Coluna Ana Lavratti: Que a dor nos revele seu lado inquiridor

13 de Abril de 2020

Na confusão do confinamento, a resposta pode não estar no que sabemos, mas no que perguntamos ou refletimos

Nos limites da clausura, posso escolher pra onde olhar: o problema ou a solução?

 

Nesta Páscoa com coelhos de máscara, que ao fazer graça da nossa clausura espalham doçura entre os mais solitários, não posso deixar de lembrar quantas vezes as coisas saíram diferente do esperado. Quando sem controlar o cenário, precisei controlar a mim mesma. Superar os meus medos, que sempre foram muitos. E reverter a necessidade que cresce em habilidade que aparece.

 

Como atleta de Aeróbica, perdi a conta das ciladas, desde as viagens para Santos e São Paulo, “acampada” em alojamentos e transitando de ônibus - chegando no ponto antes do sol nascer, pra conseguir subir com mala -, até as apresentações em plena madrugada, em outras cidades, sem qualquer planejamento de como voltar. E como bailarina desde a infância, só eu sei o quanto saltei rumo ao desconhecido.

 

Primeiro a dona da academia “esqueceu” de nos buscar na saída do Festival de Dança de Joinville, distraída em um bar. Sorte a nossa, minha e da amiga também adolescente, que os policiais se comoveram, nos levando de viatura, com muita paciência, a um endereço que tarde da noite nós custamos a localizar. Em outra ocasião, o plano era aproveitar o Verão, hospedada na própria escola de dança em São Paulo.

 

Instalada num corredor lotado de beliches, tudo era deslumbramento nos bastidores do Ballet Stagium, até a professora que embarcara comigo, minha tutora e amiga, desconfiar que estava grávida e anunciar que iria embora. Na minha ingenuidade, sem qualquer confiança pra circular sozinha em uma cidade grande, cheguei a organizar delivery de pizza e van pro shopping, pois assim sairia com a escolta da turma nos quatro fins de semana sem aula e sem família. Mas eu era assim, por mais que o contexto saísse do esquadro, confiava, seguia e perseguia.

 

Repetir precede o superar

como seguir precede o conseguir.

E quanto mais claro

for o motivo que me move

mais eu vou resistir.

E mesmo exaurida, persistir.

E dar o próximo passo

mesmo se julgo que não posso.

 

Anos mais tarde, cheguei ao Festival de Dança com motorista particular, quarto de hotel só pra mim e crachá com pleno acesso, como Jornalista do Diário Catarinense. Como repórter da Band, entrei ao vivo em inúmeros programas com transmissão nacional, do Jornal da Band ao Melhor da Tarde, dividindo a cena com toda a simpatia do Carlinhos de Jesus. Na excursão a convite do Governador do Estado, tive direito a camarote, delicioso jantar e a companhia do meu marido. Mas nenhuma conquista seria possível sem as minhas piruetas nos bastidores da dança, sem o sacrifício que precede o palco, sem distinguir a diferença do relevé pro elevé. E é assim, com o coração enlevado pela fé que já me salvou tantas vezes, que eu acredito que nesta Páscoa, confinados, podemos nos (con)fundir com um futuro melhor. Nos privamos dos abraços, mas nunca tivemos à mão tantos gatilhos pró-mudança: o prazer represado e a dor concentrada. A dor com lado inquiridor, que nos leva a perguntar o que podemos mudar.

 

A criatividade só opera na busca de respostas.

Sobre a dificuldade, é incapaz e inócua.

Porque só se pode dar asas à imaginação.

O problema não voa. No máximo ecoa

piorando a situação.

 

Quanto mais concretas forem as minhas associações entre o desvio da dor e a conquista do prazer, mais sou capaz de mudar, transformar... a fobia em fotossíntese, a inércia em ignição, o impossível em palpável, o perdido em reconstrução. Se em vez de centrar no problema, ou me deixar cegar pela vitória do outro, eu me concentrar na solução. Se em vez de invejar quem vive melhor eu der o meu melhor pra viver sem inveja. Se em vez de me agarrar no que eu presumo, eu formular a pergunta certa, a que induz a resposta correta...

 

Se deixar as certezas de lado,

vou ver que o avanço consumado

não é sorte nem acaso.

Ele é a soma de cada passo dado

e do meu aprendizado elevado ao quadrado2.

 

 

 

Ana Lavratti

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    Ana Lavratti é Jornalista e Mestra pela UFSC com pesquisa sobre a Notícia em Meio Digital Online. Multiplataforma, acumula experiência em mídia impressa, eletrônica e assessoria de comunicação. Também é escritora, autora de cinco livros e 3 e-books, e atua como colunista social desde 2014. www.analavratti.com.br / social@analavratti.com.br Curta o Instagram @analavratti

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