Coluna Ana Lavratti: A imagem da Quarentena que me deixou em convulsão

20 de Abril de 2020

No colégio desolado, percebo quanto a desordem era o real testemunho de que tudo estava em seu lugar.

Os filhos são o nosso reflexo, e vão desabrochar no mundo que estamos cultivando agora

 

De todas as experiências sensíveis que eu tive em tempos de #Quarentena, a que me deixou em convulsão foi esta aqui:

Informada de que o colégio da minha filha fecharia as portas de 17 de abril a 31 de maio, fui até o locker buscar um material escolar remanescente, que poderia ser útil nas aulas a distância. Mas apesar do céu azul, tudo ali foi sombrio. No estacionamento com vagas disputadas, prosperava o vazio. Então desci do carro, bem próxima da entrada, com calça comprida, gola alta, máscara no rosto, luvas nas mãos. E antes de abrir o portão, ganhei a companhia de quem não fala, mas se expressa.

Sozinho, o gatinho era inquiridor.

– Cadê as crianças?, perguntou.

– Cadê as risadas sem motivos?

– Os abraços sem aviso? Migrando feito bumerangue de um pro outro pescoço.

– E quando aumentam as tarefas, cadê a reclamação?

– A confissão pro melhor amigo que vai fazer uma “enrolação”?

– E o silêncio de quem se isola pela janela do celular?

– Cadê aquela desordem?

Testemunho de que tudo estava no seu lugar.

– As rodinhas das mochilas, que antes me assombravam. Cadê?

– E as lancheiras que levitam, vazias de tanto comer?

 

Desolada pela mudança, só lamento e me afasto.

– Desculpa, gatinho, é difícil responder.

Em direção ao colégio, subo a rampa tingida de Outono, coberta de folhas quebradiças, como eu também me sinto. Passo o hall onde tantas vezes busquei a filha menor que eu. Onde há tempo não circulava, dispensada, desde que ela cresceu. Entro solitária no elevador, e três sofás me abordam num êxtase ensurdecedor.

 

– Cadê os adolescentes, que vinham nos esquentar?

– As risadas com motivos, por que ganharam “um olhar”?

– A confissão com detalhes, que outro dia emoldurei?

– E a nota alta que compensa o “quase me matei”?

– Cadê aquela desordem?

Testemunho de que tudo estava no seu lugar.

– Cadê as razões que apressam os passos, imprimindo ao coração um suave descompasso? O elogio recebido. O trabalho a apresentar. O uniforme que falta. A graça que sobra.

– Cadê a vida em plena manobra, que transbordava neste lugar?

 

Com a voz embargada, me esforço e me vou.

– Sofás, simpáticos, sei que acolher é o que gostam de fazer. Mas vão ter que esperar.

Então sozinha, com o peito mais pesado do que a mochila lotada, pensei no que se passou.

 

Das folhas no pátio às flores no jardim, tudo estava ali. As salas de aula, a biblioteca, as mesas e cadeiras dispostas pelo hall. O colégio estava ali. A secretária também, desviando o sorriso pros olhos, pela máscara que cobria o rosto. Tinha o gatinho vigiando o portão e as placas de sinalização. E ainda assim faltava tudo. Faltava o futuro.

Faltava nossas crianças e os nossos teens. A quem devemos o cuidado de só sair se obrigados. A paciência de ficar em casa, evitando o contágio e a transmissão. A maturidade pra compreender que não posso controlar o mundo, nem os outros, e que quando o mundo e os outros são diferentes do que eu presumi, não é o meu Caixa que vai me salvar. São os meus valores. E a minha resposta, de quem tantas vezes seguiu e perseguiu os desígnios da fé, é que Confinamento, Confusão e Conflito a gente cura com Confiança.

Eu me obrigo a confiar, a ter bons pensamentos, a filtrar meus sentimentos, a mostrar pra minha filha que com colaboração e remanejamento, tudo vai tomar o seu lugar. Mas preciso mandar pro mundo o que o mundo precisa: boas vibrações. Emanar a certeza de que se cuidarmos das crianças oxigenando a esperança (como o Wall-E cuidou da plantinha no espaço) quando a Pandemia passar, o mundo terá se tornado um lugar ainda mais fértil pra vida desabrochar.

 

 

Siga @analavratti também no Instagram

 

 

Ana Lavratti

  • imagem de lavratti
    Ana Lavratti é Jornalista e Mestra pela UFSC com pesquisa sobre a Notícia em Meio Digital Online. Multiplataforma, acumula experiência em mídia impressa, eletrônica e assessoria de comunicação. Também é escritora, autora de cinco livros e 3 e-books, e atua como colunista social desde 2014. www.analavratti.com.br / social@analavratti.com.br Curta o Instagram @analavratti

Notícias Relacionadas