Coluna Ana Lavratti: O poder da palavra certa, da expressão que liberta, no diálogo interior

18 de Maio de 2020

No dilúvio de água fria trazido pela Covid, o que nos impede de afundar não é o lastro de emoção, mas a âncora da razão

Photo shoot na UFSC: pequenos prazeres nos abastecem para as grandes conquistas

 

Exatamente nesta data, há 5 anos, a minha vida mudava pra sempre. Porque 18 de maio é a data em que o meu marido entrou no centro cirúrgico, com o futuro tão suscetível quanto a camisola que ele vestia. Nesta data, há 5 anos, coube a mim aguardar, primeiro por 15 horas, sozinha na sala de espera, depois por mais 15 dias, até que saísse do coma, capaz de respirar sem o suporte dos aparelhos.

 

Nos três meses de internação, com o marido na cama e a filha “cigana”, ele em Curitiba e ela em Florianópolis, migrando de amiga em amiga, aos 9 anos, mantendo a rotina de estudos sem o amparo do pai e da mãe, era muito fácil me sentir como as pessoas se sentem agora, nocauteadas pelo Coronavírus... Catapultada pro topo de uma montanha russa, num sobe-desce desgovernado, parecia que tudo escapava do controle.

 

Sem poder reduzir o ritmo de trabalho, pelas contas gigantes do tratamento, impelida a conciliar o glamour da coluna social com as angústias do hospital, o prazer de escrever um livro com o medo de perder o marido, a glória de voltar pra universidade, como aluna do Mestrado, e as demandas pré-assumidas como assessora de comunicação, busquei no poder das palavras a fortaleza que eu precisava. Troquei a visão que eu tinha, de estar impotente sobre os trilhos, no carrinho da montanha russa, por um ir e vir mais suave, como a marola à beira-mar. Ao sabor da maré, eu continuava vulnerável. Empurrada e recolhida. Mas só mudar a expressão apaziguou meu coração.

 

Este poder, todos nós detemos,

de escolher a palavra certa,

a expressão que liberta.

Despistando o que é fantasia, aquilo que não condiz.

Pinçando o que é real e transformando em verniz.

Polindo a maneira como eu falo comigo.

Com qual vibração eu trataria um amigo?

De comando ou negligência?

De crítica ou paciência?

No diálogo interior, também funciona assim:

preciso pesar tudo o que eu digo pra mim.

 

Quando a Lara era pequena, e eu reclamava muito de viver cansada (em parte pelos hormônios instáveis e a anemia permanente) o Marcio me “ensinou” a renomear os compromissos da agenda. E foi só migrar funções da coluna do Devo pra coluna do Quero, que tudo ficou mais leve. De repente, comprar presente pras amiguinhas, fazer ginástica, ir ao supermercado, levar o carro pra lavar, entre outras atribulações transportadas de obrigação pra distração, ganharam nova aura na minha planilha de mãe. Pela simples mudança de designação. Exercitando na prática, por tentativa e erro, o que só vim a validar depois em palestras sobre Neurociência, percebi que a Dopamina, que nos empurra em direção a um comportamento positivo ou negativo, pode ser manipulada, trabalhando a meu favor.

 

Pra se ter uma ideia, o sistema de ativação de circuitos cerebrais nos coloca em várias armadilhas, capaz de me convencer que a procrastinação ou o exagero na comida, em detrimento do trabalho e da dieta, são as melhores opções. Às vezes premia o inconsistente com uma “recarga de alívio” pois valoriza o que é momentâneo, o que percebe na hora, em vez de computar o que não vê, os prejuízos que só vão se revelar mais tarde. Mas assim como podemos escolher as palavras, também é possível burlar o interesse do Sistema Dopaminérgico por prazeres imediatos, criando ilusões de resultado.

 

Se eu segmentar uma tarefa, fracionar um problema, ele percebe o prazer da conclusão, de excluir aquilo da lista – em especial quando comemoro e oficializo a conquista –, e assim a logística própria da Dopamina passa a me incitar a ir adiante e cumprir a missão. Quando a dinâmica da oportunidade se sobrepõe à do autoflagelo, porque em vez de uma meta distante estabeleci uma métrica ao meu alcance, consigo quebrar a inércia e avançar com competência. E é isso que eu sugiro pra semana que vem aí. Fragmentar o próximo passo e escolher com qual palavra será dada a largada. De fuga ou de busca? Passividade ou confiança? Se a Covid-19 nos trouxe um dilúvio de água fria, o que vai nos impedir de afundar não é o lastro de emoção, mas a âncora da razão.

 

 

Na Galeria de Fotos, nossa pílula de Dopamina: escapada com a filha até a UFSC, pra interagir com a natureza e renovar a certeza de que a Quarentena vai passar, os riscos vão passar, e os aprendizados do casulo vão ficar e nos transformar.

 

Photo shoot na UFSC
Photo shoot na UFSC

Ana Lavratti

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    Ana Lavratti é Jornalista e Mestra pela UFSC com pesquisa sobre a Notícia em Meio Digital Online. Multiplataforma, acumula experiência em mídia impressa, eletrônica e assessoria de comunicação. Também é escritora, autora de cinco livros e 3 e-books, e atua como colunista social desde 2014. www.analavratti.com.br / social@analavratti.com.br Curta o Instagram @analavratti

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