À medida que os serviços de streaming experimentam formas de otimizar a quantidade de anúncios exibidos, o único limite é a experiência do usuário.
Hoje, o volume de publicidade neste meio representa apenas uma fração do que o público costumava enfrentar na TV aberta ou a cabo. Enquanto esses canais exibiam de 12 a 16 minutos de comerciais por hora, as plataformas digitais ficam, em média, entre 4 e 8 minutos por hora, segundo relatório da empresa de TV conectada Wurl.
Esse modelo mais leve tem sido um dos grandes atrativos da ferramenta. Porém, trata-se de uma escolha estratégica, não de uma regra. Não há regulamentações que determinem o limite de anúncios, apenas o quanto os consumidores toleram e o que o mercado considera aceitável.
Combinando essa liberdade com as tecnologias avançadas da CTV (Connected TV), as plataformas têm explorado novas formas de calibrar a carga publicitária de acordo com cada situação, algo impossível na televisão tradicional. Agora, o desafio é equilibrar as ferramentas disponíveis com a qualidade da experiência do público.
“O excesso de anúncios foi um dos motivos que levou as pessoas a abandonarem a TV a cabo”, disse um executivo. “Não queremos repetir esse erro.”
Conteúdo define a pausa
O tipo de programação é o primeiro fator que determina a quantidade de anúncios. Filmes, por exemplo, costumam ter menos interrupções, concentrando comerciais antes da exibição e no meio da trama. Já esportes ao vivo atraem a maior carga de publicidade. Séries ficam no meio-termo, com pausas que variam conforme a duração ou até de acordo com a demanda dos anunciantes.
Quando o conteúdo não traz pausas definidas, entra em cena a inteligência artificial, usada para inserir anúncios sem comprometer a narrativa. “Você não pode cortar para um comercial no meio de uma explosão em Duro de Matar”, comentou um executivo. “O posicionamento é tão importante quanto a quantidade.”
Além disso, o contexto do espectador também influencia. Alguém assistindo enquanto cozinha aceita mais interrupções do que quem está focado em um drama prestigiado no sofá.
Personalização por grupos
Diferente da personalização individual da web, o streaming ajusta a carga de anúncios por coortes — grupos definidos por fatores como tempo de uso, localização ou horas assistidas por semana. Assim, novos usuários recebem experiências mais suaves para reduzir cancelamentos, enquanto veteranos recebem uma cadência mais regular de anúncios.
Nos serviços FAST (Free Ad-Supported TV), esse modelo é ainda mais comum, já que toda a receita vem do tempo de engajamento. Quanto mais leve a experiência, maior a chance de o espectador voltar.
Relevância acima de volume
Um ponto comum entre as plataformas é que a relevância do anúncio importa mais que a quantidade. Investimentos em segmentação contextual, como exibir tênis em conteúdos fitness ou café gelado no verão — e em personalizações criativas com IA tornam os anúncios mais toleráveis.
“Se a publicidade conversa com seus interesses, ela incomoda menos”, afirmou um executivo de streaming por assinatura.
Embora alguns analistas prevejam que anúncios mais relevantes possam reduzir a quantidade exibida, a tendência histórica aponta para o contrário: no digital, a densidade publicitária costuma crescer com o tempo. O tecnólogo Cory Doctorow até cunhou o termo “enshittification” para descrever esse fenômeno.
O cenário mais provável é que os streamings continuem refinando o equilíbrio, avançando da personalização por grupos até o nível individual, mostrando a cada usuário apenas o número de anúncios que ele está disposto a aceitar sem desistir da plataforma.
“Não se trata de ver quatro ou oito minutos de anúncios”, disse um executivo. “A questão é: você vai voltar amanhã?”

Foto: Pexels
Fonte: WARC
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