EUA. Uma colonização moderna, não pessoal-territorial, mas econômica e cultural. Nosso Dia das Bruxas (13 de agosto) foi praticamente esquecido graças ao Halloween (31 de outubro). Imaginamos nosso Natal com neve e o Papai Noel entrando pela chaminé (como se chaminés existissem naturalmente por aqui). Esta espécie de apropriação cultural tem influência direta da mídia, música e cinema.

É certo que os Estados Unidos, como potência mundial de primeira grandeza, tem facilidade para influenciar o modo de viver de outros povos. Porém, em uma leitura do que isto representa em termos de comunicação, é possível fazer a leitura de que somos altamente influenciáveis pelo meio, ainda que o meio não esteja exatamente em nosso ambiente. O descomplicado e rápido proliferar da informação de um mundo globalizado facilita as condições para que sejamos bombardeados pelos modismos externos. E uma grande potência mundial tem as facilidades midiáticas – logo, comunicativas - para, naturalmente, conquistar novos povos para sua colonização cultural.

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.

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