ARTIGO | 5 Tendências para 2020

29 de Janeiro de 2020

Todo início de ano os ânimos ficam acirrados e ansiosos por previsões, profecias e claro, por tendências.

 

por Fábio Mariano Borges*

Diferente das leituras da sorte, tendências não são previsões, nem uma aposta mágica sobre o que acontecerá no futuro. Ao contrário, as tendências são identificadas a partir de várias técnicas, muitas delas com base numa porção de números que são cuidadosamente interpretados por analistas que dedicam uma vida inteira em compreender os comportamentos humanos. Exato, tendências têm tudo a ver com os nossos comportamentos e valores que orientam os nossos hábitos.

Vivemos a era das incertezas. Cada dia, uma surpresa no mundo da economia ou da política. A cada hora, um comportamento novo. Por isso, o estudo de tendências está cada vez mais importante, para orientar as empresas, os empreendedores e todos nós, sobre o novo que sempre vem.

Sempre nos perguntamos: o que difere uma tendência de um modismo? As tendências, diferentes das modinhas ou manias, são rupturas no nosso modo de pensar e agir. Representam uma quebra de paradigmas e a vitória de novos hábitos. Por isso, uma tendência é pra sempre, veio pra ficar.

No nosso dia a dia falamos sobre várias tendências, como sustentabilidade, empoderamento, longevidade, entre várias outras muito conhecidas. Selecionamos 5 tendências pouco faladas, mas que já estão impactando nos nossos comportamentos e que terão influência cada vez maior nos negócios e no consumo.

 

Era Da Fofura
Em tempos de polarização e ódio político, até parece contraditório, mas estamos cada vez mais fofos. O filósofo norte americano Simon May, até escreveu um livro sobre o tema, The Power of Cute (O Poder da FofurA). Quando trocamos mensagens via whats, usamos emojis fofinhos como coração, carinhas felizes e vários outros, mesmo para nossos contatos comerciais. Os ambientes das empresas, antes eram sérios, sisudos, disciplinadores. Estão se tornando coloridos, lúdicos, divertidos e com espaços para crianças. Falamos mais e mais em empatia e afetos. Queremos ser abraçados e receber sorrisos nos atendimentos. Ao falarmos com os nossos pets, somos bem fofinhos e usamos uma linguagem infantil. O melhor de tudo isto: antes espalhar fofura do que ódio. Os projetos do arquiteto e designer japonês Adam Nathaniel Furmam, remetem a um meigo berçário, de tão fofos que são. Ele é a referência mundial do que há de mais inovador no design de interiores. A última coleção da Melissa também é um outro bom exemplo de celebração da fofura.

 

 

Inclusão
Não é possível avançarmos na economia, muito menos na sociedade, se não incluirmos os que estão mergulhados na miséria e no esquecimento social. A sociedade e as empresas discutem mais e mais sobre a situação das mulheres, dos LGBTs, das pessoas negras e das pessoas com deficiência (pcd). Esta tendência já está acontecendo e não tem volta, irá se fortalecer neste ano. Em 2020 falaremos bastante sobre dois temas da pauta da inclusão: racismo e masculinidade tóxica. Para combater o preconceito, não basta ser “não racista”, é preciso ser “antirracista”, isto é, não aceitar qualquer ato, piada ou atitude que desqualifique as pessoas negras. Marcas como Natura, Heineken e Gillette estão mostrando através de campanhas, o quanto é urgente que a nossa sociedade reveja os modelos da masculinidade. Chegou a hora de nos perguntarmos:  o que é ser homem? O que define o masculino? Faz tempo que falamos que o homem pode ser vaidoso. Masculinidade tóxica não é sobre isto. É sobre combatermos os comportamentos e atitudes opressoras e repressoras do masculino, como o assédio sexual, a necessidade de flertar o tempo todo, acreditando que este tipo de comportamento representa virilidade. Além disso, cresce o número de empresas que estão implantando programas efetivos de inclusão da diversidade no seu quadro de funcionários, através de novas políticas de recrutamento. Do mesmo modo, as marcas estão aumentando o número de lançamento de produtos e serviços que abraçam a diversidade. Dois exemplos recentes: o lançamento da Nike para mulheres muçulmanas e a linha LGBT da Disney.

 

Áudio Influencers
Em plena era digital e do império da imagem, estamos resgatando. o prazer da audição. Lá atrás, foi a era de ouro do rádio.  Agora, estamos fissurados com os podcasts. O podcast é um arquivo digital de áudio transmitido através da internet. São textos para ouvir. Tem de tudo: debates, histórias, conversas, críticas, comentários, informações. Atendem a todos os gostos e vontades. O Brasil é o segundo maior mercado do mundo. Pesquisa recente do Ibope, revela que 40% dos internautas brasileiros são ouvintes de podcasts. Quando falamos em influencers, pensamos sempre nos blogueiros e youtubers. Esta turma que faz podcasts, são os audio influencers, os novos influenciadores que estão despertando a atenção das marcas. Um exemplo é o podcast Sociologia para Crianças, uma conversa entre mãe e filha, sobre temas contemporâneos e nem sempre simples de serem respondidos. Este podcast tem a duração de 5 minutos e transborda em fofura nas conversas entre Alice, uma garotinha bem curiosa e sua mãe.

 

 

Solteiros
É um dos segmentos que mais crescem no Brasil e no mundo, até porque, os casamentos estão sendo adiados para depois dos 35 ou 40 anos de idade. Segundo o IBGE (2019), 54% da população brasileira se declara solteira. Em 10 anos, o número de pessoas que moram sozinhas cresceu de 10% para quase 15%. Temos então dois movimentos: mais pessoas solteiras e mais pessoas que optam por residirem sozinhas. O público single, como são mundialmente as pessoas solteiras ou que moram sozinhas, em geral tem a renda destinada para gastos consigo mesmo. É um público que prima pela qualidade, exige mais experiência no consumo e é fã produtos que são voltados para “cuidar de si mesmo”. As práticas de atividades físicas, consumo com orgânicos, produtos de beleza e associados à melhor qualidade de vida, são maiores neste segmento. Importante lembrar que ser uma pessoa solteira ou que mora sozinha, nada tem a ver com solidão.

 

Viajantes Avulsos

É mais caro viajar sozinho do que em dupla ou em grupo. Contudo, o mercado de turismo tem que se adaptar rápido pra atender a este novo comportamento. Dados da  JWThompson Intelligence, agência especializada em tendências, mostra que não dá pra ignorar este público: 63% é o quanto cresceu o número de viajantes sozinhos a lazer. Isto acontece como resultado de pessoas mais independentes na longevidade e de um novo pensamento que prega a ideia que se você não consegue ficar sozinho com você mesmo, não dá pra amar o próximo. Alguns hotéis e sites especializados em hospedagem já estão adaptando os preços de estadia para melhor atender aos turistas avulsos. E mais uma vez, não é demais lembrar que estar sozinho não significa ser solitário.

 

*Fábio Mariano Borges, especialista em tendências, há 30 anos coordena projetos de comportamento do consumidor e tendências. Sociólogo pela USP, publicitário pela ESPM. Doutor e Mestre em Sociologia do Consumo pela PUC/SP. Professor convidado da Nottingham University na Inglaterra. Sócio-diretor da inSearch, empresa de pesquisa especializada em estudo de tendências e consumer insights, onde atende clientes como Facebook, Twitter, Carrefour, Walmart, Pioneer, Honda, LandRover, entre outros. Tem feito estudos sobre comportamento nas redes digitais, net-ativismo, antropologia do consumo, inclusão da diversidade, causas, gênero e consumo.  Já atuou em empresas como Sebrae-SP, Datafolha, Marítima Seguros, Lorenzetti, Editora Abril, agência de propaganda Talent, DM9 e Publicis. Professor no Mestrado Profissional em Comportamento do Consumidor da ESPM e dos MBAs da USP, Fundação Dom Cabral, FGV e Sustentare Escola de Negócios.