Coluna Ana Lavratti: O perigo de esquecer de si quando nos induzimos a só dizer sim

21 de Janeiro de 2019

Pra começar a semana, eu exploro como é bom ultrapassar o dom de reagir, ao que pressupomos que os outros precisam, e passamos a agir, dando vazão aos nossos reais anseios

Viva: 15 anos de amor, flor, e sendo quem eu sou

 

Na semana passada, na Coluna Por mais sonhos no nosso script, eu lembrei o quanto é importante reconhecer os gatilhos que nos fazem mudar, o que amamos a tal ponto que encoraja e faz sonhar.

Hoje, ao contrário, venho alertar pr’algumas coisas que nos coagem a ancorar.

 

Este período até o fim do mês, sei que vai ser especial. Seja por bem, seja por mal.

Em apenas 10 dias, eu e o Marcio vamos comemorar 15 anos de casamento, enfrentar mais uma cirurgia – pra reparar as sequelas das mais de 20 que ele já superou -, e no dia da Alta, com as bênçãos de Deus, o Marcio completa enfim 40 anos de uma vida com provações sem fim.

 

Dois tumores diferentes instalados na coluna.

Duas cirurgias no quadril, pra tratar os sintomas sem que chegassem a um diagnóstico, sem entender que o quadril sofria pela instabilidade da coluna.

Traqueostomia necessária na longa estada na UTI.

Cirurgia nas cordas vocais pra reverter os danos da traqueostomia.

Cirurgia vascular pra evitar o sangramento excessivo na extração do tumor.

Dezenas de cirurgias pra controlar a infecção e o vazamento da medula óssea, após a ressecção do tumor reincidente.

E então a prescrição de nova cirurgia no quadril, pra compensar as vértebras que faltam e tratar a sequela da longa lista acima.

 

Mas lista maior, eu garanto, é a das lições que aprendemos entre uma e outra intervenção.

Eu terminei o Mestrado, em 2017.

O Marcio terminou o Doutorado, em 2018.

Honrando o privilégio de receber pra estudar em uma Universidade Federal.

Eu como bolsista da Capes, ele como servidor federal aprovado em concorrido edital.

Contribuímos com a ciência. Aprendemos pela consciência

do quanto sempre é tempo de aprender, crescer, amadurecer, até dominar o que nos faz sofrer.

 

E é isso que hoje eu venho partilhar.

“Não é o sofrimento que leva ao desamparo. É sofrer aquilo que você acha que não pode controlar” (1).

Por isso reviramos pelo avesso aquela desolação. Cortando o caos em fatias. E na mente, ao contrário, compactando um monólogo produtivo e vencedor. Sem questionar o passado, o futuro, a existência inteira, aquilo que nos precede e tudo o que se segue. Vislumbrando uma solução pra cada distinta situação.

“Os otimistas normalmente procuram causas temporárias e específicas para o sofrimento, enquanto os pessimistas culpam causas permanentes e genéricas” (2).

 

Uau! Pra cada ferida, uma lição esculpida.

Até me libertar daquele temor visceral. E voltar a viver. Meia volta volver.

Ultrapassando a condição de quem reage bem ao mal.

Pra dimensão de quem age, com metas, planos, etc e tal.

Porque é bem fácil esquecer de si quando nos induzimos a só dizer sim.

Mas a vida não pode seguir assim.

 

Quando as pessoas se deixam guiar pelo problema dos outros...

“reagem demais. Reagem de menos. Mas raramente agem. Eles reagem aos problemas, às dores e aos comportamentos dos outros. Reagem a seus próprios problemas, às suas dores e ao seu comportamento” (3). Perdendo a iniciativa, o protagonismo e o poder de ação. Terceirizando as decisões. Colecionando frustrações.

Essa codependência, a necessidade de tentar salvar, à nossa maneira, quem pressupomos que depende de nós, nos impede de ter paz com a “única pessoa que cada um de nós pode controlar, a única pessoa que podemos modificar: nós mesmos”. (4)

Por isso hoje, às vésperas de um novo round, de anestesia, internação, da Alta com muletas e dificuldade de locomoção, eu me mantenho a sonhar... imaginar... Disposta a ajudar mas sem sair do meu lugar... de quem não precisa sentir ou sofrer as dores dos outros pra sua virtude provar.

 

 

E você? Já pensou em se despir das dores do mundo e dos problemas de todo mundo?

 

  1. “Garra, o poder da paixão e da perseverança”, de Angela Duckworth
  2. “Garra, o poder da paixão e da perseverança”, de Angela Duckworth
  3. “Codependência nunca mais, pare de controlar os outros e cuide de você mesmo”, de Melody Beattie.
  4. “Codependência nunca mais, pare de controlar os outros e cuide de você mesmo”, de Melody Beattie.

 

Viva: 15 anos de amor, flor, e sendo quem eu sou

Ana Lavratti

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    Ana Lavratti é Jornalista e Mestra pela UFSC com pesquisa sobre a Notícia em Meio Digital Online. Multiplataforma, acumula experiência em mídia impressa, eletrônica e assessoria de comunicação. Também é escritora, autora de 3 livros e 3 e-books, e atua como colunista social desde 2014. www.analavratti.com.br / social@analavratti.com.br Curta o Instagram @analavratti