Coluna Paulo Lamim | 2016 está sendo absolutamente necessário

29 de Dezembro de 2016

Estou vendo muita gente torcendo para 2016 acabar. Foi realmente um ano de perdas e notícias difíceis de acreditar e digerir. Acompanhar os acontecimentos ou assistir um simples jornal na TV mais parecia um filme de terror misturado com ficção científica. Teve principalmente muita cara de pau rolando solta por aí.

Mas quer saber, para nós brasileiros evoluirmos como nação e termos nossa auto-estima recuperada (ou de fato construída), tudo o que está acontecendo é absolutamente necessário. Seria impossível partirmos do estado em que as coisas historicamente foram se formando no país para um outro estágio mais maduro, próspero e justo sem passarmos por essas dores de agora.

É justamente na crise, quando nos sentimos mais vulneráveis e indignados com a realidade, que nos questionamos, criamos opinião sobre assuntos que nos afetam e descobrimos a força que temos.

Estou falando principalmente de política e economia, e justamente no auge dessa crise, houve o trágico acidente com a equipe da Chapecoense. Mesmo não acompanhando mais de perto o futebol, ficou claro que o nosso esporte nacional é muito mais do que vinte e dois caras correndo atrás de uma bola, como ouvi de um colega. Esse momento foi simbólico demais e tornou clara a distância gigantesca entre as prioridades das raposas políticas que cuidam do nosso galinheiro e a virtude do povo brasileiro e colombiano dando uma aula para o mundo sobre solidariedade e fair play.

Ah, nos esportes houve também as obras superfaturadas das olimpíadas de um lado, e do outro a nossa gente criativa e talentosa dando um show de humanidade desde os primeiros minutos da abertura dos jogos, não foi?

A tal da crise fez muita gente também rever as suas prioridades de consumo, tendo que apertar os cintos e se adaptar a uma nova realidade e a um cenário com perspectivas bastante incertas. Nesse contexto, muita gente teve que trocar as horas no shopping ou com os sonhos do próximo objeto de consumo para dar mais atenção ao ser em relação ao ter. Com isso, tive a impressão de que muito mais gente foi estimulada a procurar se conhecer melhor e a olhar para as suas relações pessoais e profissionais.

Nunca vi tantas pessoas interessadas em autoconhecimento, propósito de vida, empreendedorismo, empoderamento, superação e busca de realização pessoal e profissional. E essa é sem dúvida uma excelente estratégia de contra-ataque que só as crises proporcionam. Lembremos, por exemplo, da história da Alemanha e do Japão.

Olha, eu fui um desses que foi provocado pelas circunstâncias, senti minhas dores e me movimentei no sentido de dar uma contribuição. Além de compor o time e me dedicar integralmente ao significativo trabalho que a Fundação CERTI realiza para promover o desenvolvimento das empresas e da sociedade através da inovação, procurei me abrir e ir um pouco mais adiante. O resultado foi que 2016 se tornou o ano que mais aprendi coisas diferentes sobre a vida.

Comecei diversificando mais as minhas leituras e os cursos que participava. Passei a aceitar mais convites que recebia e a escrever e compartilhar minhas ideias, como nesse espaço aqui. Voltei à universidade (que sempre esteve literalmente ao meu lado) para fazer dois cursos interessantíssimos sobre Astronomia - que foram do estudo do sistema solar até as mais modernas teorias sobre a origem do universo. A partir daí me tornei um autodidata curioso sobre assuntos científicos envolvendo física, química, biologia, teorias evolucionistas e a sua relação com o consumo, sustentabilidade, psicologia, filosofia e espiritualidade.

Nesse caminho conheci pessoas incríveis e fiz amigos com novos valores e olhares sobre o mundo, principalmente ao ser selecionado para participar da iniciativa do Lab do Social Good Brasil, onde o que prevalece é a colaboração e a vontade de fazer a diferença. Participei também de um grupo formado por homens que se reunem para refletir e aprender juntos sobre o papel do homem no mundo de hoje, seja como amigo, companheiro, pai, filho ou profissional.

Participei do Fórum Mundial da Paz, do Festival SGB, e de todas as conferências e eventos que pude na área de sustentabilidade, como o Planeta.doc, a Semana Lixo Zero e os encontros do grupo Green Drinks. Apoiei e ajudei a financiar projetos sociais, ambientais e artísticos ao longo de todo o ano. Subi algumas montanhas, como o Cambirela e a Serra do Tabuleiro, que também estavam ali ao meu lado, mas que não conhecia lá de cima.

Com tantas novidades, esse foi também o primeiro ano, em décadas, que não viajei para conhecer um lugar novo. Porém fui bem mais longe em termos de ampliar a consciência e do entendimento sobre a vida do que jamais poderia imaginar. E essa tem sido uma viagem incrivelmente empolgante.

Enfim, a sensação que ficou foi a de uma microrrevolução em meio a macrorrevolução de que estamos todos participando.

Com isso, a minha torcida mesmo é para que em meio a crise moral, política e econômica que 2016 nos proporcionou, aproveitemos muito bem o ano que está chegando para avançarmos em direção ao nosso amadurecimento, priorizando e colocando em prática ações que visem a satisfação coletiva.

Estou convencido de que o que predomina no nosso povo, e em qualquer outro, é a boa fé. Estamos dando os primeiros e necessários passos para que os valores da maioria prevaleça sobre os valores distorcidos de uma minoria. Lembrando, como já escrevi por aqui, que "o novo poder vem das redes, das multidões, que se auto-organizam de forma distribuída".

E é justamente aí que está a nossa força para fazer de 2017 um ano memorável. Vamos juntos?

Paulo Lamim

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    Paulo Lamim é Engenheiro de Produção pela UFSCar, com MBA em Administração pela USP e MBA em Marketing pela FGV. Tem mais de 20 anos de experiência com o desenvolvimento de novos produtos e serviços, marketing, estratégia de negócios e inovação tecnológica, tendo atuado em empresas como AmBev, Coca-Cola, TIM, Vivo e Intelbras. Atualmente é o responsável pela área de Novos Negócios no Centro de Produtos e Sistemas da Fundação CERTI.