Coluna Ana Lavratti: Do extremo da dor à propagação do amor

11 de Março de 2019

Na palestra "DádivaDaVida, relembro como extraí uma lição de cada fissura que rompia o chão

Palestra a convite do Sandri Palace Hotel - foto Victor Hugo Studio

 

Como candidata ao prêmio ACIF Mulheres que Fazem a Diferença, venho compartilhando desde o início de fevereiro como preencho os critérios de participação. Hoje, na quinta parte, falo de Criatividade e da Inspiração inerente à nossa saga de superação.

 

Sabe quando a vida e os sonhos encaixam feito uma luva? Pois em 2014 pra mim era assim. Tudo que eu havia planejado, buscado e merecido, de repente acontecia comigo. Tinha o marido ideal, a filha perfeita, uma vida efervescente como colunista social, a chance de aprender, como aluna do Mestrado, e muito trabalho a fazer, como empresária de comunicação e autora do livro sobre os 100 anos da ACIF. Minha rotina, tão feliz, dispensava qualquer detox. Até que a luva, tão delicada, se mimetizou em luva de boxe.

 

Aos 35 anos, professor universitário, cursando doutorado em Engenharia na UFSC, atleta de meia maratona, doador de sangue e portador do maior amor do mundo, pela nossa filha, meu marido sucumbiu em poucos dias da alta performance à total dependência. Depois de muitas consultas em diferentes cidades, o diagnóstico apontava que as dores imobilizadoras que ele sentia, provinham de um tumor na base da coluna, na primeira vértebra do sacro. Única alternativa de tratamento, a cirurgia para ressecção foi avassaladora. Submetido à transfusão de diferentes tipos sanguíneos, pois o tumor de tipo raro estava diretamente ligado à corrente sanguínea, motivando a perda de todo o sangue do corpo, o Marcio só sobreviveu graças à supremacia do cirurgião responsável, o ortopedista oncológico Dr. Márcio Moura, e ao padrão de excelência do Centro Cirúrgico e da UTI do Hospital Nossa Senhora das Graças.

 

A intervenção de 15 horas, no dia 15 de maio de 2015, foi seguida por 15 dias em coma, com tímidos avanços e reiteradas recaídas. Os números podem rimar, mas na rotina nada mais fazia sentido. Devastada pela iminência de contar pra nossa filha, então com oito anos, a pior das notícias, me obriguei a abstrair, trabalhando de segunda a segunda no hall do hospital. Com o notebook no colo, digitando compulsivamente entre os três acessos diários à desolação da UTI, éramos só eu e ele em total simbiose. O computador farejando internet. O coração buscando esperança. Os dois exauridos, mas jamais vencidos.  

 

Os 19 dias na UTI (sendo 15 entubado) foram seguidos por dois meses de internação hospitalar intercalados por 10 cirurgias extras para controle da infecção no sítio cirúrgico – sempre com anestesia geral e alto risco inerente -, um mês de internação domiciliar em Curitiba e oito meses de grande fragilidade física e emocional, até superar a condição de quem não bebia e comia (pelos danos da traqueostomia à região da garganta) e as limitações de quem, pela alta dosagem de morfina, não segurava sequer uma colher de gelatina.

 

Comemorando o privilégio de voltar pra Floripa, de ter na mesma casa meu marido e minha filha, pus a mão na ferida pra defender minha família! Conciliando trabalho, estudo e os curativos que eu mesma fazia - na cratera nas costas com quase 25cm -, finalizei a dissertação. Até que a consulta médica, 15 dias antes de eu subir no palco e enfrentar a Banca, confirmou nosso temor: a causa de tanta dor era um novo tumor. Nos cinco meses demandados pela equipe para definir a estratégia de cirurgias vascular-ortopédica-oncológica já não havia mais pedras no nosso caminho, mas uma muralha tão alta que arrolhava o horizonte.

 

No dia 25 de outubro de 2017 meu marido voltou ao centro cirúrgico, enfrentando com heroísmo o novo tumor, enquanto eu, enfim Mestra pela UFSC, me sentia a mais caloura na arte da solidão, totalmente dependente de quem, pra sempre, detém meu coração. Mas também confiante, com toda fé, verve e verdade, que se a fé é inteira nenhuma bênção vem pela metade. Onze anos depois de provar a cura na própria pele. Treze horas depois de entrar naquela sala de espera, terminou o primeiro grande “round” da batalha seguida por quatro dias inconsciente na UTI, dois meses de internação hospitalar – longe de casa e da filha - e três intervenções extras de altíssimo risco por uma fístula na medula...

 

Como é possível que um furinho invisível traga sintomas tão violentos??

 

Assistindo de camarote ao extremo da dor, aprendi a viver o dia!! #UmDiaPorVez. Com gratidão e prontidão. Me mantendo produtiva mesmo a um passo do precipício. Honrando o que está ao meu alcance, corajosamente. Lapidando os problemas, diligentemente. Enfrentando até mesmo fantasmas reincidentes. Até converter em lição cada fissura no nosso chão. Por isso em junho de 2018, percebendo o quanto nossa história de vitória se tornara inspiração, merecendo matérias em sites e revistas, motivando mais famílias a buscar a solução, criei a palestra “Dádiva da Vida”. E como me orgulho desta guinada criativa!

 

Abrindo meu coração apaixonado, por mais surrado e remendado que tenha ficado, apresentei a palestra cinco vezes apenas no #OutubroRosa 2018. Além de Florianópolis, mais Itajaí em duas ocasiões, agora tenho a satisfação de levar a #DádivaDaVida ao Fazzenda Park Hotel, em Gaspar, a convite da Rede Feminina de Combate ao Câncer de Blumenau. Inspirando outras mulheres a seguir pra conseguir. #UmPassoPorVez #SemprePraFrente. Com resultados visíveis e irreversíveis... Que prometo contar aqui, na próxima segunda.

 

  

Junho de 2015: dia da alta na UTI
Junho de 2015: dia da alta na UTI

Ana Lavratti

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    Ana Lavratti é Jornalista e Mestra pela UFSC com pesquisa sobre a Notícia em Meio Digital Online. Multiplataforma, acumula experiência em mídia impressa, eletrônica e assessoria de comunicação. Também é escritora, autora de 3 livros e 3 e-books, e atua como colunista social desde 2014. www.analavratti.com.br / social@analavratti.com.br Curta o Instagram @analavratti