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Timer & Galochas
16 de Fevereiro de 2012

Timer & Galochas

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Já era primavera, mas fazia muito frio em Londres, agravado por uma incessante chuva fina que os sapatos tropicais não podiam enfrentar, deixando os pés gelados. Um amigo brasileiro residente na Inglaterra deu a dica: sapatos condizentes seriam usados naquela semana e nunca mais, então era melhor comprar galochas, muito mais baratas e que davam conta do recado. Gostei e fui a uma loja de sapatos, onde um vendedor me atendeu com fria cordialidade. Caramba, como é que se diz galocha em inglês? Tentei rubber shoes, sapatos de borracha.

– Rubber?  Perguntou com certo desprezo o vendedor.
– Yes, rubber shoes, insisti. (Ele não estava entendendo ou gozando da minha cara?)
Como ficou claro que não conseguiria explicar, fui até a frente da loja para ver se havia o produto na vitrine. Havia. Chamei o cara e apontei o que queria. Ele assumiu a postura mais esnobe que conseguiu e disse com um sorrisinho irônico:

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– Oh! You mean galochas…
Claro, galocha, do francês galloche… Por que não pensei nisso antes?
Para não ficar perdendo, assumi o meu ar mais esnobe e lasquei um Yes, galochas tchê, carregando num sotaque gaúcho, que ele pode ter achado estranho, mas senti que me tirava daquela inferioridade comunicativa.
Outro dia fui ao Camelódromo (para quem não conhece, um prédio inteiro com micro-lojas que oferecem o que você puder imaginar, principalmente em eletrônicos). Queria um despertador para cozinha, um alarme para marcar o tempo de forno e avisar quando pronto. Depois de três nãos já estava meio invocado, mas na quarta tentativa o lojista deu um sorriso e disse:

– Timer – o senhor quer um timer.
Inevitável a associação, que me levou a dizer timer e galochas.
– Como é que é?
– Nada não, vou levar o timer disse eu, caprichando no meu melhor sotaque londrino.

Cidade limpa ou suja?
 Florianópolis é uma das cidades mais bonitas que conheço e que, paradoxalmente, tem um Centro muito feio. Parece que não tanto quanto podia ser, porque é muito comum vermos medidas que aumentam a sua fealdade. Que mora aqui e passa pelo terminal central de ônibus, o TICEN, pode constatar isso. O que já não era nenhuma obra de arquitetura está agora coalhado de cartazes, cercando as passagens laterais, nas colunas e até sobre os encostos dos bancos. Anunciantes têm mais espaços para suas mensagens, raramente de um mínimo de bom gosto, e os usuários cada vez mais assediados por elas e agredidos visualmente.

São Paulo criou o movimento Cidade Limpa, que no início deu muita discussão, muita celeuma, mas que se mostrou extremamente eficaz em relação à sua aparência. Outras cidades seguiram o exemplo, mas aqui aparentemente as autoridades competentes querem garantir a condição de Cidade Suja.

O valor do uniforme.
 
Por falar em autoridade, permitam-me um desabafo. Recentemente fui parado numa blitz de trânsito e, como a documentação do carro estava irregular, sem dúvida nenhuma eu teria que arcar com as consequências. Até aí, nada a reclamar.

Só que a blitz era da Guarda Municipal que não é competente para isso. Uns oito guardas iam parando os carros e, logo em seguida, outro contingente, agora da Polícia Militar, abordava os motoristas. Sabendo que estava irregular, eu quis dar explicações ao militar que me abordou, que reagiu assim:

– Se eu deixar o senhor ir embora vou estar prevaricando,  diz ele.
– O senhor não entendeu – eu não estou pedindo nada, só estou querendo explicar…
– Então fala ali com o sargento.
– Sargento, bom dia cumprimentei e disse que queria explicar minha situação.
– Não vai adiantar nada… o policial vai autuar o senhor.

Formou-se então um discurso na minha cabeça – eu diria mais ou menos o seguinte:
“Sargento, eu sou oficial da reserva, portanto seu superior hierárquico, o senhor se enquadre. Mas, como não sou adepto de carteiraço, quero apenas lembrá-lo que quem paga seu salário sou eu, por isso mereço sua atenção. Mais ainda, esse uniforme que o senhor está usando simboliza uma postura de serviço, que exige respeito, mas que, para isso, exige que seu dono respeite também. O senhor é responsável pela prática da cidadania e, como tal, deve dar o exemplo. Logo, o mínimo que eu devo esperar é que o senhor me ouça”.

Não verbalizei o raciocínio, senão ia acabar recebendo voz de prisão por desacato. Mas já que tenho aqui voz e caixa de ressonância, deixo meu protesto. Pelo embuste de uma blitz da Guarda Municipal, que na prática, rotulada de “convênio”, acobertava uma ação da PM; pelos cerca de 20 policiais envolvidos numa operação de trânsito, o que é totalmente desproporcional; e pela forma deseducada com que os cidadãos estavam sendo tratados.

Registro que um dos PMs estava dizendo, alto e bom som, que aquilo era irregular. Perguntei o que ele faria em meu lugar e ele disse que deixaria os documentos e iria embora com o carro. Como – disse eu – se lá na frente estão 3 de seus companheiros armados com carabinas para nos intimidar?
Tudo isso numa rotineira operação de trânsito.

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