Coluna Julio Pimentel | 60 anos na estrada: Beatles 60 anos.

14 de Agosto de 2017

O que há de comum entre os Beatles e meus anos de carreira? Aparentemente nada além do fato de que ambos começaram há 60 anos. Porém deve haver mais que isso, pois eu era jovem, eles encarnavam ideais progressistas e sua influência se estendia até as revoluções culturais e sociais daquela década. A banda, que se transformou no grupo musical mais bem-sucedido e aclamado da história da música popular, foi formada em Liverpool, em cujos pubs construiu sua reputação. Em 1965, quando eles ainda excursionavam pelo mundo, antes de se concentrar em gravações de estúdio, visitei Liverpool e pude constatar que havia, para quem como eu os admirava muito, um perceptível clima de beatlemania, mesmo sem sua presença na cidade. 

É sobre essa viagem que aproveito para discorrer aqui, já que foi evento que me proporcionou importante aprendizado profissional e de vida. Em 1965, depois de ter passado quatro anos no Rio de Janeiro, eu estava de volta a São Paulo dirigindo Atkinsons, a divisão de perfumaria do Grupo Lever, e fui mandado para participar do Advertising Course for Executives , um curso sobre publicidade que acontece anualmente em Londres, para jovens executivos de vários países. Era uma oportunidade rara e excepcional, em todos os sentidos.

O evento durava uma semana em Four Acres, localidade nos arredores de Londres onde eram hospedados cerca de 20 participantes, numa bela propriedade da Unilever, com campo de mini-golfe, quadra de tênis, excelente comida e muita cerveja a partir da happy hour. Hoje os participantes postam fotos na internet, que mostram grupos de homens e mulheres, mas naquela época iam apenas homens os quais, dizia a lenda, eram acordados por copeiras entrando nos quartos que não tinham chave, deixando uma xícara de chá sobre a mesa de cabeceira e abrindo as cortinas para despertá-los, tudo em não mais que 15 segundos. Era mesmo assim, eu constatei...

Era minha primeira viagem à Europa e consegui programar minhas férias para o final do curso, passagens e cheques de viagem no bolso.

Dos benefícios profissionais vou deixar para falar em outra oportunidade, peço agora a meus pacientes leitores para focar nos aspectos periféricos da viagem.

Voei pela KLM, que me proporcionou três dias absolutamente grátis em Amsterdã antes de Londres. Escolha perfeita, que me deu a oportunidade de conhecer uma cidade fantástica, os museus com Rambrandt, Van Gogh e outros imortais, uma cultura que abriu meus olhos para outra realidade, à qual não estava familiarizado. Menciono de passagem, como curiosidade, um restaurante incrível, com quatro ambientes diferentes e pratos com apresentações pirotécnicas, o Four Flyes. Não podia ter escolhido melhor a porta de entrada da Europa, que se descortinou depois com a tradição britânica. Tradition era algo que me era apresentado a toda hora e lugar – London Tower, Windsor, a Shakesperiana Stratford-Upon-Avon, os pubs, Eaton e, como disse antes, Liverpool.

Na primeira noite em Londres, após o jantar, executivos locais, encarregados de nos recepcionar, ofereceram diferentes opções de laser – shows, música, esporte, jogo. Estava à mesa com um norte americano que vou chamar de Charles, porque esqueci seu nome, e que se entusiasmou quando soube que podia jogar e eu fui na onda. Os dois, guiados por um londrino, acabamos num barco no rio Tâmisa, onde a lei permitia jogos de azar. Caça-níqueis à entrada, quase todos ocupados por velhas senhoras e poucas mesas bem frequentadas. Ao fundo, em destaque, uma mesa com Black-jack, o nosso conhecido 21.  Ali me senti confortável e me aboletei ao lado de Charles, que logo foi tentar a sorte em outras modalidades. 

Para encurtar a história, ao fim de mais ou menos uma hora eu estava perdendo toda minha reserva para as férias. Absolutamente tudo. Esforçava-me para aparentar uma fleuma britânica, mas podia sentir o suor escorrendo sob o terno pesado de inverno, enquanto imaginava o que faria sem recursos para a viagem programada com tanto entusiasmo.

O colega londrino, notando o que acontecia, fez uma intervenção, perguntando se eu queria parar, poderíamos voltar outra noite. Como parte de minha atuação fleumática, respondi que não, e acrescentei que mulher bonita e sorte não se misturam, o que fez com que minha vizinha de mesa, uma bela mulher, se oferecesse para mudar de lugar, o que fez, apesar de meus protestos e pedidos de desculpas.

Bem, em menos de meia hora eu havia não só recuperado tudo como ganho o suficiente para mais uns dias na Europa. Elegantemente agradeci à loira que devia estar ganhando, a julgar pelos sorrisos que distribuía, troquei minhas fichas e fui perder, com grande alívio, algumas moedas num caça-níquel, enquanto Charles perdia, em dólares, o que eu não conseguiria ganhar em um mês de salário. Ele voltou ao Tâmisa outras vezes tentando se recuperar, não sei se conseguiu, e eu preferi ficar no bar em 4 Acres, tomando cerveja e jogando pôquer de dados com orientadores do curso.

Pude, afinal, gozar minhas férias, depois da importante lição de vida adquirida naquela mesa de 21: em todas as vezes que voltei a cassinos, meu cacife ia no bolso, dinheiro vivo, pouco, que se fosse perdido não iria afetar em nada minha viagem, nem causar pânico. Coisa de jogador profissional...

Até a próxima.

Julio Pimentel

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    Julio J. L. Pimentel, paulistano radicado em Florianópolis. É administrador com especialização em marketing (Unilever, Peixe, PepsiCola), publicitário (Almap, CBBA, JWThompson, Propeg, Ziegelmeyer Pimentel, Cavalcanti, Julianelli, Pimentel), professor (ESPM, ADVB) e atuante em associações de classe e comunitárias (ADVB, ABAP, Fundação Abrinq, IDES), além de palestrante e consultor.