Coluna Julio Pimentel | 60 anos na estrada: Complience, Efeito Borboleta e Lava Jato

05 de Maio de 2017

Em 1959 entrei na Lever Brasil como assistente de Gerente de Produtos e alocado com Rafael Martin Rios no grupo que incluía Rinso, alvo do maior investimento da companhia naquele momento, para introduzir o hábito de uso do sabão em pó entre as donas de casa.

Rios era uma figura exemplar. Profissional ao extremo, entrava pontualmente às 8 horas e saia quase nunca depois das 5, pois dizia que se não conseguisse cumprir suas tarefas no horário normal, ou elas estavam acima de sua competência, ou ele estava trabalhando mal. Dedicava cada minuto do dia ao trabalho e nos intervalos para descanso e relaxamento fazia reflexões sobre a vida e o viver. Espírita convicto e ativo, participava de atividades caritativas, sem nunca ter feito proselitismo. Era muito respeitado e estimado pelos colegas e superiores e posso afirmar que em um ano de convivência me ensinou muito sobre trabalho e vida.

No final daquele ano fui apresentado à tal de compliance. Foi assim: uma peça de enorme importância na campanha de Rinso era um caminhão, cujo baú abrigava equipamento e pessoas para fazer demonstrações do produto. Algo novo e impactante, o baú fora construído numa oficina especializada, um belíssimo trabalho de Jaques Pilon e equipe. Às vésperas do Natal, Jaques Pilon foi nos visitar com duas caixinhas nas mãos, para os cumprimentos de praxe. Nas caixinhas, duas canetas, se não me engano Mont Blanc – uma lembrança para quem mantinha com ele uma relação constante num projeto de valores vultosos. Rios, com doçura e tranquilidade, rejeitou o presente.

“Desculpe, Jaques, agradeço muito sua lembrança, mas não posso aceitar. São normas da empresa.”

“Mas é só uma lembrança, não interfere com nosso trabalho, tem um valor apenas simbólico.”

“Sei muito bem que sua intenção é essa, mas não me sinto bem, não é só uma norma da companhia, mas minha, íntima. O maior presente que você poderia dar já deu, honrando nossa escolha e confiança, fazendo um trabalho excelente”.

E, dirigindo-se a mim:

“Sinta-se livre para aceitar a caneta. Na verdade, em termos de valor, está dentro dos limites de tolerância da empresa”.

Claro que fiz o mesmo que ele e senti, no abraço de despedida de Jaques, que ele estava emocionado, como certamente estava surpreso positivamente pela atitude do Rios. Entendi então que compliance não é apenas uma regra corporativa, mas convicção pessoal.

Depois disso tive várias outras experiências semelhantes, algumas das quais, relato aqui.

Na Peixe, 10 anos depois, eu gerenciava marketing, vendas e compras de embalagens. Nosso fornecedor de copos para extrato de tomate e geléias era a Cristaleria Americana, cujo dono, Vicente de Benedictis, era uma figura muito especial. Seu escritório tinha não mais que 10 metros quadrados, mesa e arquivo de aço, sua cadeira gasta, uma poltrona de couro que, cambaleante, resistia ao tempo e só. Mas fora da empresa, morava numa belíssima casa nos Jardins e possuía três fazendas que se interligavam, na região de Amparo, interior de São Paulo, numa das quais havia mandado construir uma réplica do castelo de sua família na Itália.

Aos domingos recebia em casa para o aperitivo uma dezena de empresários e personalidades da política. Sentavam todos a uma enorme mesa que ele encabeçava, coberta com iguarias e bebidas. Era um privilégio fazer parte desse grupo, e eu estava incluído, indo pelo menos uma vez por mês regalar o paladar e ampliar o networking. Um participante importante e pouco assíduo era Laudo Natel, muito cotado para ser indicado governador biônico de São Paulo.

“Laudo vai ser o próximo governador. É indicação do ministro Delfim Neto e não tem erro. Quando acontecer, já falei com ele, você terá uma diretoria no Banespa. Depois, vai depender só de você” me disse Vicente, o que aguçou minha imaginação, acionando o aparelho de fabricar sonhos – até onde poderia chegar?

Laudo Natel foi de fato feito governador pelo regime militar e eu fiquei esperando o tal convite, que nunca se concretizou. Tomando coragem, cobrei do Vicente. Eis o que ouvi:

“Lembra do fim de semana que você passou na minha fazenda?”

Claro que lembrava. Minha mulher, grávida de nosso segundo filho, a primogênita ainda bebê e eu, havíamos passado lá um fim de semana, hospedados num chalé, cercados por natureza exuberante, luxo, obras de arte... No domingo, antes do almoço, entre doses de Chivas Regal, Vicente dispara:

“Você tem sido um cliente muito especial para nós. De amanhã em diante, cinco por cento de todos os pedidos que entrarem vão para você”.

“Bobagem Vicente. Você tem um produto competitivo em qualidade, está investindo na fábrica para melhorar ainda mais e tem os melhores preços do mercado. Isso basta. Agradeço, mas não”. Disse isso surpreso e constrangido pelo assédio, mas convicto e muito seguro.

Voltando à promessa de diretoria do Banespa:

“Lembra do fim de semana que você passou na minha fazenda? Pois bem, se ali você recusou minha oferta, como seria diante das inúmeras outras que receberia no Banco? Impossível, meu jovem amigo. Sinto muito”. Além dos aperitivos de domingo, a diretoria do Banespa e o futuro na política tinham se esvaído.

Mas houve outras oportunidades, entre as quais destaco duas. Depois de ter contribuído decisivamente para que Orestes Quércia fosse vice-governador de São Paulo, atendi contas médias do governo na CBBA Propeg e trabalhei próximo a ele. Numa ocasião, recebi de um intermediário a mensagem que Quércia gostaria que eu fosse Secretário de Comunicação em seu governo, as eleições se aproximando. Encaminhou-me para Otávio Ceccato, na época deputado estadual que eu conhecia bem, pois era intimamente ligado ao futuro governador. Ele confirmou a versão e fez a seguinte proposta:

“Para você conhecer melhor os bastidores, os meandros do governo e da política, vai assumir o cargo de diretor de marketing da Sabesp”. E acentuou: “O salário é certamente menor do que você tem hoje, mas vai ter muitas oportunidades de fazer complemento de renda facilmente”.

Complemento de renda? Agradeci, disse que estava honrado, mas tinha um compromisso com o grupo internacional que comprara a agência, de permanecer pelo menos um ano no posto, e teria que consultá-los. É preciso ter em mente que dizer não a esse tipo de oferta pode causar um longo exílio profissional e eu queria ser Secretário da Comunicação. Mas não por essa via. Assim, mantive a mentira, pois não havia compromisso nenhum com a JW Thompson, e rejeitei a oferta. A mentira atenuou a reação e, para melhorar ainda mais, indiquei para a posição um amigo, que recomendei afirmando que faria o trabalho melhor que eu. E fez. Reinaldo Costa assumiu o departamento na Sabesp e teve grande desempenho.

A última proposta que descrevo aqui, deixando de lado outras igualmente indecorosas, veio de um assessor direto de Orestes Quércia, que havia então sido eleito governador. Ele queria criar uma assessoria especial, com a missão de identificar oportunidades de ações novas. Claro que me entusiasmei com a perspectiva de efetivamente contribuir para uma gestão moderna. Trabalhei arduamente em pesquisas e formulei uma proposta que considerava imperdível, até porque não exigia grandes investimentos. Foi aí que inviabilizei meu projeto – vendo quanto custaria, o tal assessor, cujo nome não consigo lembrar, deu uma gargalhada que me indignou e cuspiu:

“Só isso? Não, não. Você não entendeu. Queremos ações que envolvam muito dinheiro e...”

Sem esperar que ele terminasse a frase, deixei a sala e, vendo que já era fim de tarde, entrei num bar e fui curtir minha ingenuidade e lamentar a perda de tempo, junto a um silencioso Jack Daniels, que soube bem me ouvir e confortar.

Se minhas decisões fossem outras, é possível que eu tivesse participado ativamente na política e, quem sabe, ter chegado a senador, ministro, por que não? Sei lá. E, claro, estaria “bem de vida” hoje.

Mas vamos considerar o “efeito borboleta”, que tem a ver com a dependência sensível às condições iniciais dentro da teoria do caos e é assim ilustrado: uma borboleta que bate suas asas na China pode causar um vendaval no Brasil. Hollywood produziu vários filmes com esse tema, o mais conhecido deles levando o nome de Efeito Borboleta, que mostra como um jovem consegue voltar ao passado e tenta corrigir uma atitude que havia resultado em desastre. A cada mudança de atitude, sua vida e dos que estão ao seu redor mudam radicalmente, com outras consequências igualmente desastrosas. Nada de excepcional como cinema, mas muito claro para exemplificar a teoria do caos.

E daí? Daí que se esses bater de asas que marcaram minha vida tivessem sido diferentes, minha estrada poderia ter sido na política e não no marketing. Só que, muito provavelmente, estaria agora no noticiário da operação Lava Jato.

Portanto, nada a mudar, nem se arrepender, concorda?

Até a próxima.

Julio Pimentel

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    Julio J. L. Pimentel, paulistano radicado em Florianópolis. É administrador com especialização em marketing (Unilever, Peixe, PepsiCola), publicitário (Almap, CBBA, JWThompson, Propeg, Ziegelmeyer Pimentel, Cavalcanti, Julianelli, Pimentel), professor (ESPM, ADVB) e atuante em associações de classe e comunitárias (ADVB, ABAP, Fundação Abrinq, IDES), além de palestrante e consultor.