A força do Meio Jornal em Santa Catarina

18 de Outubro de 2019

Jornais impressos circulam nas cidades catarinenses de maior população

 

A notícia da decisão da NSC Comunicação em concentrar suas forças no meio digital para seus quatro jornais, provocou grande reação nas pessoas que foram alcançadas por seu comunicado oficial. Logo após a publicação, em todos os canais que você procurasse a informação, encontrava a lamentação maior das pessoas relacionada à demissão de 24 profissionais na manhã de ontem, dia 16 de outubro de 2019. Quem procurar saber sobre a situação do jornal impresso no Brasil encontrará farto material na internet. E o que vai saltar aos olhos são as notícias sobre a decisão de jornais centenários terem parado com a circulação do impresso e focado no digital.

No início deste ano, quando se falava no resultado da mídia brasileira em 2018, o que se via eram avaliações negativas para a maioria dos veículos brasileiros de comunicação. No caso do meio jornal, os mais impactantes foram esses 3:
O lendário Diário de S. Paulo teve falência decretada pela Justiça em 22 de janeiro.
O jornal A Cidade, de Ribeirão Preto (SP), deixou de circular a versão impressa em outubro. Existia há 114 anos. 
O jornal Gazeta de Alagoas, 84 anos, deixou de circular a edição impressa em novembro.

Segundo o VoltLab, até agosto, 290 jornalistas haviam sido demitidos em 2018. Nos últimos 6 anos, 7.817 demissões afetaram profissionais da área de mídia. 45% foram funcionários de jornais impressos e 22% de revistas. 9,1% eram do meio online.

Digital
Em contraponto ao jornal impresso, a circulação digital dos grandes jornais cresceu no Brasil em 2018. Folha, O Globo, Estadão e Zero Hora ampliaram suas assinaturas digitais. Embora o cenário ainda seja delicado para a mídia impressa, em termos gerais, os grandes jornais brasileiros vem conseguindo encontrar, no meio digital, um caminho para sustentar – e, em alguns casos, até ampliar – sua circulação.
Fonte: IVC

 

Grande circulação
Há tempos já se falava que os jornais impressos ainda sobreviviam por conta da publicidade legal. Por determinação de Lei Federal, as empresas eram obrigadas a publicar seus balanços, balancetes, editais e assemelhados, no Diário Oficial e num jornal de grande circulação. No mês de agosto deste ano, o presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto desobrigando as empresas da publicação em jornais. Agora, basta a publicação no Diário Oficial digital. Com isso, os jornais que tinham sua principal ou única receita na veiculação de Publicidade Legal, sentiram o golpe maior contra sua existência.

 

Mercados regionais
Os veículos que atuam em mercados menores sofrem menos, pois suas estruturas e modelos de negócios são sustentados pela realidade local. Na maioria dos casos a gestão é feita pelo dono e com a parcimônia inerente aos objetivos dele. Em Santa Catarina, a partir do próximo dia 27, o jornal diário com maior abrangência geográfica e tiragem da versão impressa passa a ser Notícias do Dia, pertencente ao Grupo RIC. Conversamos com Marcello Petrelli, presidente da RIC, para saber dele como enxerga o mercado de Santa Catarina para os jornais impressos. 

"Nós temos mídia impressa há 12 anos e temos consciência de que é um produto que passou por reformulação. Para nós, sempre fez parte o projeto regional, onde o jornal tem a missão de conversar com os leitores da sua região. E esse é o modelo de quase uma centena de jornais em Santa Catarina que utilizam custos baixos, profissionais engajados, envolvidos com a região, movidos pelos seus propósitos e isso traz uma aderência maior, uma resposta maior.
O modelo de negócio para um jornal, na minha opinião, e garantir agilidade, trazer a realidade da cidade para ser assunto de interesse dos moradores. Outra questão é a importância que o jornal tem de pautar a televisão, rádio e os digitais do Brasil todo. 
No nosso caso o jornal não cresce, mas também não cai. Nós temos o número de assinantes crescente a cada ano, na ordem de 2 a 3%. Então, nesse aspecto o jornal continua muito vivo. Na RIC estamos contratando pessoas, fazendo projetos, liderando ações, etc. 
Eu entendo o movimento feito pela NSC. Tendo em vista seu formato de gestão, é uma outra realidade de propósito, custo e envolvimento nos seus contextos e a decisão de concentrar esforços num projeto digital foi a saída deles. 
Acredito que o jornal ainda tenha muitos anos pela frente desde que você tenha a capacidade de mantê-lo relevante constantemente. Temos no Estado jornais importantes como O Município de Brusque, o Correio do Povo em Jaraguá, Imagem da Ilha em Florianópolis e outros na Região. Tudo isso são confirmações de que o modelo regional tem uma resposta, é muito atuante e muito competitivo", disse Marcello Petrelli.

 

Hiperlocal
Em Florianópolis, um dos jornais impressos mais antigos é o Imagem da Ilha, que desde o seu lançamento, em 1995, é distribuído gratuitamente. Fundado pelo empresário Hermann Byron, inicialmente como um jornal de vídeo locadora, em 1998 tornou-se o jornal impresso regional da área nobre da capital catarinense. Para Byron, o seu modelo de negócio é bastante viável, pois, mesmo com distribuição  gratuita, as edições podem ser viabilizadas através da venda de publicidade. “Estamos sempre em busca de novidades para os nossos leitores, entregando conteúdo exclusivo, inclusive com a participação  do nosso time de colunistas. E o leitor recebe o jornal etiquetado em seu nome, de graça. 
Desde 2015, os 9.000 exemplares impressos tèm distribuição quinzenal e  gratuita auditada pelo Instituto Verificador de Comunicação (IVC) de São Paulo. "Estamos presentes no meio digital desde 1999, ou seja, há 20 anos, e sempre buscando inovar. Agora, por exemplo, algumas matérias  e anúncios das edições digitais, que são disponibilizadas em nosso site, contam com links exclusivos com informações extras. Porém, o impresso tem seu espaço! Pelo menos é o que escuto dos leitores que preferem folhear o 'velho e bom" jornal impresso”, diz.

 

Jornais do Interior
Em Santa Catarina há duas entidades bastante atuantes com jornais impressos. ADI e ADJORI, juntas, administram ações do interesses de quase 200 jornais  impressos. O AcontecendoAqui conversou com os presidentes das duas entidades para trazer ao seu público, dados que comprovem a força do Meio Jornal em Santa Catarina. Confira o que eles disseram:

 

ADI
"O mercado de comunicação de Santa Catarina se difere em grande parte do que ocorre nos demais estados, pela própria configuração que temos aqui. Nosso estado não tem uma Capital forte o suficiente para estar isolada no topo de um ranking. São pelo menos dez as cidades-polo que concorrem em importância econômica com Florianópolis. 
A força econômica de cada uma dessas cidades faz com que tenham suas próprias redes de comunicação e, neste quesito, o jornal impresso tem espaço garantido. Tudo, absolutamente tudo, passa pelas páginas dos jornais impressos do interior catarinense. Ou melhor, tudo sobre as comunidades abrangidas; muito do estado; o suficiente no que tange ao país; e o essencial no que diz respeito ao restante do mundo. Essa é a nossa escala de valores e é por isso que mantemos praticamente intocada a importância de nossos veículos, alguns com poucos anos de existência e outros que já chegaram ao centenário.
Há quem nos aponte como atrasados, por mantermos e valorizarmos os impressos enquanto o setor caminha para o digital. Isso apenas mostra o desconhecimento sobre nosso negócio. Temos que estar – e estamos – adequados ao mercado. O que não significa que estamos parados no tempo.
A profissionalização, a capacitação, a adequação de modelo de negócio conforme o momento, sempre foram regras de gestão seguidas por nossos veículos, em grande parte estimulados pela Associação de Diários do Interior, a ADI-SC. Só que, recentemente (na verdade nem tão recentemente assim) acrescentamos mais um substantivo à nossa lista: reinvenção.
Afinal, estamos diante de uma inevitável ruptura do modelo atual, em meio físico, para o modelo digital. Por isso mesmo, a ADI-SC vem investindo há anos em várias frentes de atuação pela internet. Cada iniciativa veio com um ensinamento, acúmulos que nos trouxeram até aqui, ao SCPortais, nosso agregador de portais de notícias dos veículos associados que atuam só no impresso, só no digital ou em ambos os modelos.
Com isso, atendemos os leitores que não abrem mão de folhear o jornal impresso ao mesmo tempo em que conquistamos e fidelizamos leitores das novas gerações. 
Soma-se a esse movimento outro igualmente importante: a integração editorial. Prática característica da nossa entidade, por meio da Coluna Pelo Estado, entrevistas e matérias especiais, além de eventuais coberturas distribuídas aos nossos associados, a integração editorial ganhou novos horizontes. Este patrimônio agora se estende aos veículos da entidade parceira, a Associação dos Jornais do Interior (Adjori-SC).
O que isso significa? Um ainda maior fortalecimento do meio jornal, seja impresso ou digital. Em números, a integração editorial 52 jornais impressos - sendo 17 da ADI-SC -, representa quase 176 mil exemplares (tiragem declarada total), circulando a partir de 53 cidades-sede em um total de 240 cidades catarinenses. 
No ambiente de web, só o SCPortais, com 19 integrados, superou em setembro 9,6 milhões de visualizações de páginas e 3,3 milhões de usuários únicos.
São números que demonstram a força do meio jornal em Santa Catarina! E que tendem a melhorar muito com a acomodação do mercado".
Lenoíres da Silva
presidente da Associação de Diários do Interior (ADI-SC)

 

ADJORI
"A Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina - Adjori/SC com sede no Centro de Florianópolis, tem 38 anos de atuação no mercado de comunicação e representa 109 títulos de jornais impressos, com várias periodicidades, além de seus portais de notícias que são considerados com periodicidade diária. 
Estamos presentes em todos os 295 municípios catarinenses, cujas tiragens alcançam a marca de 220 mil exemplares por semana, e juntos reunimos cerca de 1 milhão e quinhentos mil leitores no Estado. 
Na internet a Adjori/SC tem uma rede capitaneada pelo portal de notícias RCN On-line, com alcance acima de 1 milhão e trezentas mil páginas vistas por mês, mais os sites de cada jornal. 
Nossa força editorial está na soma que estes veículos juntos - impressos e mais seus portais -, significam, formando a maior Rede de Comunicação no Estado. Um grande diferencial é a nossa realidade local. Os jornais do interior têm produção de conteúdo própria, entregam aos seus leitores as informações de seu universo local e regional.
A transição para o meio digital já é realidade. A maior parte destes veículos já tem jornal on-line diário ou está construindo o processo. Desta forma os jornais do interior continuam crescendo em credibilidade e abrangência. 
É importante frisarmos, que ainda há - e haverá por longo tempo - vida e importância para o jornal impresso que circula nas comunidades do interior de nosso pujante Estado. É a Mídia Regional que chega e que tem presença quase que exclusiva no interior, somos porta-vozes das comunidades.
Porém a decisão tomada pelo Grupo NSC, que os levou a uma mudança significativa em sua  estratégia de negócios, é compreensível e prevista diante da realidade do mercado em que o Grupo está inserido.  
José Roberto Deschamps
presidente da ADJORI-SC