ARTIGO | Cadê a ideia?

30 de Setembro de 2019

Entregamos à tecnologia uma tarefa que é nossa!

*por André Balaban

 

Estou preocupado.

O mundo do marketing passa por um momento de profundas mudanças (quem sabe, sempre passou), e duas notícias envolvendo tradicionais agências de comunicação chamaram à atenção do meio e me fizeram refletir. Tudo soou quase como um decreto do fim da propaganda.

A primeira delas veio nos últimos dias de 2018: o fechamento da DM9DDB. Tradicional, criativa, premiada, agência do ano Cannes Lions, e muito admirada. Na pesquisa Agency Scope, que ouviu 376 executivos de marketing, a agência aparecia como segunda colocada no ranking de conhecimento espontâneo. Nada disso foi suficiente, o negócio diminuiu e a controladora resolveu descontinuá-lo.
A segunda notícia é mais recente, em agosto o Publicis Groupe comunicou que Fabio Fernandes estava deixando o comando da F/Nazca Saatchi & Saatchi, onde exercia as funções de Presidente e Diretor Executivo de criação. Sim, ele foi demitido da própria agência que fundou, que leva a letra de seu nome e com a qual, ganhou o Grand Prix de Film do Festival de Cannes, maior prêmio da história da propaganda brasileira.

Estou preocupado.

Todos sabemos da importância da tecnologia na comunicação. Todos entendemos da necessidade de utilizarmos esta tecnologia para estreitarmos laços com o nosso público alvo. Todos estamos nos adaptando as infindáveis possibilidades de pontos de contato com o consumidor que o mundo digital nos abre.
As redes sociais nos deram novos formatos de conversa e uma mira laser para dispararmos nossas mensagens publicitárias para quem, quando, onde e a hora que entendermos mais eficazes. O Google e afins, com suas ferramentas de busca e display nos dão oportunidades de atingir repetidamente nosso target. 
A tecnologia e seus derivados são maravilhosos “entregadores de mensagens”. Mas, qual mensagem? E aí que quero chegar.

Estou preocupado.

Não estaríamos focando toda a energia em “atingir” nosso público e descuidando do quê, realmente, estamos dizendo para ele? 

CADÊ A IDEIA, CATZO?

Será que o caminho da comunicação é a mera repetição maciça de clichês? Será que o caminho é um remarketing de sapato, tênis, viagem... - insira aqui o produto que quiser - ... em looping infinito até nos vencer no cansaço? Não tem mais persuasão! É tudo seco, informativo, genérico, com cara de banco de imagem e doses do efeito Photoshop da moda. A publicidade brasileira de hoje tem cara de “assessoria de imprensa com layout”. Nada novo, nada que impacte, nada que faça sorrir, chorar, pensar, motivar, desejar, etc. 

Nunca vi um algoritmo ter uma ideia criativa como as de Fábio Fernandes ou de todos os grandes profissionais que passaram pela DM9.
Vivemos um momento de preguiça mental, onde entregamos à tecnologia uma tarefa que é nossa!

*André Balaban - Diretor da Lovers Creativity & Co.