Coluna Alisson Barcelos | Precisamos falar sobre a paralisação e os prejuízos da pandemia para o setor de eventos

04 de Fevereiro de 2021

E mais: a opinião de cinco grandes empresários sobre a chegada da vacina e as perspectivas para a retomada dos negócios

Há duas semanas, a montadora Ford surpreendeu o mundo ao anunciar o fim da produção de veículos no Brasil e o fechamento de três fábricas no País, o que causou comoção nacional devido à demissão de 5 mil colaboradores. Comentaristas, especialistas ou não, palpitaram sobre o assunto, questionaram o número de desempregados e cobraram soluções para evitar que essas pessoas passem a viver na condição de vulnerabilidade social.

Correndo o risco de chover no molhado, preciso voltar ao assunto: desde o início da pandemia, conforme a Associação Brasileira de Promotores de Eventos (Abrape), o setor de eventos já perdeu 335.435 empregos formais - se considerarmos no cálculo os trabalhadores indiretos, este número passa de 450 mil empregos - o equivalente a 80 fábricas da Ford. E não, isso não tem recebido a devida importância. 

Sendo empresário e tendo mais de 25 anos no mercado de eventos, há 11 anos à frente da SB+ Eventos, jamais vi uma crise tomar essa proporção. Há quase 11 meses a minha empresa tem sentido os efeitos da paralisação das atividades, mas para que se entenda de uma vez por todas que este é um problema geral, convidei os empresários Roberto Petry (Arena Petry), Eveline Orth (Orth Produções), Leonardo Vieira (Centrosul), Humberto Freccia Netto (Fortur e Nova Alman Turismo Receptivo) e Doreni Caramori Jr (Abrape e Grupo All)., para responderem cinco perguntas relacionadas ao setor, às perspectivas da retomada com a chegada da vacina e para este ano que acaba de começar. 

Todos são unânimes: os prejuízos são incalculáveis. Eles entendem que faltou representatividade para o setor de eventos nos âmbitos municipal, estadual e nacional, e que a falta de conhecimento e a generalização dos eventos contribuiu para a paralisação por tanto tempo. 

 

Confira abaixo o que dizem os empresários. 

 


“Seria uma pauta fundamental liberar 
a possibilidade de as empresas venderem a vacina”

Roberto Petry, diretor Comercial e de Marketing da Arena Petry

Alisson Barcelos - Quais as expectativas em relação à vacina e à retomada dos negócios?

Roberto Petry - Nós acreditamos que a partir do momento que ‘engatar a marcha’, vai ser muito rápido este processo. Na hora que o governo federal conseguir fazer as negociações com os outros países e essa situação andar, a vacina vai chegar muito rápido na ponta. Algo que vai fazer toda a diferença é a liberação da comercialização das vacinas para a rede privada. Acreditamos que isso vai acelerar muito mais o processo. Vejo que seria uma pauta fundamental liberar a possibilidade de as empresas venderem a vacina. 

Alisson Barcelos - Qual a estimativa de prejuízo da sua empresa depois de praticamente um ano sem poder trabalhar efetivamente?

Roberto Petry - Essa é uma conta muito relativa. Não posso contar só o que eu tive de prejuízo, mas sim tenho de contar aquilo que deixei de fazer, o que aumenta o prejuízo. Dentro da empresa, é um número que trabalhamos com a diretoria e conselho, mas acreditamos que vai ser bem grande.

Alisson Barcelos - Qual a sua perspectiva em relação a 2021 e à retomada dos negócios?

Roberto Petry - A retomada dos negócios está muito vinculada à vacina. A partir do momento que o povo estiver vacinado e a população estiver sem medo, vamos começar a trabalhar como todos. Existe uma demanda represada muito grande e que quem estiver preparado, quem não parou de investir mesmo enfrentando todas as dificuldades que enfrentamos vai colher frutos cada vez melhores do negócio. A retomada dos negócios estará atrelada à vacina. Acreditamos que a retomada será inicialmente mais para o setor de eventos corporativos, sociais e técnico-científicos a partir de maio, conforme for vacinando as pessoas, e a parte de shows e eventos culturais que tenham mais aglomeração devem recomeçar lá pelo segundo semestre, entre setembro e outubro. Essa é uma percepção do grupo.

Alisson Barcelos - Na sua opinião, qual foi o principal entrave para o setor durante a pandemia?

Roberto Petry - Primeiro que o setor é um setor que tem poucos dados, especialmente a parte cultural, e com a falta destes dados, a captação de recursos com bancos públicos e privados, principalmente os públicos, que têm melhores condições de financiamento, foi muito dificultado neste período. Escutamos frases de alguns bancos falando - agora em 2021 - que “a gente consegue liberar recursos, mas tem que apresentar o faturamento dos últimos 12 meses. Só que o setor não faturou neste período. Então falta uma seriedade maior para o meio de eventos. E essa seriedade só terá a devida atenção quando o setor estiver mais fortalecido, com pesquisa e com dados mais apropriados para cada vez mais mostrar e expor a força que é o segmento de eventos em toda a sua plenitude.

Alisson Barcelos - 2021 será o ano da recuperação do setor?

Roberto Petry - Eu acredito que 2021 não será ainda o ano de recuperação. 2021 será o ano que vamos conseguir engatinhar, como um bebê. Vamos engatinhar para que em 2022 possamos ter um crescimento, que possamos andar e possivelmente correr. Em 2021, acredito que será o ano em que as empresas vão começar a trabalhar, começar a respirar, começar a rever negócios, planilhar, planejar muita coisa para que em 2022 possam correr. Então 2021 será muito lento ainda para o segmento de eventos.

 

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O setor foi tratado em um balaio único, e você
não pode comparar uma balada com uma palestra”

Eveline Orth, diretora geral da Orth Produções, que atua no setor da produção cultural e entretenimento há 30 anos em todo o Brasil. A empresa tem sede em Florianópolis. Ela também é Diretora SC da Associação Brasileira de Promotores de Eventos (Abrape), entidade sem fins lucrativos, que representa as principais empresas de um setor que tem como principal característica integrar outros 54 setores econômicos. Em Santa Catarina a entidade representa os principais operadores do Entretenimento e Cultura que atuam em shows, casas noturnas, teatros, carnavais e festivais, ativos que além de lazer e cultura são âncoras turísticas

Alisson Barcelos - Quais as expectativas em relação à vacina e à retomada dos negócios?
Eveline Orth - A expectativa é grande. A gente sabe das dificuldades no processo de aquisição das vacinas, portanto, temos consciência de que o setor só vai voltar na sua plenitude depois que o número necessário da população esteja vacinado. Então nosso setor depende fundamentalmente da vacinação mais do que qualquer outro, porque é o único setor que foi efetivamente proibido de trabalhar durante todo este período da pandemia. 

Alisson Barcelos - Qual a estimativa de prejuízo da sua empresa depois de praticamente um ano sem poder trabalhar efetivamente?

Eveline Orth - O prejuízo financeiro foi absurdo. Tivemos de fazer um corte enorme nos custos, nos custos fixos, e inclusive tivemos de dispensar funcionários efetivos. Foi praticamente um desmanche. Sei que isso não é um caso isolado da minha empresa, mas de todo o setor, o que gerou um desemprego gigante no País, porque estamos ligados a toda uma cadeia produtiva que não se restringe somente à minha estrutura e operação de escritório, mas a todos os serviços que nós contratamos a partir do momento que temos um evento. Então é toda uma cadeia que se quebrou. Se falarmos em termos de faturamento efetivo, vamos falar que a empresa deixou de faturar o mínimo para sua subsistência, o que representa também que o governo deixou de arrecadar o mínimo. Trabalhamos em 2020 no vermelho e acredito que ainda vamos trabalhar até a metade deste ano também no vermelho.

Alisson Barcelos - Qual a sua perspectiva em relação a 2021 e à retomada dos negócios?

Eveline Orth - Acredito que este ano, no segundo semestre teremos um horizonte mais promissor, mas ainda com muita restrição e oscilação no primeiro semestre. Portanto as bandeiras, que uma hora liberam para determinado número de público e depois regridem em  função de a doença ainda estar muito expandida nas suas curvas de contaminação. Sabemos que enquanto não atingirmos 70% da população vacinada não vamos atingir a imunização suficiente para trabalhar com tranquilidade. Neste momento, como diretora da Abrape SC e pertencente à Abrape nacional, estou num movimento objetivo para a liberação de linhas de crédito junto ao Estado de Santa Catarina, ao governo, e aos bancos do Estado, assim como estamos trabalhando pela aprovação de um projeto de lei que dê sobrevida às empresas do setor, auxiliando na manutenção dos funcionários e trata também da devolução dos ingressos. Nosso objetivo no momento é que o governo faça um socorro objetivo de linhas de crédito específicas para o setor - coisa que não aconteceu até agora - para que as empresas sobrevivam e possam retomar suas atividades quando tudo isso estiver sob controle. Importante também ressaltar a Lei Aldir Blanc, criada para o setor cultural.

Alisson Barcelos - Na sua opinião, qual foi o principal entrave para o setor durante a pandemia?

Eveline Orth - O maior entrave foi o desconhecimento de como lidar com uma pandemia. Por um lado, houve restrições radicais, e por outro lado, foi tratado como se fosse uma gripezinha. Então tivemos esses dois extremos e no meu ponto de vista faltou um estudo mais objetivo no sentido de organizar, o que também permitiu que muita coisa acontecesse clandestinamente. O setor de eventos ficou sendo sempre como o setor que disseminou o vírus, sendo que foi o que ficou este tempo todo sem trabalhar. Na minha opinião, nós poderíamos, sim, já ter retomado em pequena escala muitas das atividades do setor de eventos. O problema é que o setor foi tratado em um balaio único, e você não pode comparar uma balada com uma palestra. E este, para mim, foi o grande entrave. Claro que uma decisão de qualquer setor público neste sentido não era uma decisão fácil, mas no momento em que você libera o funcionamento de uma igreja - elas estão funcionando em Santa Catarina desde abril com a capacidade de 30%, 40% - não teria por que não ter o restante do setor não podendo trabalhar nada. No momento em que o shopping está aberto, também não. Até porque o ativo do setor do evento - me refiro neste caso a um teatro organizado ou a uma palestra organizada - é que você tem o controle daquele consumidor que entra para assistir ao espetáculo. Hoje, por meio do ingresso digital, você sabe quem é a pessoa. Poderíamos inclusive ter auxiliado o setor de Secretaria de Saúde e Ministério da Saúde com os dados das pessoas que frequentariam os eventos organizados. Esse foi um erro gigante por parte do setor público, de não entendimento, e de nós termos ficado com este carimbo de ‘setor de eventos é festa, balada e bebida’. Faltou realmente olhar com cuidado para essa cadeia produtiva e isso foi muito lamentável. 

Alisson Barcelos - 2021 será o ano da recuperação do setor?

Eveline Orth - 2021 ainda será um ano muito difícil. Não creio em um cenário positivo. Acho que o segundo semestre pode assinalar uma recuperação para todos os setores, mas basicamente para o nosso, e 2022 realmente será o ano da recuperação propriamente dita, por conta do problema da vacinação, por conta da falta de organização efetiva de planejamento em relação à compra de vacinas - nós retardamos muito isso no Brasil e vamos pagar um preço alto, economicamente falando. O setor de eventos é muito criativo, e esse é um ativo muito diferenciado e será um elemento fundamental. O setor foi capaz de criar alternativas durante o ano que passou - através dos eventos virtuais, no qual parte da cadeia pôde trabalhar - e creio que vai voltar com uma força gigante, porque temos uma força represada tanto dos empreendedores quanto do público, que mais do que nunca está carente do ao vivo, porque nada substitui o ao vivo.  

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“A gente está no sufoco. E isso é no Brasil todo”
Leonardo Vieira, diretor do Centro de Convenções de Florianópolis (Centrosul) e presidente da Câmara Brasileira de Centros de Convenções, Pavilhões, Exposições e Locais para Eventos, da União Brasileira dos Promotores Feiras (Ubrafe)

Alisson Barcelos - Quais as expectativas em relação à vacina e à retomada dos negócios?

Leonardo Vieira - Para nós, essa vacina é fundamental. Só com ela é que realmente os negócios de eventos vão funcionar 100%. Hoje já estamos trabalhando com a base de 30% da nossa capacidade nos eventos. Então, por exemplo, na parte superior do Centrosul a capacidade é para 5 mil pessoas, mas eu consigo trabalhar até 1500, mas aí tem a questão do distanciamento, que é de um metro a 1,5 metro, aí este número cai bastante. A vacina neste contexto é fundamental porque trabalhamos com congressos técnico-científicos, a grande parte são congressos brasileiros principalmente da área médica, e esses congressos geralmente têm 3 mil, 4 mil ou 5 mil pessoas. Neste sentido, a capacidade do centro de convenções fica nula. Esperamos que a vacina seja entregue até o fim do primeiro semestre para que possamos ter no segundo semestre os grandes congressos que já estão agendados, com o RD Summit, para o qual estamos aguardando 20 mil pessoas, além de outros congressos um pouco menores. 

 

Alisson Barcelos - Qual a estimativa de prejuízo da sua empresa depois de praticamente um ano sem poder trabalhar efetivamente?

Leonardo Vieira - O prejuízo é enorme. Para se ter uma ideia, no Centrosul tínhamos 33 funcionários e hoje estamos trabalhando com sete. O departamento comercial tinha quatro pessoas e hoje só temos uma. Todo o nosso Comercial virou terceirizado e os profissionais prestam serviços para a gente. Assim ocorreu em toda a área Administrativa, Financeira, Operacional, enfim. O nosso faturamento caiu de 85% a 90%. Então o prejuízo foi gigantesco - sem contar as rescisões e toda a manutenção do espaço e as contas de energia, água… Usando ou não usando você tem de pagar. Prejuízo incalculável. Fora que você fica sem o recebimento em 2021, porque todos os eventos de 2020 foram reagendados para 2021 e 2022. Estamos falando de mais de 80 eventos. Então imaginem reagendar a partir de março mais de 80 eventos para 2021 e 2022. Todas as datas vagas que podiam ser agendadas para que se pudesse haver alguma remuneração ou entrada de dinheiro não existem mais, porque foram preenchidas com esses eventos. A gente está no sufoco. E isso é no Brasil todo. Todos os centros de convenções estão passando por isso.

Alisson Barcelos - Qual a sua perspectiva em relação a 2021 e à retomada dos negócios?

Leonardo Vieira - Estamos aqui esperando a vacina. Se as pessoas realmente forem vacinadas, mais rápido os grandes congressos acontecerão. Hoje estamos trabalhando com pequenos e médios eventos, até a capacidade de 30% e 50%, dependendo da bandeira. Estamos realizando eventos, mas eventos até 1.500 pessoas com área de exposição pequena. Tomamos todos os cuidados com a área de alimentação, não estamos permitindo que sejam feitos coffee breaks e coquetéis. O coffee break pode ser feito apenas se o participante receber uma caixinha ou embalagem com os produtos, estamos cumprindo todas as medidas de segurança, mudamos o ar-condicionado… mudamos toda a nossa maneira de trabalhar, mas estamos com uma boa expectativa para o primeiro semestre. Inicialmente imaginamos que estaria morto, mas que após a autorização do governo no último dia 30 de dezembro, podemos ver que as pessoas estão carentes de eventos e estão realmente participando. Teremos em março um evento que normalmente teria 800 inscritos, mas este ano já registra 1200 inscrições. As pessoas querem vir.  

Alisson Barcelos - Na sua opinião, qual foi o principal entrave para o setor durante a pandemia?

Leonardo Vieira - Este é um assunto muito debatido no setor. O principal entrave foi a gente não ter efetivamente uma representatividade nos meios políticos - em termos de município, Estado e País. Somos a segunda economia do Estado e cada evento que vem para Florianópolis, Balneário Camboriú, Joinville representa um valor representativo deixado para a cidade, no comércio, em todo o contexto do setor empresarial. Fomos esquecidos. Ficamos para o quinto ou sexto plano. Vemos shoppings trabalhando, supermercados trabalhando, aviões lotados, ônibus, enfim, todas as categorias trabalhando, e nós, do setor de eventos, ninguém falava, ninguém tomava providência, ninguém estava aí para o que você fazia, para aquilo que você pedia. E isso que os eventos são seguros neste contexto todo, porque existe um controle rigoroso. As pessoas vêm, fazem as inscrições, sentam com distanciamento, têm protocolo, vigilância, e ninguém se importa. Prova disso é o desemprego, a quantidade de empresas fechadas. O que temos de pensar é como vamos votar daqui adiante? Deputado, vereador, governo, enfim. Porque sem a representatividade de um ramo que deixa na cidade, no Estado, no País, a quantidade de dinheiro que deixamos, a quantidade de empregos que geramos, é inexplicável. Temos de trabalhar muito em cima do emprego e da renda, do que representamos no mercado. Como presidente da Câmara Brasileira e junto com a Ubrafe temos trabalhado muito em cima disso. Hoje não temos um vereador, um deputado que nos represente efetivamente. Não temos uma classe organizada que nos represente. E isso foi o grande entrave. 

Alisson Barcelos - 2021 será o ano da recuperação do setor?

Leonardo Vieira - De forma nenhuma 2021 será o ano de recuperação. Nós levaremos de dois a três anos para recuperar o que foi perdido de emprego, de empresas que fecharam, o que foi perdido de captação de eventos, o que foi perdido de turista de eventos. Eu acredito que a nossa recuperação vai ser muito lenta e que só a partir do final de 2022, início de 2023 poderemos pensar em grandes eventos, em eventos mundiais. Porque o que foi perdido neste quase um ano de pandemia foi de qualquer coisa espantoso. 

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“O  setor já perdeu muito, porque não se
negocia eventos da noite para o dia”

Humberto Freccia Netto, coordenador do Fortur e proprietário da Nova Alman Turismo Receptivo

Alisson Barcelos - Quais as expectativas em relação à vacina e à retomada dos negócios?

Humberto Freccia Netto - Nossa expectativa em relação à vacina e à retomada dos negócios não é muito otimista, até porque a vacina não depende necessariamente e exclusivamente dos governos municipal e estadual, mas sim, principalmente, do governo federal. Temos acompanhado que isso tem sido uma total confusão, uma vez que este governo não conseguiu se organizar ainda, mesmo em dois anos e meio de governo e há um ano com pandemia. Observamos que a questão da vacina vai tomar um tempo grande ainda e entendemos que o Estado vai se beneficiar por completo dela ao longo deste ano, principalmente no fim de 2021. Consequentemente, se a vacina não vem na velocidade que nós precisamos, a retomada do setor, principalmente o setor de turismo e de eventos é muito impactada, porque as pessoas não se sentem seguras para viajar, para fazer lazer, para mudar de cidade, procurar outros destinos, exatamente com receio de serem contaminadas e de acontecer o pior consigo ou com seus familiares. A recuperação depende da vacina e a retomada dos negócios será lenta ao longo de 2021 até meados de 2022. 

Alisson Barcelos - Qual a estimativa de prejuízo da sua empresa depois de praticamente um ano sem poder trabalhar efetivamente?

Humberto Freccia Netto - A estimativa de prejuízo é muito grande. Estamos há quase 11 meses com 90% das atividades paradas, já fiz demissão de funcionários, estou hoje atuando apenas com um setor que chamamos de fretamento, que é quando freta veículos para passeios e viagens, mas a procura, em função também da Covid-19 é muito pequena. Isso não consegue sustentar a empresa, nem sequer um ou dois funcionários. O prejuízo é enorme, o setor de eventos está totalmente parado e realmente é um ano que será perdido, com um enorme prejuízo. 

Alisson Barcelos - Qual a sua perspectiva em relação a 2021 e à retomada dos negócios?

Humberto Freccia Netto - A perspetiva realmente será muito lenta e dependerá muito da vacina e da velocidade com que ela chegar às cidades, principalmente às cidades turísticas. A insegurança por parte do turista ainda é muito grande, porque ele está preservando a sua vida e a de seus familiares. A procura está muito baixa. Então 2021 será um ano de recuperação muito lenta. 

Alisson Barcelos - Na sua opinião, qual foi o principal entrave para o setor durante a pandemia?

Humberto Freccia Netto - O principal entrave para o setor foi realmente a limitação, o impedimento, que o governo colocou, impedindo a atuação principalmente do setor de eventos. Entendendo que o setor de eventos era um dos disseminadores da pandemia, o governo bloqueou em 100% as atividades - e agora estamos indo para 11 meses desta forma. Mesmo com a liberação de 33% no final do ano, ainda assim o setor já perdeu muito, porque não se negocia eventos da noite para o dia. Eles precisam ser semeados agora para serem colhidos dentro de seis meses, até um ano, um ano e meio. E como não pudemos semear, porque o destino estava totalmente fechado, sem qualquer perspectiva de retomada, não conseguimos fechar eventos para os próximos seis a oito meses. Então, em 2021 ocorrerão eventos de pequeno e, no máximo, médio portes.

Alisson Barcelos - 2021 será o ano da recuperação do setor?

Humberto Freccia Netto - 2021 ainda não será o ano de recuperação do setor. Será um ano de retomada muito lenta. A recuperação, a retomada mesmo acontecerá no segundo semestre de 2022.

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“2021 será mais positivo do que 2020,
embora longe de ser um ano ideal”

Doreni Caramori Jr, presidente nacional da Associação Brasileira de Promotores de Eventos (Abrape) e proprietário do Grupo All

Alisson Barcelos - Quais as expectativas em relação à vacina e à retomada dos negócios?

Doreni Caramori Jr - Logicamente que as expectativas são todas positivas. Com a vacina a gente acelera a imunização da sociedade, e com a sociedade imunizada reduz a mortalidade. Isso permite que as coisas voltem ao normal. Temos a perspectiva positiva e realmente achamos que os negócios tendem a voltar. Inicialmente com limitação - há os negócios que já podem voltar a funcionar, inclusive alguns eventos que podem ocorrer com restrições - e a partir do momento que avança a vacinação as restrições vão sendo reduzidas e aí vai voltando à normalidade mesmo sem restrições. Isso deve acontecer ainda este ano, provavelmente em meados de junho ou julho já devemos ter o relaxamento total das restrições, e um pouco antes os relaxamentos parciais.

Alisson Barcelos - Qual a estimativa de prejuízo da sua empresa depois de praticamente um ano sem poder trabalhar efetivamente?

Doreni Caramori Jr - Do ponto de vista da nossa organização - importante registrar que temos 11 casas e cerca de 200 eventos externos, e praticamente todos eles estão paralisados desde março do ano passado - as medidas de liberação gradual responsável nos permitiram avançar com algumas operações, mas ainda estamos em um ritmo bastante lento. Eu diria que 10% do nosso potencial operacional está sendo trabalhado. Portanto, a gente amarga as consequências de ter uma equipe grande, que procurou não desligar, e dos projetos que estavam no ar e que não puderam ser concretizados. 

Alisson Barcelos - Qual a sua perspectiva em relação a 2021 e à retomada dos negócios?

Doreni Caramori Jr -  Acredito que 2021 será mais positivo do que 2020, embora longe de ser um ano ideal. Deveremos ter no primeiro semestre a retomada gradual das atividades que puderem se adequar a protocolos de controle, de distanciamento etc. - nem todas são possíveis. E acho que no segundo semestre deveremos ter a retomada da totalidade das atividades da empresa, com eventos de todos os portes, e devemos concluir o ano nos níveis de 2019 e talvez até um pouco acima em função da demanda reprimida que temos este ano. Na área de eventos corporativos, sociais e empresariais, por exemplo, entendo que o segundo semestre deve ser bem movimentado - estamos com praticamente todas as casas reservadas e com pouquíssimas datas sobrando e acredito que todos que deixaram de fazer um evento em 2020 e no primeiro semestre de 2021 vão querer fazer no segundo semestre. Então há que se ter planejamento também para este momento de retomada e recuperação para que haja lucratividade para todos da cadeia e também para que todo mundo consiga realizar o seu evento. 

 

Alisson Barcelos - Na sua opinião, qual foi o principal entrave para o setor durante a pandemia?

Doreni Caramori Jr - Foram diversos os entraves, mas o principal deles foi o preconceito que existe em relação ao setor, que nos impediu muitas vezes de trabalhar com protocolos coerentes com outras atividades que operaram. Não há diferença entre uma feira de negócios, por exemplo, e um shopping center. Pelo contrário: a feira, inclusive, tem um nível de controle superior ao de um shopping. Então por que o shopping pode operar e a feira não com as mesmas limitações? É a mesma coisa com relação a um restaurante e um casamento, ou um restaurante e uma formatura. Por que não podem ser feitos casamentos e formaturas com os mesmos protocolos? Esse preconceito setorial foi algo importante, além de, obviamente, todos os entraves que assolaram toda a economia. Nosso setor não foi privilegiado em nenhum deles, e em função do preconceito que existe com a atividade, a gente teve um impacto muito maior do que os demais, inclusive atestado pelo próprio Ministério da Economia.

Alisson Barcelos - 2021 será o ano da recuperação do setor?

Doreni Caramori Jr - Eu acredito que 2021 será um ano de recuperação. Inicialmente as empresas voltarão a trabalhar, passarão a não estar mais em prejuízo operacional e em seguida vão voltar a ter sua rentabilidade. Sem dúvida nosso setor é pujante, forte, vai superar isso e vai terminar o ano de 2021 já nos mesmos níveis que estava antes da pandemia. A partir disso é recuperar o tempo perdido, pagar o endividamento que o setor precisou assumir em função deste período parado e olhar para frente para alçar novos voos e fazer novos planos.  

Quer sugerir algum tema para a nossa coluna? Entre em contato pelo e-mail: alisson@sousb.com.br.

Alisson Barcelos

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    Alisson Barcelos Formado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda com mais de 25 anos de experiência no mercado de eventos. É cofundador da SB+ Eventos, empresa referência em produção de eventos em Santa Catarina e diretor de Eventos Especiais e Confrarias da ADVB/SC. No Portal Acontecendo Aqui, vai falar sobre o que mais entende e ama fazer: eventos, logicamente.

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