Coluna Fabrício Wolff | 2020: Os fatos, as opiniões e os pitacos

07 de Janeiro de 2020

O novo ano já começa com um fato marcante: o ataque dos EUA ao general Qasem Soleimani, morto em Bagdá, Iraque. Ele era o homem mais forte do país acusado de proteger extremistas comumente denominados de terroristas. A notícia caiu como uma bomba (desculpem, trocadilho inevitável) nos veículos de comunicação de todo o mundo e, claro, para os pitaqueiros de plantão das redes sociais. Os arautos do apocalipse chegam a pregar a terceira guerra mundial. Ali, nas redes, todo mundo sabe tudo com profundidade para emitir o que consideram ser “opinião”, tão séria e crível quanto uma nota de três reais.

Abstraindo a importância do fato em questão (até porque relações internacionais não são, nem de longe, a especialidade desta coluna), o que chama a atenção é a parafernália de pitacos sobre o tema. Em primeiro lugar, porque muitos deles não têm a menor ideia sobre a profundidade do tema. O “achismo” impera. Em segundo lugar, porque outros tantos pitacos vem eivados de interesses ideológicos: como Bolsonaro vende a mesma linha de pensar de Trumph, a esquerda metralha o ataque norteamericano, enquanto a direita defende a ação.

O que nenhum desses pitaqueiros de plantão sabe é que pitaco não é opinião. Pitaco é coisa de boteco, conversa descomprometida de esquina, enquanto opinião exige conhecimento profundo sobre o tema, além de uma visão multifacetada das possibilidades, de preferência sem qualquer paixão ideológica. Uma opinião é coisa séria – e para ser levada a sério, precisa ser alicerçada pela intertextualidade do fato. Um fato sempre ocorre dentro de um contexto, onde fatos anteriores permeiam os fatos novos. Logo, sem conhecimento deste contexto histórico, uma opinião é um pitaco sem qualquer validade.

O que acontece no Oriente Médio já é de difícil análise para conhecedores do assunto, quem dirá para meros pitaqueiros de rede social. Além disso, a opinião é uma construção de informação e inteligência. Primeiro, é preciso que aquele que pretende criar uma opinião sobre determinado assunto obtenha informações das mais variadas (boas) fontes. E essas informações incluem o contexto histórico com os fatos anteriores. Isto demanda algum estudo sobre o tema. Depois, com as informações na mente, é necessário que o pretenso opinador tenha capacidade intelectual para filtrar as informações obtidas (informações, muitas vezes, vem poluídas pelas tendências do informante) e, estratificá-las e condensá-las, para aí poder chamar sua impressão sobre o assunto de opinião própria.

O que vemos nas redes sociais, no entanto, na imensa maioria das vezes, neste ou em muitos outros temas, são internautas sem noção de vergonha tentando mostrar sua parca inteligência sobre assuntos que não dominam. Parece que todo mundo sabe tudo de tudo, inclusive sobre temas específicos demais. Costumo usar o exemplo de uma vez que, em uma acalorada conversa sobre uma ponte de Blumenau, perguntaram-me qual a minha opinião. Eu disse, simplesmente, que não era engenheiro, nem engenheiro de tráfego, para ter opinião própria formada sobre o tema. E embora tivesse muitas informações sobre o assunto, inclusive estatísticas, não tinha o conhecimento teórico para emitir qualquer opinião sobre o tema.

Definitivamente, acredito melhor não passar vergonha e falar bobagem, ou mesmo fazer parte desta multidão de conhecedores de nada que vivem a pitaquear nas redes sociais. Melhor falar somente sobre o que efetivamente se entende. Como seria bom ver isso se tornar realidade nas redes sociais em 2020. Mas vislumbrar esta possibilidade é parodiar Dom Quixote lutando contra os moinhos de vento. Ainda assim, que em 2020 as pessoas pensem mais e pitaqueiem menos. Quem sabe, assim, começamos a construir uma sociedade mais correta e honesta.

 

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.

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