Coluna Fabricio Wolff | Enquanto isso, na UFSC...

23 de Setembro de 2019

A UFSC dá um recado claro à sociedade: não admite mudar o status quo reinante naquele reduto de ensino superior

 

Já estamos carecas de saber que os atos comunicam, certo?  Aliás, as atitudes comunicam melhor do que as próprias palavras, pois são a tradução prática daquilo que se pensa ou diz. Diante disto, fica claro o que a Universidade Federal de Santa Catarina comunica neste momento.

Ao, em uma mesma semana, rejeitar o programa Future-se, deflagrar uma greve e ver seu reitor tirar férias, a UFSC dá um recado claro à sociedade: não admite mudar o status quo reinante naquele reduto de ensino superior, acostumado bem mais aos embates ideológicos e facilidades financeiras do que aos novos tempos de austeridade econômica e contrapartida social.

Esquartejando o parágrafo imediatamente acima, começamos pelo Future-se, para o qual a UFSC disse não. O programa Future-se, proposto pelo Governo Federal, busca o fortalecimento da autonomia administrativa, financeira e da gestão das universidades e institutos federais. Essas ações serão desenvolvidas por meio de parcerias com organizações sociais. O programa se divide em três eixos. Gestão, Governança e Empreendedorismo, Pesquisa e Inovação e Internacionalização. 

Mas onde a coisa pega? No fato que o programa propõe “amarras” para uma melhor gestão, o que não é bem visto por aqueles que gostam da farra do gasto do dinheiro público. Ele propõe promover a sustentabilidade financeira, ao estabelecer limite de gasto com pessoal nas universidades e institutos — hoje, em média, 85% do orçamento das instituições são destinados para isso. 

Além disso, quer estabelecer requisitos de transparência, auditoria externa e compliance, bem como propiciar os meios para que departamentos de universidades arrecadem recursos próprios – o que alguns gestores das federais não querem, pois dá trabalho. Melhor é ficar sentado esperando dinheiro federal (dinheiro dos impostos que pagamos) para custear as despesas desenfreadas.

O contrassenso aumenta quando cerca de 30% dos universitários da UFSC deflagram uma greve contra o corte de recursos federais, aquele anunciado contingenciamento pelo Governo Federal, na mesma semana em que a universidade rejeita o Future-se (que, como coloquei acima, permite outras formas de captação de recursos). Ou seja, reclama-se da falta de dinheiro, mas não se quer contribuir para buscar os recursos necessários.

Chegamos então ao terceiro ponto daquele parágrafo: é cômodo gerenciar vultuosos recursos financeiros públicos (fala-se em R$ 1 bilhão/ano, algo comparado ao orçamento da prefeitura de Florianópolis, a capital catarinense) que chegam garantidamente, ao invés de ter que trabalhar para aumentar este montante, sendo auditado e tendo limites para a farra de salários e contratações. Um reitor de universidade ganha mais do que um governador de estado ou prefeito de capital, sem a mesma pressão que exercem Tribunal de Contas e Ministério Público sobre as contas da administração pública estadual ou municipal.

Resumindo: a UFSC comunica que está na contramão dos novos tempos, onde a sociedade exige austeridades nos gastos, transparência e respeito ao dinheiro público. Isto não tira a importância histórica da universidade na formação de gerações de profissionais para o mercado. Mas isso só não basta diante de nossa realidade. Resultados acadêmicos são bom discurso para universidades particulares, onde os alunos – e só eles – pagam pelo ensino obtido. Quando o dinheiro é de todos, é preciso muito mais do que resultados acadêmicos.

Para piorar a situação, cresce cada vez mais a crítica ao sistema de universidades públicas gratuitas onde os estudantes, ao se graduarem no curso escolhido – e, reitero, pago por todos nós, não dão qualquer contrapartida à sociedade (aquele conjunto de pessoas que pagou os seus estudos). Aliás, este é um novo desafio para o Governo Federal: estudar uma fórmula em que os universitários de universidades federais, que estudam com o dinheiro de todos os pagadores de impostos, sejam obrigados a dar uma contrapartida à sociedade. A prestação de serviços gratuitos à comunidade dentro da área de formação logo após a conclusão do curso, por um período determinado, soa como a melhor maneira de se fazer justiça social neste caso.

Verdade; vivemos novos tempos em que os discursos (especialmente ideológicos) não bastam para saciar a sede e fome de justiça social que o brasileiro tem. A sociedade comunica que é necessário que todos deem sua contrapartida para a construção de um país melhor e mais justo. O que não se esperava, é que a UFSC fosse comunicar exatamente o contrário aos catarinenses.

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.