Coluna Economia | O paradoxo da economia criativa em tempos de pandemia 

27 de Março de 2021

A economia criativa é dividida em quatro áreas: consumo, mídias, cultura e tecnologia.

 

por D.J. Castro*
 

Desde a aurora da humanidade a criatividade é um dos principais fatores que nos diferencia de outras espécies. A capacidade de dominar o fogo, de domesticar animais, de criar uma linguagem, de expressar emoções através de narrativas, poesia, canto e música, ou seja, a natureza humana está intrinsecamente ligada à sua capacidade de invenção. 
A partir do momento em que o primeiro artista recebeu o primeiro pagamento pela expressão do seu talento começou a surgir a economia criativa. Hoje, ela é um dos setores mais importantes da economia global, movimentando mais de 7% do PIB mundial.

Formalmente, a economia criativa é dividida em quatro áreas, sendo elas: consumo, mídias, cultura e tecnologia. Abrangendo as mais diversas atividades, das artes à arquitetura, da publicidade à tecnologia da informação e até do design ao cinema. O que a sustenta é o capital intelectual e a criatividade. São eles que ajudam a impulsionar o desenvolvimento dos negócios no âmbito local, regional e nacional.

Todo ser humano é tocado diariamente pelos frutos da economia criativa. Cada livro, cada música, cada obra arquitetônica, e num mundo cada vez mais digital, todas a interfaces que utilizamos foram desenvolvidas por alguém, utilizando sua capacidade criativa. 

O setor como um todo é espalhado em todas as esferas da sociedade, indo desde o artista de rua até a megacorporação global de tecnologia. 

 

Economia criativa e os reflexos da pandemia da Covid-19 
Na pandemia da Covid-19 o setor se colocou em uma situação absolutamente paradoxal: enquanto as plataformas tecnológicas cresceram exponencialmente, devido à demanda por teletrabalho e comunicação à distância, Já por outro lado, os lockdowns e as restrições à mobilidade impossibilitaram grande parte das expressões artísticas interpessoais. As artes que dependem do contato humano sofreram e estão sofrendo uma crise existencial nunca vista antes. 

A renda dos artistas de rua, dos atores de teatro, dos promotores de eventos e de centenas de outras atividades foi completamente dizimada nesse tempo. Algumas ações eventuais de Governos chegaram a dar algum auxílio, mas por tempo limitado. Com a continuidade da pandemia a situação é cada vez mais grave. E a humanidade depende do contato humano, do toque, da proximidade. Faz parte da vida, faz parte da nossa sanidade.

Alguns conseguiram "digitalizar" sua presença e se adaptaram de alguma forma à nova realidade proposta pela pandemia, mas houve também um choque de demanda. Com as pessoas em casa, o consumo de produtos artísticos migrou fortemente para canais de streaming, gerando uma nova concentração e um novo balanço de forças. 

 

Perspectivas da economia criativa 
Quais são as perspectivas de futuro para esses criativos? Afinal, a criatividade tem um limite quando as condições da realidade são tão difíceis. Talvez a palavra-chave seja a empatia. Nós, que participamos da economia criativa e conseguimos navegar a crise com algum sucesso, temos que olhar para os demais agentes do setor e tentar entender quais são as necessidades, para tentar criar juntos uma nova abordagem para que essas expressões encontrem meios de se conectar com os públicos nesse novo cenário.

Há um universo de possibilidades para que essas pessoas se reinventam e sejam criadas novas formas de expressão e conexão com as pessoas. Seja pela tecnologia ou pelo uso de ideias absolutamente novas. A criatividade é o combustível da transformação e deve ser aplicada. Mas apenas isso não é suficiente, também é necessário que existam políticas públicas consistentes, não apenas os refluxos eventuais e reativos que vimos até o momento. 

Sem o fortalecimento da economia criativa como um todo, mesmo a parte que hoje está fortalecida sairá prejudicada. As grandes empresas de tecnologia, com suas plataformas globais e mídias sociais conectando bilhões de pessoas, precisam agir para fomentar as expressões artísticas e ajudar a criar novas formas de receitas ou até mesmo, novas plataformas surgirão para atender essa demanda. 

Temos que resolver esse paradoxo. Precisamos de uma economia criativa forte, crescendo a passos largos e apontando os caminhos do futuro. O fato é que a humanidade depende disso. 


*D.J. Castro

Estratégia de marcas e especialista em marketing. Fundador da Nexia Branding.
Conselheiro do SC Criativa. Vice-coordenador do núcleo de inovação da ACIB e Head de Comunidades da Blusoft.

 

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