Coluna Ana Lavratti: A qual turma você pertence? Devagar e sempre? Ou divagar e nunca?

23 de Março de 2020

Quarentena com qualidade: vamos aceitar que o mundo está doente e se voltar para o ente. Não o outro, mas eu, indivíduo. Que às vezes relego, tratando como inimigo

Em casa, entre as telas e a janela, eu continuo tendo poder de escolha - foto Genevieve Bernardoni

 

          Feriado em Floripa. Aniversário da nossa cidade-fantasma. No meu condomínio, que pelo nome já denota a origem, Boulevard Trindade, construído em um bosque próximo à UFSC, com 200 apartamentos encravados entre árvores centenárias, só se ouve ao longe um “piu”. Pelas generosas áreas coletivas, antes lotadas de crianças, estudantes e aposentados em profusa interação, hoje só passa quem é fadado a passar... passarinhos, a cantar, sem entender o que se passa. Será? Os mosquitos, tão raros nos quase 15 anos em que vivemos aqui, acostumados a se fartar nas ruas, pela intensa densidade demográfica no entorno da universidade, nunca foram tão assíduos dentro da nossa casa, como se o vazio das ruas já impusesse um estranho jejum.

             Enquanto a origem do novo Coronavírus, ou Coronavírus 2, a SARS-CoV-2, do inglês Severe Acute Respiratory Syndrome, ainda é uma incógnita. Enquanto especulam se veio dos morcegos, nos sentimos todos cegos... em pleno tiroteio... E o colete à prova de balas é a fachada da nossa casa... Mas como viver em casa, fragilizado ou feliz, livre ou “entubado”, com planos ou com raiva, aí reside a diferença. Aí incide a nossa crença. Acreditar que temos poder de escolha e vamos sair desta ainda melhor. Ou que o destino está escrito e somos resultado do que se passa ao redor?

            Eu garanto, não é retórica. Somos de casa com “carteirinha”. Imunes à tentação do sofá. Imunes ao armário de doces. Imunes ao pijama quando à segunda pele ele se autoproclama. Entre 2014 e 2019, meu marido foi submetido a mais de 20 cirurgias, todas com anestesia geral e marcas profundas no corpo, na alma e nas nossas finanças. Algumas, em 2015 e 2017, com cortes de 30cm que levaram oito meses, reagindo desde a medula, até conseguir fechar. Exigindo repouso e reclusão. Exigindo extremo esforço, para mexer o corpo na medida certa. Exigindo o máximo zelo, para que o peso e a nutrição fossem aliados na recuperação.

            Por isso eu garanto, neste aniversário solitário de Floripa, enquanto a agência ECDC, o European Centre for Disease Prevention and Control anuncia que em poucos dias ou no máximo em semanas - caso medidas precisas não sejam tomadas imediatamente -, os países da União Europeia e o Reino Unido vão repetir a devastação da Itália, que hoje representa 58% dos casos e 88% das mortes neste contexto geográfico, que nós temos escolha. Ainda que o convívio tenha sido reduzido ao confinamento. Os sonhos ceifados. O salário podado. A saudade “fomentada”. As regras do jogo alteradas justamente quando a gente estava ganhando. Ainda assim, nós temos escolha.

            Dentro de casa, sozinhos ou acompanhados, podemos ser da turma do Devagar e Sempre. Ou da gangue do Divagar e Nunca. Podemos nos manter ativos, exercitando o corpo e a mente, fazendo exercícios improvisando recursos e comendo menos porque “gastamos” menos energia. Ou afundar no sofá, delegando o futuro ao “Deus dará”. Não que me falte fé. Muito pelo contrário. Enquanto as pessoas acumulam milhas, a nossa família acumula milagres. Meu marido superou a Trali, um colapso no pulmão, efeito colateral da overdose de transfusão. Apresentada na literatura médica como “potencialmente fatal”, a Trali exigiu nas semanas em coma quase 100% de respiração artificial. Quantos conseguiriam reverter? E ele voltou para a nossa casa. O Marcio só tinha 40 anos, e a maior ambição da nossa família era voltar para casa.

            Por isso agora, em casa, com saúde e comida. Com internet, menu de filmes na TV e overdose de informações pelas redes sociais, estamos filtrando tudo o que consumimos. Pode não ser sangue descrito em caracteres, A+, B+, O-, AB-, mas o excesso de letras também é letal. Melhor se concentrar no que podemos fazer. Nem que seja redundante. Entrar para dentro. Perceber o efeito da decrescente humanidade na decrescente imunidade, aceitar que o mundo está doente e se voltar para o ente. Não o outro, mas nós. Sujeito, figura, indivíduo. O ente mais próximo que temos. Nós mesmos. E que às vezes relegamos, tratando como inimigo.

 

 

  • Ontem o Brasil estava em terceiro lugar em incidência nas Américas, com 26.747 notificações nos Estados Unidos, 1.231 no Canadá e 1.128 por aqui. Hoje ultrapassamos, com 35.206 nos EUA, 1.546 no Brasil e 1.430 no Canadá. Segundo a agência de prevenção de doenças da União Europeia, European Centre for Disease Prevention and Control, são 338.307 casos notificados no mundo com 14.602 mortes atribuídas à Covid-19. #FiqueEmCasa. Fique bem.

 

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Ana Lavratti

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    Ana Lavratti é Jornalista e Mestra pela UFSC com pesquisa sobre a Notícia em Meio Digital Online. Multiplataforma, acumula experiência em mídia impressa, eletrônica e assessoria de comunicação. Também é escritora, autora de cinco livros e 3 e-books, e atua como colunista social desde 2014. www.analavratti.com.br / social@analavratti.com.br Curta o Instagram @analavratti

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