SÉRIE | Jornalismo no papel e no digital. Jornalistas falam sobre o tema

07 de Novembro de 2019

Carlos Stegemann, Cesar Valente, Débora Almada, Fabricio Umpierrres, Fabricio Wolff, Hermann Byron, Karin Verzbickas e Ricardo Dias

 

 

O AcontecendoAqui foi buscar junto aos profissionais que atuam em Santa Catarina uma visão sobre o que poderá acontecer com os meios de comunicação na Região a partir da decisão da NSC em parar de imprimir jornais diários no Estado. Dividimos o resultado desse levamentamento em cinco capítulos: 
- Entidades do Trade;
- Jornalistas;
- Anunciantes;
- Publicitários;
- Universidades.

 A primeira parte da Série, com um apanhado de notícias relevantes sobre a queda de leitores do jornal impresso pelo mundo foi publicada no dia 5 de novembro de 2019, com as opiniões dos dirigentes da ACI, ACIF, ADI, ADJORI e SINAPRO. Acesse a publkicação aqui.

Hoje, 7 de novembro de 2019, publicamos a parte 2 com a opinião de jornalistas que vivem e trabalham em Santa Catarina. Ao ler seus depoimentos, têm-se a percepção de que é inegável o impacto da tecnologia sobre as mídias, especialmente a mídia impressa. Conforme mencionamos na parte 1 desta Série,  não se trata de movimento novo. Portanto, não é algo que possa - de maneira alguma - surpreender o mercado, uma vez que os reflexos do crescimento de audiência do digital já se fazem notar faz tempo. O modelo de negócios da mídia impressa, com isso, mudou. Operações maiores, de custo mais elevado, encontram dificuldade de rentabilizar e manter lucrativo o negócio. Na opinião de boa parte dos jornalistas ouvidos pelo AcontecendoAqui, as operações menores, cujo custo é igualmente menor, ainda há um espaço de tempo em que se conseguirá manter a lucratividade. Esta, entretanto, é continuamente decrescente, o que permite indicar - sem erro - que também elas caminham para seu encerramento. 

Há, portanto, um grande desafio pela frente para quem deseja fazer a migração papel-digital: as estratégias e táticas bem sucedidas no primeiro não funcionam no segundo. Planos de negócios de um não “rodam” no outro. As regras do jogo são outras. E aqui reside um ponto interessante: quem vai entender melhor e mais rápido isso? Quem vem de outro modelo, tentando se adaptar, ou quem já nasce no novo modelo? Dê a sua opinião no campo COMENTÁRIOS ao final da matéria.
 

ANA LAVRATTI
A meu ver... a tendência é o leitor de jornal se converter em leitor de conteúdo. Acredito que a lacuna pode ser maior para as agências do que para o leitor, que irá se adaptar às notícias no celular ou computador. Abre-se uma porteira para que gradualmente os jornais deixem de ser impressos e entregues em domicílio, o que pode ser uma tradição confortável mas não é sustentável. Nos últimos anos, com muita facilidade, tenho lido o DC no computador.

Ana Lavratti, jornalista e colunista do AcontecendoAqui

 

CARLOS STEGEMANN
O encerramento simultâneo de quatro títulos é algo muito impactante, aos leitores e em especial aos jornalistas. A Notícia era um jornal quase centenário e o DC além de seus 33 anos, trazia consigo a marca de uma revolução no mercado – o primeiro tabloide de larga circulação do estado, o primeiro 100% informatizado do país etc. Respeito a estratégia da NSC, que naturalmente foi exaustivamente estudada, mas doeu muito aos que, como eu, leem e apreciam jornais desde a infância. Há anos venho habituando-me com a ideia do fim do impresso, mas não do jornal em si. 

Creio que os anunciantes – e por consequência as agências - estavam em preparação para a nova realidade imposta pela revolução digital e já existia um movimento de migração para outros meios e canais. A publicidade, suponho, adaptar-se-á sem maiores dificuldades. 

Sem dúvida que o jornal impresso está em sua reta final. Certa vez, o Ethevaldo Siqueira, o jornalista de maior conhecimento na área digital no Brasil, comentou comigo que se todo chinês comprasse um jornal ao amanhecer não existiria papel suficiente no planeta. A tecnologia digital confere uma agilidade incomparável a qualquer meio de comunicação. Todavia, o que realmente pesa, além da impressão é o custo de distribuição, em especial em uma país de dimensões continentais. Porém, reitero que o que me abala não é o fim do jornal impresso, mas o fim do jornal. 

No meu caso, deixei de lêr jornais impressos há um ano e meio, aproximadamente. O último bastião foi O Estado de São Paulo, do qual sou assinante. Entretanto, leio-o no notebook em formato flip page e com quase a mesma sensação de estar lendo um impresso. 
Minha reflexão final: a grande preocupação e o grande risco para a sociedade é constatar que não existe renovação na leitura de jornais. A juventude, salvo honrosas exceções, não lê jornal. A maioria mal e mal sabe de sua existência. Isso é dramático e comprometedor. Qual a fonte de informação destas pessoas? O que sabem de suas comunidades, do país e do mundo? O nó górdio reside aí. 

Carlos Stegemman, jornalista e sócio-diretor da Palavra Comunicação.

 

CESAR VALENTE
Tenho a impressão que, dentre os jornalistas da minha idade (sessentões), fui um dos primeiros a perder o hábito de ler jornais de papel. Embora a vida toda tenha trabalhado com jornais e produtos gráficos impressos, desde muito cedo (meados da década de 80 do século passado) uso o computador para a maioria das tarefas, o que acabou me dando familiaridade com a leitura de informações nas telas iluminadas.

E o fato de ser impresso ou estar online passou a ter menos importância do que o conteúdo que, num e em outro caso, estava sendo levado ao público. Hoje, como antes, me incomoda não encontrar boas reportagens. Mas não associo mais a qualidade só ao papel. Há muita qualidade também no jornalismo online.

De uns anos para cá fiquei com a amarga impressão de que a turma a quem entregaram a edição dos jornais impressos não queria estar ali. Ou, pelo menos, gostaria de fazer, no impresso, outra coisa que não a que seria mais adequada à plataforma.

A pretexto de “inovação”, tentavam fazer do jornal impresso um pastiche da internet, com arremedos de interatividade e uma redução de custos impossível.

O resultado, jornais ruins. Ruins de ler, ruins de fazer. Parece que faltaram àquela aula básica da vida moderna: a notícia factual, urgente, vai pelos canais rápidos. Tá no celular, no computador, no tablete, poucos minutos depois de acontecer. Portanto, o jornal, que sai no dia seguinte não pode vir só com o resultado do jogo de ontem, com a notícia da explosão, com a informação do assassinato ocorrido 40 horas antes. O papel do jornal, nesse novo mundo, portanto, se assemelha, em termos diários, o papel que tiveram as revistas semanais. Ir um pouco além. Acrescentar ao fato informações, contexto, desdobramentos.

Mas para fazer isso, claro, é preciso ter um projeto que valorize o impresso. Não que o considere descartado e esteja apenas contando tempo para a aposentadoria.

Então, pelo que a gente lê (lia) e vê (via), as empresas desistiram dessa plataforma bastante tempo antes de desligar os aparelhos. Em vários casos, é eutanásia, pura e simples. Já que está em estado vegetativo, vamos abreviar o sofrimento.

Estou sendo meio injusto ao deixar subentendido que só as empresas jornalísticas queriam fechar seus jornais e por isso os tratavam tão mal. Há, no “mercado”, esse sentimento, que contaminou anunciantes e demais agentes, de que “o jornal impresso já era”. O que, naturalmente, alimenta o círculo vicioso que apressa o final: a qualidade não é lá essas coisas, o financiamento está escasso, os cortes tornam ainda mais difícil manter uma qualidade mínima e ninguém é louco de gastar dinheiro num produto ruim que todo mundo sabe que mais dia, menos dia, vai acabar. Pronto.

O papel impresso com notícias e informações não me faz, pessoalmente, falta. Mas as notícias e informações bem apuradas, bem redigidas, bem editadas, por gente informada e competente, fazem falta, sim.

O trauma com a queda de receita do impresso, acho, foi tamanho que as cabeças pensantes da indústria de informação querem, nas novas plataformas, fazer produtos mais baratos. Não lhes basta economizar no papel, na distribuição, na impressão. Precisam economizar na produção do noticiário que querem vender online. Informação original, socialmente relevante, é a única coisa que pode fazer alguém enfiar a mão no bolso e tirar umas moedas para pagar para ler. E é caro produzir essa informação. Não é qualquer um que consegue. E dezenas de colunas de opinião não suprem essa carência.

Ou seja: não é o fato de estar em papel ou na tela que torna uma informação mais ou menos importante. É a forma como ela foi apurada, tratada e entregue. É o nível do jornalismo utilizado.

Claro que há diversas situações em que o jornal impresso pode e deve continuar sua trajetória de influência e inovação. Há muitos municípios em Santa Catarina mesmo, cujos principais veículos, os de maior prestígio, são jornais impressos. E, quando são bem feitos, em sintonia com o mundo em que vivem e circulam, complementados (no notíciário factual e urgente) por um portal de internet, certamente terão vida longa.

Cesar Valente, jornalista. Dirige a Multitarefa Serviços Ltda e mantém blog cesavalente.com

 

DÉBORAH ALMADA
Como profissional que atua e empreende neste mercado, estou acompanhando com muito interesse os movimentos da NSC Comunicação. Conheço vários dos profissionais que estão envolvidos com esse processo de virada digital. Acredito que eles têm a experiência e talento necessários para que o produto NSC Total seja aperfeiçoado, oferecendo mais informações exclusivas e jornalismo de qualidade. Com a profusão de notícias falsas ou mal apuradas na internet, há muito espaço para jornalismo e para canais com credibilidade. 
Aguardo com expectativa os próximos movimentos." 

Déborah Almada, jornalista e sócia da All Press Comunicação.

 

FABRICIO UMPIERRES
No papel não leio há muito tempo, mas sigo e assino as versões digitais de alguns jornais locais e nacionais. Leio quase que diariamente. 

Acredito que fica uma lacuna para os leitores e o mercado de comunicação, mas acho que mesmo aqueles que ainda têm esse hábito aos poucos vão se acostumar com o fim do impresso. Por praticidade e disponibilidade, o online já venceu.

Fatalmente a iniciativa da NSC é inspiracional. Vários veículos tradicionais de outras cidades catarinenses, como em Tubarão e Criciúma, já haviam deixado de circular no impresso recentemente. 

Cabe aos veículos levarem seu legado ao meio online. Será preciso mudar a lógica antiga de comercialização, mas o digital permite uma visão de jornada do leitor, acompanhamento de dados em tempo real que o meio impresso não tinha. Para os maiores anunciantes, que têm ainda a mentalidade de mídia de massa, fica uma lacuna sim. Mas as coisas estão mudando e não adianta fazer o mesmo que se fazia há 10, 20 anos...

O fim dos impressos é uma questão de tempo. ainda acho que, num futuro relativamente próximo, o impresso volta como um fetiche, mas num contexto de produto e hábito de leitura muito diferente, voltado a um público seleto. como vem acontecendo com o vinil. 

Sobre o cenário no Brasil, vai depender muito de como os veículos farão essa migração para o digital. Como eles vão compreender a preferência de seus leitores, como vão se posicionar editorialmente, como vão entregar experiência e resultados aos anunciantes e parceiros etc.

Também acho que os veículos deveriam se conectar a outros produtores de mídia. o jogo não se joga mais sozinho. Mas também não adianta canibalizar audiência. A soberania está em xeque e é preciso pensar em parcerias que gerem negócios para ambos os lados.
A soberania (dos grandes grupos de mídia) está em xeque.

Fabricio Umpierrres, jornalista e fundador do Inova SC

 

FABRICIO WOLFF
O fim dos jornais editados pela NSC, em especial Jornal de Santa Catarina, A Notícia e Diário Catarinense, representam o fim da era do jornalismo impresso catarinense como conhecíamos.
É uma tendência mundial, própria dos novos tempos, mas ainda assim não soa menos dolorosa para aqueles que se acostumaram às notícias diárias no papel.
Isto deve mexer com o mercado. Primeiro, porque os profissionais do jornalismo perdem mercado de trabalho. Segundo, porque abre novas possibilidades para os jornais municipais ou microrregionais, que, se bem geridos, podem ocupar este espaço deixado pelos grandes.

A grande pergunta é: ainda haverá mercado para o jornalismo impresso diário? Com as novas tecnologias, a rapidez da informação, a mudança de preferência pelas plataformas mais interativas e miltimídias, é de se perguntar se ainda haverá interesse do público e do mercado no tradicional jornal impresso cotidiano.

Fabricio Wolff, jornalista e assessor parlamentar na ALESC    

 

HERMANN BYRON
Se o fim dos impressos da NSC deixam uma lacuna... Sim, fica uma lacuna para os que tinham o hábito de consumo do produto DC. Já para nós do Imagem da Ilha, os 18.000 leitores (2 pessoas por exemplar) continuam prestigiados e recebendo o impresso gratuito, em casa e no seu nome. Em relação ao mercado anunciante sim e não. O impresso diário continua com outra empresa que ainda acredita no negócio. Para nós, do Imagem da ilha seguimos firme na quinzenalidade e o envio via mala direta.

Com relação aos jornais do interior, que são sólidos, aposto na continuidade do impresso por muitos anos. O problema com a NSC foi contábil. Acharam que não valia a pena a TV bancar  o jornal impresso em um momento difícil.

Hermann Byron, editor do Jornal Imagem da Ilha

 

KARIN VERZBICKAS
Nos últimos anos o volume de notícia lida em papel jornal diminuiu e as espiadas concomitantes no smartphone aumentaram, em virtude da maior difusão de notícias em tempo real. Cancelei algumas assinaturas físicas, ativei outras digitais. Mas o ritual do café-jornal continuou. Até duas semanas atrás recebia em casa os dois jornais impressos da Grande Florianópolis, Notícias do Dia e Diário Catarinense. Passei a não receber mais o Diário, por conta do fechamento dos impressos do grupo NSC e o Notícias do Dia fui obrigada a passar para assinatura digital porque o ND estava me entregando a versão em papel muito tarde para meus horários madrugadores de ler notícia. Então migrei também para o digital. Confesso que nos últimos dias tenho sentido uma certa abstinência do papel jornal. Faz muita falta para quem por décadas habitou-se desta forma e confesso que tenho certa dificuldade em lidar com os humores digitais. Apenas para ilustrar, hoje por exemplo, o ND digital entrava para mim ma capa do dia e o miolo do dia anterior. Já o NSC total aparecia sem atualizações novas desde as 11horas do dia anterior. Me senti absolutamente orfã.

Acredito que fica uma coluna a ser resolvida. É um nicho importante de difusão de notícias que deixa de ser utilizado, que sofre uma campanha de desvalorização pública como se tudo que fosse digital fosse necessariamente mais moderno, inovador e mais eficiente. O que discordo absolutamente. A qualidade não está na plataforma, está no conteúdo. E acho que os veículos de comunicação e os profissionais estão correndo atrás disso.

Lamento profundamente como leitora old school o fim dos impressos anunciado pelo Grupo NSC. Não tenho conhecimento para avaliar se sob o aspecto de gestão e saúde financeira da empresa era a melhor decisão a ser tomada. Só sei que como leitora e cliente a ideia em nada me agrada. Como profissional de comunicação eu ainda acredito que há espaço para o jornal impresso e que a onda digital não o varrerá de vez. Há espaço para as duas plataformas, ainda que tenham que sofrer profundos redimensionamentos. Mas uma não matará completamente a outra, assim como o advento da TV não acabou com o rádio; assim como a internet e as produções no cenário streaming enfraqueceram mas não acabaram com a tv aberta. Somos plurais e a comunicação ocupa todos os canais que estiverem disponíveis, com maior ou menor força. Agora o tempo é de ajuste, de medir o poder de decisão do usuário e também ajustar a régua da publicidade em cada uma das novas vias. Ainda somos todos aprendizes nesse novo mundo.

Karin Verzbickas, jornalista e sócia-diretora da Fábrica de Comunicação

 

RICARDO DIAS
A transformação provocada pelos meios digitais na forma como consumimos informação é veloz e irreversível. Em todos os setores da economia, o impacto é gigantesco e os meios tradicionais de comunicação talvez sejam a face mais visível dessa mudança. 
Empresas do mundo todo vêm testando novos formatos de cobrança e distribuição de notícias. Apesar de alguns exemplos bem-sucedidos, o consenso é que não há um modelo totalmente validado que possa determinar o futuro sustentável do jornalismo como negócio.
A decisão da NSC de suspender a impressão diária dos jornais de certa forma antecipa uma tendência. Santa Catarina é um dos estados mais conectados do país, o segundo em percentual de domicílios com computador ou tablet. Esse é um dos indicativos que destacam a importância de os veículos reforçarem a atuação no meio digital.
Mas a mudança ainda é recente e é difícil mensurar todos os impactos no mercado catarinense de comunicação. Santa Catarina tem um mercado de mídia regional estruturado que tende a se fortalecer com esse movimento. 
O professor Jeff Jarvis, da City University, de Nova York, é um estudioso sobre o futuro do jornalismo. Ele costuma lembrar que entre a introdução da imprensa, em 1450, por Gutemberg, e o primeiro jornal se passaram cerca de 150 anos. Hoje a solução pareceria óbvia, mas levou um século e meio até surgir o primeiro produto após a invenção da tecnologia. É claro que hoje as transformações ocorrem de maneira muito mais veloz, mas podemos presumir que estamos em meio a uma travessia.
O fato é que a imprensa permanece fundamental para a democracia. No formato impresso ou digital, requer ética e profissionais qualificados para cumprir essa importante função de informar. E acredito que essa demanda por notícias de qualidade vai continuar existindo não importam os novos formatos que apareçam no futuro.

Ricardo Dias, Secretário Executivo de Comunicação do Governo do Estado de Santa Catarina