Coluna Inovação | A transformação do jornalismo não acontecerá sem a transformação do jornalista

31 de Outubro de 2019

Agora, o jornalista está sozinho. Se por um lado isso é ruim, porque ele tem cada vez menos oportunidades de trabalho em grande veículos, por outro há a possibilidade de criar novos projetos, explorar nichos. Mas é preciso também estimular um trabalho em rede.

 

Os fatos e a agenda das últimas semanas me levaram a uma reflexão sobre todas as transformações recentes no jornalismo, nos desafios enquanto profissional desta área, e o que pode vir pela frente - pro bem ou pro mal. Nesse ínterim, a maior empresa de mídia em Santa Catarina deixou de rodar suas edições impressas, o principal concorrente na região da Grande Florianópolis decidiu apostar na contracorrente e, no meio disso tudo, tive a oportunidade de conversar com várias pessoas sobre o papel do jornalista nesse ambiente todo de transformação digital.

No último sábado, por exemplo, participei do Shift Festival, em Joinville, evento muito bacana organizado pela Teken, agência local de marketing e que também promove eventos e que reuniu cerca de 500 pessoas no Ágora Tech Park para debater comunicação, tecnologia, empreendedorismo e novos negócios, mudanças na forma de viver e trabalhar etc. 

Lá, participei de um painel junto com o Felipe Silveira, editor do site local O Mirante, e da Livia Vieira, professora e uma das editoras do projeto Farol Jornalismo. Falamos sobre erros e acertos de projetos nos quais participamos - eu apresentando o case do SC Inova - o papel da imprensa segmentada e do profissional como um piéce de résistance nessa era de disseminação de fake news, impacto da inteligência artificial e muito mais…  

Poucos dias depois, a convite do pessoal da Raise Hands, agência de marketing de audiência, participei do podcast deles para abordar justamente… a transformação do jornalismo! O resultado pode ser conferido aqui e, dando um spoiler contextual, chegamos à conclusão que dá título a esta coluna: a transformação do jornalismo não acontecerá sem a transformação do jornalista.

Quando eu comecei no curso de Jornalismo, na segunda metade da década de 1990, não tinha familiaridade com computadores, mas concluí a graduação criando com um projeto editorial online, por sinal um dos primeiros a serem defendidos à época nesse formato, depois de aprender (um pouco em aulas mas muito por conta própria e com ajuda de colegas) a me virar com softwares de edição de páginas .html e um mínimo de linguagem de programação (que já esqueci). Foi o suficiente para me dedicar, pelos cinco anos seguintes, a outros projetos digitais em paralelo à minha rotina em redações e, eventualmente, fiz diversos trabalhos remunerados graças à mínima aptidão que adquiri.

Pois bem, voltamos a 2019 e encaramos agora um mundo completamente digital, em que praticamente todos os produtos, serviços e fontes de informação caminham para o consumo em telas cada vez menores. Os meios tradicionais impressos, que há até pouco tempo tinham o poder da circulação e distribuição em massa, perderam seu terreno seguro com a explosão de inúmeras redes sociais e do potencial de influenciadores, de canais segmentados, avacalhando com o castelinho de cartas hierarquizado que foi a base da indústria de mídia até então - a TV e o rádio ainda conseguem se adequar melhor a esses tempos, graças à carona que estão pegando junto às plataformas de streaming.

Agora, o jornalista está sozinho. Se por um lado isso é ruim, porque ele tem cada vez menos oportunidades de trabalho em grande veículos, por outro há a possibilidade de criar novos projetos, explorar nichos e fazer seu próprio negócio. Mas, mesmo que todo mundo vire empreendedor de uma hora pra outra, não haverá espaço pra todo mundo. É preciso desenvolver um trabalho em rede entre profissionais de diversas áreas da comunicação e do jornalismo, mentores para ajudar a desenvolver modelos de negócio e possíveis investidores e apoiadores para dar o suporte inicial.

Mas esse é um tema que deixarei para uma próxima coluna!

 

Fabricio Umpierres Rodrigues

  • imagem de umpierres@gmail.com
    Fabrício Rodrigues, editor do portal SC Inova, é jornalista com especialização em Gestão Empresarial. Atuou durante 12 anos como coordenador em agências de assessoria de imprensa (Dialetto e PalavraCom), foi repórter em jornais como Gazeta Mercantil SC, A Notícia e Folha de S. Paulo e editor de sites de cultura desde os tempos da Internet discada. www.scinova.com.br / E-mail: scinova@scinova.com.br