Coluna Lígia Fascioni | Como a neurociência pode ajudá-lo a ter um cérebro mais florido

13 de Janeiro de 2017

Flores

Sabe aquelas coisas que são óbvias, mas a gente nunca pensa a respeito? Mas aí lê um texto que faz absolutamente todo sentido? Foi o que aconteceu quando li “Your brain has a ‘delete’ button: here’s how to use it”, de Judah Polack e Olivia Fox. Veja se não é.

Eles começam reafirmando as bases científicas do que a gente observa na prática: quanto mais a gente exercita uma tarefa ou uma área de conhecimento, mais as conexões neuronais sobre esse tema são reforçadas. É claro que a gente sempre precisa buscar elementos novos para ampliar nosso repertório, pois só assim é possível fazer novas conexões e pensar de maneira mais ampliada; mas reforçar o que já se sabe também é importante.

Polack e Fox usam uma metáfora que achei muito interessante: nosso cérebro é como um jardim. Você planta coisas novas, mas também tem que cuidar das árvores e plantas que já estão lá. E esse lugar florido dentro da nossa cabeça tem uma equipe de jardinagem e paisagismo que cuida para que tudo funcione da melhor maneira; as células Glial (Glial Cells, não sei como traduzir isso) fazem esse trabalho. Elas arrancam as ervas daninhas, podam o que precisa e jogam fora as folhas velhas. Ou seja, elas mantêm o jardim limpo e organizado para que a gente possa ter as melhores condições para criar novas conexões e manter as que são importantes.

Essa faxina acontece toda vez que a gente dorme e pode ser tão completa que em alguns casos, podemos ficar com apenas 40% das conexões que tínhamos quando fomos dormir. O lixão todo é eliminado para a gente conseguir pensar de maneira clara e organizada (isso explica porque a gente não consegue pensar direito quando não dorme o suficiente; é porque a cabeça está literalmente bagunçada, lotada de porcarias).

Ok, mas a grande questão é: como é que as células Glial sabem o que é para podar, o que é para deixar como está e o que é para jogar fora?

Bom, aí temos uma pista interessante; pesquisadores descobriram que algumas sinapses neuronais são marcadas por uma proteína chamada C1q. Quando as microcélulas Gial estão fazendo a inspeção rotineira e detectam essa proteína, elas já sabem o que fazer: podam, ou melhor, destroem essa conexão neuronal para liberar mais espaço para novas conexões, ou seja, para que a gente possa aprender mais coisas.

Mas como é que essa proteína vai parar lá?

Bem, ela é assim, digamos, o equivalente a um fungo, bolor ou teia de aranha. Ou seja, aparece em lugares onde ninguém entra, ninguém usa, estão abandonados por muito tempo.

Assim, se você teve aulas de francês há cinco anos e nunca mais praticou, pode ter certeza que a maioria das conexões que você criou na época já foram podadas e recicladas para dar espaço a novos aprendizados. Para manter o jardim com as flores que você quer, tem que prestar atenção em quais você está regando todo dia.

Os autores deixam uma pergunta muito instigante para nos fazer refletir: se você gasta todo o seu tempo pensando em Game of Thrones e quase nada pensando no seu trabalho ou num projeto importante, quais das conexões você acha que o cérebro vai mandar para reciclagem na próxima faxina?

Bom a gente dar uma verificada para ver se não está colocando adubo em mato e deixando as flores morrerem.

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "GPS para curiosos" (e-book, 2013). Seu blog (www.ligiafascioni.com.br) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma start-up de tecnologia.