Coluna Fabrício Wolff | Terminologias Sociológicas

06 de Março de 2019

O advento “politicamente correto” fez com que a comunicação deixasse de ser clara e objetiva

A sociedade entrou em uma espiral de “avanço” que, por vezes, assusta àqueles que têm um mínimo de noção da simplicidade da realidade do cotidiano. O susto é potencializado quando se trata do significado das palavras e da boa comunicação. O “politicamente correto” dos sociólogos de plantão trouxe um cabedal de bobagens que acabaram contaminando a mídia e se tornando imposições para todos, ainda que não encontrem guarida nem na língua portuguesa, nem na morfologia das palavras.

Quando ministrava aulas na faculdade, nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração, uma das disciplinas em que atuei foi Língua Portuguesa. Mas para todos os alunos de todas as disciplinas em que atuei – e eram várias – usava um exemplo de como a sociedade, ao ir atrás das terminologias sociológicas, está complicando até mesmo um item fundamental para a harmonia entre as pessoas: o entendimento das mensagens, princípio básico para a comunicação. 

No momento em que esses malfadados termos foram incluídos na vida das pessoas pela ideia sociológica do “politicamente correto”, a comunicação começou a deixar de ser clara e objetiva, fatores que são básicos e fundamentais para uma boa comunicação. Dava o seguinte exemplo em sala de aula: quando você diz que alguém é cego, sabe exatamente qual a particularidade desta pessoa, entendendo exatamente a situação e sabendo até mesmo como agir, se for o caso.  Primeiro o cego virou deficiente visual. Você já não sabe se ele não enxerga nada ou usa óculos com alto grau de correção, por exemplo. Depois, ele virou “deficiente físico”, tornando mais generalista aquilo que seria particularizado.

Mas quando os sociólogos e seus asseclas disseram que chamar alguém de cego era ofensivo e cunharam o termo “deficiente físico”, a gente passou a não ter certeza da particularidade daquela pessoa. Afinal, deficiências físicas podem ser muitas. Resumindo: trocaram uma palavra exata por duas inexatas, prejudicando a comunicação em nome de uma pretensa “ofensa” que se fazia ao dizer que a pessoa tinha uma particularidade específica que ela realmente tem.

Não contentes com o desserviço prestado à comunicação – e, consequentemente, à sociedade – esses “arautos da moralidade” resolveram que deficiente físico também era um acinte às pessoas com essas particularidades. Então, essas “mentes brilhantes” cunharam um novo termo: portadores de necessidades especiais. Ou seja, aumentaram o número de palavras para dizer menos ainda, ser menos claros ainda. Abriram o leque da imbecilidade para sequer nos deixar saber se o cidadão cego tem uma deficiência física. Sim, porque portador de necessidade especial pode ser uma enorme gama de coisas, permitindo várias interpretações. 

Essas terminologias sociológicas que vem sendo inventadas ao longo das últimas décadas no Brasil vêm demonstrando, ao invés do que se pretende, uma sociedade preocupada em cuidar das palavras em vez de se preocupar efetivamente com aqueles a quem esses novos termos tendem a “proteger”. Talvez ali tenha se inaugurado os novos tempos do “mi-mi-mi”. De quebra, prejudicam a boa comunicação que tem por base, se não a compreensão mútua, pelo menos a intelecção daquilo que foi dito pela outra pessoa. É o caso de outro termo recém-criado e que exemplifica bem esta balbúrdia linguística atual: feminicídio. Mas este será tema de outra coluna, posteriormente.
 

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.