Coluna Fabrício Wolff | Bicho de sete cabeças

05 de Dezembro de 2018

Dia desses acompanhava os noticiários falando sobre a prova do Enem e notei como uma simples redação era pintada como um bicho de sete cabeças

Isso me fez pensar... Nos anos em que dei aulas de graduação nas disciplinas Língua Portuguesa, Redação Jornalística, Redação Publicitária, Jornalismo de Revista e Jornal Laboratório (para ficar só nas disciplinas que tratavam diretamente com texto), os alunos mais sedentos em dominar técnicas da escrita vinham quase sempre com as mesmas perguntas. As respostas podem ser simplificadas, mas elas sempre “viajam” para uma série de habilidades que podem ser cooptadas por aqueles que desejam fazer da escrita a sua arte. Ou a sua profissão. Dá na mesma. Afinal, quem trabalha com a palavra precisa ser tão bom com elas quanto um ótimo engenheiro com os cálculos, um excelente pedreiro com os tijolos ou um renomado chef na cozinha.

Sempre disse a eles que o básico para efetuar uma boa redação, é preciso ter um planejamento mínimo (que no decorrer da vida passa a ser natural. Você nem pensa mais nele, mas ele está ali, existe, no inconsciente). Primeiro é preciso saber sobre o que vai escrever. Isto ajuda a delimitar o assunto e não perder o foco. Depois é importante saber a quem o texto se destina. O público define a adequação da linguagem e faz atentar para as marcas do discurso. Outro passo deste “planejamento” é ter claro na mente o objetivo do texto. Com o objetivo, você saberá quais argumentos deve utilizar. O lay out também auxilia na conquista do leitor. A simples abertura de um parágrafo ou espaço maior entre eles, ajuda a “aliviar” os espaços, tornando o texto menos maçante.

É claro que no be-a-bá da escrita estão coesão e coerência. Como em toda e qualquer redação primária, elas precisam ter um início, meio e fim. É assim que um texto consegue ser compreendido. Também é básico ter em mente que toda frase tem uma estrutura completa e uma frase se articula com as outras frases. Com unidade, elas compõem um parágrafo. E é fundamental evitar que ideias importantes disputem lugar em um mesmo parágrafo. E quando se pensa no lay out, é interessante que os parágrafos tenham tamanhos (número de linhas) semelhantes. 

Mas existem pequenos segredos que podem fazer a diferença em uma redação (ou um texto, como preferirem chamar). Além do planejamento e do desenvolvimento lógico, é muito importante não alongar as frases. Geralmente se faz isto com o uso de vírgulas, que vão estendendo a frase, misturando ideias em uma mesma frase e causando a dispersão do leitor/receptor da mensagem. Com isso, há mais dificuldade em compreender o texto – um erro fatal para quem busca passar suas ideias através da escrita. Ser direto, com palavras específicas e concretas também ajuda muito a redação. Sem enrolar, é mais fácil do leitor captar a ideia sem se confundir. Dá para notar o quanto a clareza na colocação de palavras e ideias é importante, não?

Construir frases curtas, ter vocabulário, evitar rebuscamento vocabular, buscar a precisão nas palavras e articular logicamente as ideias, é sempre um ótimo caminho. Mas há segredos que funcionam muito bem antes de levar a redação, o texto, ao público – e que são, desleixadamente, deixados de lado com o passar do tempo. Em primeiro lugar, ler várias vezes o que escreveu antes de considerar a redação concluída. Isto ajuda a melhorá-la. Em segundo lugar, coloque-se no lugar da outra pessoa, do leitor, do receptor da mensagem. Se está faltando alguma coisa na história para que ela entenda, é porque a história não está sendo contada direito. Se você que escreveu vislumbrou que algo está estranho, imagine como será difícil para o leitor entender exatamente o que você queria dizer. 

Uma redação não pode ser, sequer, bicho uma cabeça. Hoje é bem fácil procurar na internet dicas para uma boa redação. Porém, o que a grande maioria das páginas esquece de dizer é aquilo que os mais antigos já falavam: para que tudo isso seja possível, há duas atividades obrigatórias e que precisam ser constantemente praticadas para quem quer escrever bem: ler muito e praticar a escrita com senso crítico.  

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Mais de 36 anos de experiência na Comunicação, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983.